Saudosismo de jornalista

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Ando desconsolado com o rumo que vem tomando a profissão de jornalista. Entrei nela como opção de militância contra...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Ando desconsolado com o rumo que vem tomando a profissão de jornalista. Entrei nela como opção de militância contra a ditadura, na imprensa alternativa, e vejo que hoje ainda existem alguns jornalistas com espírito de nadar contra a corrente, de duvidar das versões oficiais ou patronais, de não aceitar como certo e verdade absoluta o que dizem paus-mandados em geral, seja do sistema político, seja do poder econômico. A regra geral parece ser esta: empresário falou, tá falado; patrão mandou fazer matéria assim e assim, a matéria sairá assim e assim.
Fiquei me lembrando do Marcos Faerman, um gaúcho que morava em São Paulo e era um apaixonado pela profissão. Trabalhava na grande imprensa, mas punha opinião e paixão em tudo que escrevia, e militou também na imprensa alternativa. Morreu num dia de Carnaval há alguns anos. Minha memória desviou da imprensa para o personagem Marcos Faerman.
O Marcão, como todo mundo o chamava, trabalhava no Jornal da Tarde e o jornal Versus era ainda um projeto discutido em reuniões semanais na casa dele quando o conheci. Vários intelectuais planejavam o que seria o jornal alternativo mais bonito daquela fase de grande importância dos alternativos. Boris Schnaiderman, Moacir Amâncio, Modesto Carone e outros letrados imaginavam o conteúdo escrito do futuro jornal. Toninho Mendes e Joca Pereira faziam o projeto gráfico. Apresentado ao Marcos Faerman pelo Marcos Wilson, meu colega do curso de jornalismo, fui incorporado ao grupo.
Foi minha iniciação no jornalismo. Tive muita sorte.
O Marcão tinha fama de centralizador e vaidoso. E era. Mas dava oportunidade pra todo mundo. Uma coisa aparentemente contraditória, mas era assim. Ficava com o ego superinflado quando alguém o elogiava ou falava de uma matéria dele. No jornal, queria saber tudo o que se passava, lia todas as matérias, tinha poder de decisão. Mas todo mundo que aparecia por lá querendo colaborar tinha oportunidade, desde que não fosse nenhum policial querendo se infiltrar.
O Versus circulava em quase toda a América Latina, e tinha colaboradores como Júlio Cortázar, Gabriel Garcia Marquez, Ariel Dorffman, Galeano… Um dia apareceu por lá um argentino dizendo que tinha fugido para o Brasil porque era perseguido político, e queria “abrigo” no Versus, que era um jornal “latino-americanista”. Suspeitamos. Por coincidência estava lá um colaborador nosso, o Cortázar, sobrinho do escritor argentino. Pusemos os dois pra conversar e, em pouco tempo Cortázar soltou umas boas gargalhadas e mandou o cara embora. Descobriu que o cara era perseguido mesmo na Argentina, mas pelos Montoneros, o grupo guerrilheiro de esquerda. Ele fazia parte dos grupos direitistas de extermínio, talvez da famosa AAA – Aliança Anticomunista Argentina, uma organização assassina. Pra este, não teve oportunidade. Mas no Versus era difícil parar mulher bonita. Havia lá uns três caras que cantavam todas e elas se mandavam.
Um início de noite, cheguei pra um fechamento do jornal – a gente tinha emprego, trabalhar no Versus era militância – e o Marcos estava com aquela voz macia, um palavrea-
do dócil, e extremamente democrático. Comecei a desconfiar: “Tem mulher nova no pedaço. E pelo jeito deve ser bonita pra chuchu…”.
Num determinado momento, o Marcão pegou os originais de uma matéria chegada pelo correio e entregou ao office-boy:
– Davi, por favor, leia esta matéria e me dê sua opinião.
Aí não tive dúvida: havia mulher nova na redação. Corri para a sala de reuniões e havia mesmo. Não uma. Duas, novinhas, lindinhas..



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