Toques Musicais

A visão de Julinho Bittencourt sobre música Por Julinho Bittencourt   “QUANDO EU ERA GAROTO, LÁ NA TIJUCA, EU DORMIA OUVINDO O SURDO DO SALGUEIRO. O meu...

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A visão de Julinho Bittencourt sobre música

Por Julinho Bittencourt

 

“QUANDO EU ERA GAROTO, LÁ NA TIJUCA, EU DORMIA OUVINDO O SURDO DO SALGUEIRO. O meu baixo vem daí.” Esta frase de BEBETO CASTILHO, mitológico baixista, flautista e cantor do Tamba Trio, talvez explique em parte o que se percebe ouvindo o seu recém-lançado e praticamente primeiro disco-solo, AMENDOEIRA.
Quem ouve o som de Bebeto ouve décadas e mais décadas de Brasil. E, com tudo o que a música é capaz de produzir de mágico, enxerga o mar do Rio, as calçadas de Copacabana, sente o cheiro do mar e, acima de tudo, mergulha em um país que acreditava em si próprio e inventava uma das canções populares mais plenas do mundo. Quem ouve Bebeto, portanto, ouve desde o princípio até o fim, bem ao fundo, irretocável e correto, feito o canto de toda uma gente, o surdo do Salgueiro.
Lá se foram pra lá de 40 anos desde então. Bebeto parecia coisa da história quando o seu sobrinho Marcelo Camelo, do grupo Los Hermanos, o arrastou para dentro de um estúdio, produziu ao lado de seu colega Kassin e lançou o primoroso disco Amendoeira. Feito sonho ou coisa encantada, o tempo feito de passado e modernidade se reagrupou em torno das notas e cantigas, algumas bem antigas, outras novas e muitas delas eternas. E toda uma geração que nunca envelhece, tampouco morre, de Caetanos, Miltons etc. renasceu de paixões e teceu loas mais uma vez a Bebeto. Quem duvidar leia o texto de Caetano para a capa onde, entre outras coisas, chama o disco de histórico e sagrado.
Bebeto está com 66 anos. Influenciou praticamente toda uma geração de músicos que veio logo depois dele. O disco, como não poderia deixar de ser, tem um trio básico, bem no estilo do Tamba Trio, seu antológico grupo. O pianista que centra tudo é outro bamba, Laércio de Freitas, que ataca ora com um Fender Rhodes e outras com o pianão acústico mesmo. Na bateria, Ivo Caldas e várias participações especiais. No mais é Bebeto cantando, Bebeto na flauta e, é claro, no contrabaixo. Imperdível.

COMO TAMBÉM É DOIS PANOS PRA MANGA, DE JOÃO DONATO E PAULO MOURA. Dois talentos maravilhosos da nossa música, sozinhos e juntos com mais ninguém além do piano de um e o clarinete de outro. Um disco fadado a virar clássico, ser referência e, o que é o melhor de tudo, ser ouvido com muito prazer.
O projeto é simples. João Donato toca piano, Paulo Moura, clarinete, e o repertório é composto de clássicos que atravessaram a máquina do tempo, diretamente do Sinatra-Sarney Fan Clube, uma espécie de templo musical gerador da bossa nova. Jovens músicos se reuniam para tocar e cantar canções do repertório dos dois cantores e várias outras que se ouvia na época.
Donato e Moura eram alguns desses músicos, amigos desde o final da década de 1950. Reuniram-se nos dias de hoje e começaram, como quem não quer nada, a relembrar aqueles temas de então. Daí para a idéia do disco foi um pulo. Em pouco menos de uma semana, durante o mês de fevereiro deste ano, resolveram a questão. A sonoridade é espantosa de agradável e fluida. Tudo acontece como se já estivesse pronto desde sempre. Como se tivesse sido ensaiado durante estes mais de 50 anos e só agora chega ao público.
Dois Panos pra Manga é um lindo disco, feito de simplicidade e muito talento. É daquelas coisas que parecem construídas de nostalgia, e de certa forma são mesmo, mas que tem um compromisso irremediável com o futuro.

FRANCIS HIME ESTÁ DE VOLTA AO DISCO E SÓ ISSO JÁ É RAZÃO DE FESTA. Além de gravar com regularidade de garoto, produz canções com gana de guri e a experiência de um mestre. O resultado é o lírico e derramado ARQUITETURA DA FLOR, seu segundo disco pelo Biscoito Fino, selo que tem a direção artística de sua esposa de toda a vida e parceira, Olívia Hime.
Numa primeira audição quase nada mudou na sua canção sólida e bem construída. Após várias e prazerosas ouvidas, as boas surpresas de sempre estão todas ali, como se fosse possível mudar sem mudar, inovar sem perder a tradição, ser o mesmo quando isso significa ser um inovador irremediável.
As canções falam por si só. São, de fato, o que há de melhor no disco. Os arranjos muito discretos demonstram apenas as intenções instrumentais. O que fica mesmo é a essência. Além disso, Francis sempre trabalhou com excelentes letristas e dessa vez também não deixou por menos. A maior parte delas foi feita com Geraldo Carneiro, uma com Olívia Hime, outra surpreendente com Toquinho, normalmente afeito às melodias. Tem ainda duas outras com Abel Silva, uma delas composta a partir do poema “Consolação”, de Vinícius de Moraes, e a grande cartada do disco que é o belo samba “Sem Saudades”, composição feita a partir de uma letra inédita de Cartola, com participação especial de Zélia Duncan. Atento ao que acontece de novo, Francis ainda grava outra bela parceria com a cantora e compositora Simone Guimarães, prata da Biscoito Fino, uma das participantes do disco Pietá, de Milton Nascimento.

ELA É DE TAQUARITINGA, NO INTERIOR DE SÃO PAULO, ESTUDOU REGÊNCIA NA Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e tem um apreço irresistível pela canção brasileira, mais particularmente aquela do mato e das cidades pequenas, ou seja, sem eufemismo algum, a canção caipira. E é essa erudição sertaneja que está presente no delicioso disco AVARANDADO, de ANA SALVANGNI, que acaba de chegar a nós, apesar de ter sido gravado em 2004. Avarandado é produzido por ela mesma, mas tem a presença marcante do violeiro Paulo Freire. O título do CD, tirado da linda canção de Caetano Veloso, dá o conceito que a cantora pretende (e consegue plenamente) com o clima da gravação. São músicas que vão da década de 1930 até a de 1970, algumas delas urbanas. Mas tudo o que se ouve tem o tom da roça, com muito esmero e elaboração. O melhor mesmo é colocar o disco, sentar num cantinho da varanda e se deixar impregnar pelo Brasil delicado, suave e prenhe de excelência que a cantora nos traz de volta.



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