Tecnologia a serviço da liberdade

Uso de novas ferramentas informáticas permite a difusão de obras culturais e acadêmicas e até receita de cerveja Por Marilia Melhado e Priscila Basile   A maioria...

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Uso de novas ferramentas informáticas permite a difusão de obras culturais e acadêmicas e até receita de cerveja

Por Marilia Melhado e Priscila Basile

 

A maioria dos universitários já deve ter se incomodado com os preços altos de publicações e a impossibilidade de xerocar livros. E qual artista nunca foi tentado a reproduzir trechos de músicas, remixar vídeos, repensar idéias, compartilhar experiências e inspirações, incluindo-as em algum projeto novo? Pois é, a licença copyright é o que barra e criminaliza tanto a xerox do livro quanto o remix das músicas, sem a autorização prévia dos autores. Contudo, hoje em dia novas formas de licenciamento de cultura foram idealizadas, e a principal delas é a Creative Commons (CC).
A licença foi criada pelo professor de Direito da Universidade de Stanford (EUA) Lawrence Lessig, impulsionada pela internet, pela vontade de democratizar o acesso à informação, além de criar e recriar obras coletivamente. Lessig preocupou-se em reservar apenas alguns direitos às obras, possibilitando que qualquer indivíduo possa copiar, distribuir, exibir, executar e criar conteúdos derivados – desde que citado o autor. Com a Creative Commons, somente o uso para fins comerciais é restrito, embora o inventor também tenha a opção de abdicar desse direito.
Ronaldo Lemos, professor da FGV-RJ e representante do CC Brasil explica que o número de livros, vídeos e músicas lançados no Brasil por selos sob o copyright não são suficientes para atender à demanda da população. “É preciso considerar os aspectos bons e ruins da globalização e usá-los para democratizar o conhecimento e a cultura produzidos também pelas periferias mundiais. O cinema independente nigeriano, por exemplo, tem distribuição alternativa, devemos incentivar e compartilhar esse tipo de produção”, pontua. No ano passado, Lemos sugeriu que o maior e mais importante Encontro de Cultura Livre do mundo, o iSummit, acontecesse no país. Em junho de 2006, o pedido foi atendido e o Rio de Janeiro foi palco dessa convenção que reuniu representantes de 50 países para desenvolver formas de expansão da nova licença e apresentar projetos que utilizam a criação coletiva.
O ministro Gilberto Gil compareceu à abertura do iSummit. Simpático à idéia da recriação de obras, lembrou de suas raízes tropicalistas. “Fui vaiado nos anos 1960 por tocar com uma banda de rock porque os estudantes achavam que o rock não era bom para a cultura do Brasil. Mas eu gosto de misturar chiclete com banana.” Gil anunciou que a agência pública de notícias, Radiobras, a partir de agora terá seu conteúdo protegido pela licença criada por Lessig. O ministro também tem algumas obras sob o Creative Commons, como é o caso da música “Máquina de Ritmo”.
A gravadora Trama, pioneira em disponibilizar conteúdo gratuito para os internautas no Brasil, já conta com um acervo de cerca de 8 mil músicas para downloads. André Szajman, presidente da empresa, explica que “a tecnologia deve servir à música e não o contrário. Dessa forma, o mundo digital deve ser usado para a difusão”. Os grupos musicais Mombojó e Totonho e os Cabras – ambos da Trama – já têm seus conteúdos abertos para cópia, distribuição e remix. O conjunto Cansei de Ser Sexy também foi apresentado ao mundo através do TramaVirtual. Devido ao grande número de downloads de músicas da banda, a gravadora decidiu lançar um disco. Hoje, o grupo paulistano faz parte do time de artistas que entra para a história brasileira como o primeiro a disponibilizar um álbum totalmente on-line. Atualmente, o projeto é considerado a maior comunidade de música brasileira independente sem custos para bandas e usuários.

As novas
vedetes da rede
O próprio formato da internet traz novas possibilidades. Veículos como blogs, podcasts, páginas pessoais trouxeram a possibilidade de qualquer um ser mídia. O mais importante desse aspecto é a descentralização tanto do conteúdo, quanto da posse da informação pelos grandes meios de comunicação. Um exemplo que vale ser citado é o site de jornalismo colaborativo Overmundo, direcionado à cultura. O site agrega usuários cadastrados de todas as partes do Brasil. Uma grande comunidade virtual, cujos editores são os próprios usuários, dá dicas para a melhoraria do texto e aperfeiçoamento da informação.
O projeto Science Commons usa o selo Creative Commons sob a publicação de pesquisas acadêmicas. O diretor-executivo do Science Commons, John Wilbanks, explica que artigos serão totalmente digitalizados para serem disponibilizados na rede, criando pontes para que o conhecimento chegue a outras partes do mundo, que também criam e inovam o saber. “A licença dará o direito para que algum relatório possa ser traduzido e citado em outras pesquisas, isso sem precisar de autorização previa do autor”, afirma Wilbanks
Um projeto sul-africano foi responsável por um dos grandes momentos do iSummit 2006. A máquina Freedom Toaster (torradeira da liberdade) surgiu da dificuldade em encontrar o sistema operacional Linux e softwares livres para uso pessoal. Hoje, existem “torradeiras” principalmente na África do Sul, mas no site oficial há manuais disponíveis para a construção da engenhoca em qualquer lugar do mundo.
O subtítulo de outro projeto apresentado é claro e direto: “Compartilhe seus vídeos com o mundo e ganhe dinheiro”. O Revver foi desenvolvido para compartilhar vídeos gratuitamente, mas garantir retorno financeiro ao dono da obra, “o criador do vídeo ganha dinheiro toda a vez que alguém assiste à produção até o fim. Por isso, encorajamos todos a produzirem vídeos curtos e divertidos. Muito mais gente vai querer dar o play”, garante Steven Starr, representante do Revver. A banda norte-americana Dixie Chicks tem clipes inscritos no Revver e, para Steven Starr, “são esses artistas que sairão ganhando com a tecnologia”. Para assistir aos vídeos, é necessário baixar gratuitamente o programa Quicktime na página da Apple.
Uma boa dica para os entusiastas de bebidas é o programa Free Beer, que, ao contrário do que possa parecer, não quer dizer “cerveja grátis”, mas sim “cerveja livre”. Uma dupla de dinamarqueses decidiu entrar na onda dos arquivos de conteúdo aberto e criou uma receita de cerveja para ser difundida e alterada pela internet. Henrik Moltke, criador da receita, conta que, ao final da experiência, o líquido foi provado e a mistura agradou ao paladar de todos. “Até o ministro Gilberto Gil experimentou”, conta o dinamarquês, entusiasmado com o sucesso das 26 garrafas trazidas dentro da mala para o iSummit 2006 F



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