Toques Musicais

A visão de Julinho Bittencourt sobre música Por Por Julinho Bittencourt   A AVENTURA DE STING EM FORA DO TOM (BROKEN MUSIC), SEU LIVRO DE MEMÓRIAS, começa...

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A visão de Julinho Bittencourt sobre música

Por Por Julinho Bittencourt

 

A AVENTURA DE STING EM FORA DO TOM (BROKEN MUSIC), SEU LIVRO DE MEMÓRIAS, começa em uma noite chuvosa, no inverno de 1987, no Copacabana Palace, às vésperas, segundo ele, de um dos shows mais importantes de sua vida, no estádio do Maracanã. Seu pai tinha morrido há alguns dias e sua mãe, meses antes. O cantor e sua esposa aguardavam então um casal de amigos que os levaria para um ritual numa igreja, pelo que ele descreve, provavelmente na floresta da Tijuca. Os dois vão, pela primeira vez na vida, experimentar uma beberagem extraída de vegetais conhecida como ayahuasca. Trocando em miúdos, Sting e sua esposa vão num ri¬tual do Santo Daime, que ele faz questão de deixar claro ser completamente legal no Brasil.
Com uma narrativa muito prazerosa e fluida, o cantor descreve passo a passo a cerimônia, que conta com canções brasileiras que ele reconhece, demonstrando uma grande familiaridade com a nossa música. Sua reação à droga, ao lado da esposa e de mais duas centenas de pessoas que ele nunca havia visto na vida, é uma verdadeira descida aos infernos. Aos seus infernos. Vai parar na infância em Wallsend e Newcastle e termina nos primeiros tempos do Police, banda que o projetou para a fama. E é este basicamente o enredo do livro.
O que surpreende de cara em Fora do Tom é a intimidade com a narrativa que tem o compositor. Está a anos-luz de ser um livro típico de um roqueiro. Sting é culto e seu texto repleto de citações. Lida com a própria vida sem auto-indulgência e tampouco falsa modéstia. Conhece seus limites, mas também seus talentos. E discorre sobre isso com naturalidade impressionante. O epicentro de toda a trama, o centro de seus fantasmas transita em torno da traição de sua mãe. Ele, menino de 8 anos, a flagra aos amassos com um auxiliar do pai, que era leiteiro. Nunca abriu a boca para falar sobre o assunto. Passaram-se 20 anos até o pai descobrir e não se separar e, muito ao contrário, ser abandonado por ela, mas aceitá-la de volta sem perguntas. Enquanto isso, o artista paga seus pecados entre sua profissão de professor infantil e um semi-amadorismo como músico, que parece não ter fim, por vezes às custas do seguro-desemprego, apostando corrida com as contas e, acima de tudo, a nos mostrar de forma nua e crua que as coisas no Velho Mundo não parecem tão diferentes do Brasil.
Outra evidência primordial do livro é a sua formação, os Beatles e tantos outros artistas que o influenciaram, seus esforços como instrumentista e cantor, suas primeiras canções, detalhes que deixam bem claro que seu talento não veio do nada, mas foi resultado de muito esforço. Comenta sobre sua primeira banda, a Last Exit, que ele brinca com o nome azarão todo o tempo. A maior parte do livro se fixa em Newcastle e suas aventuras com os amigos e colegas desta banda. O Sting famoso quase não aparece. O tempo todo lidamos com um personagem comum, suas agruras, paixões, casamentos desfeitos e sua busca por um lugar ao sol.
E quando o sol vai finalmente aparecer, ele deixa o leitor. Termina o livro, ao que parece feito para acertar suas contas com a memória tumultuada que tem do pai e da mãe e, conseqüentemente, com a primeira fase de sua vida. No momento em que sua canção “Roxanne” explode no Reino Unido e, logo em seguida, no mundo, Sting sai de cena. O que interessa a ele contar fica no humano. O mito habita outro tempo. Com isso, muito mais do que um livro de memórias, Fora do Tom é um belo romance sobre como era ser jovem e pobre na Inglaterra das décadas de 1970 e 1980, ou seja, logo ali no começo do pesadelo.

JOYCE E DORI CAYMMI SÃO DOIS REPRESENTANTES DA FINA FLOR DA NOSSA MÚSICA que, pela primeira vez, se juntam para fazer um disco. O título RIO-BAHIA é quase uma ironia, já que os dois são cariocas. Mas não há problema nenhum, pois tudo se encaixa perfeitamente. Dori é filho do maior de todos os baianos da nossa música, o velho Dorival, e Joyce foi casada por muitos anos com o baiano Tutty Moreno, baterista e pai das suas filhas Clara e Ana. Mais do que isso, a música que eles sempre fizeram gira em torno desse eixo. Está intimamente ligada à bossa nova, onde o baiano João Gilberto e os cariocas Tom e Vinícius tiveram papel fundamental.
Rio-Bahia é uma brincadeira bem séria com isso tudo mesmo, ou seja, os melhores e mais difundidos elementos da nossa canção popular. Com várias canções inéditas e dois ou três clássicos, os dois fazem um disco pra lá de divertido, bem executado, cheio da alegria da praia, da preguiça baiana e da malandragem carioca e vice-versa. A única preguiça que não existe aqui é aquela de encontrar o acorde certo, o andamento, as notas da melodia e as letras precisas. Em 1968, Dori fez os arranjos de Joyce, primeiro disco dela. Hoje, 38 anos depois, se reencontram neste, mais jovens e modernos do que nunca.
E POR FALAR NO RIO, O CANTOR CARIOCA MARCOS SACRAMENTO ACABA DE LANÇAR, ao lado do pianista CARLOS FUCHS, o inusitado FOSSA NOVA. Seu disco anterior, Memorável Samba, era todo composto por sambas antigos e prenhe de balanço. Para surpresa geral, este de agora é feito em duo com voz e piano, só traz composições próprias e a coisa que menos tem é ritmo, suingue e balanço.
As interpretações do cantor são preciosas, cautelosas, sem grande eloqüên¬cia nem truques ou vôos rasantes sobre a platéia. O piano e as melodias de Carlos Fuchs são pensados a cada palavra, cada verso. Se Memorável Samba era uma feijoada para ser devorada no quintal, ao lado de muitos amigos, Fossa Nova é um prato fino e exótico, que deve ser saboreado só, aos poucos, com a percepção aberta por todos os poros.
As construções harmônicas de Fuchs vêm de vários gêneros e intenções musicais. É muito clara a influência da música erudita. No seu piano, ouvimos coisas que vão do barroco ao impressionismo, deixando bem clara uma preferência pelo jazz de Bill Evans e a bossa nova. O canto de Sacramento é mais derramado, afeito mesmo ao cancioneiro popular brasileiro mais brejeiro. A mistura deu um sabor único e inconfundível ao disco. As influências e a sonoridade final ficam exatamente naquele ponto, lá pelas décadas de 1940 e 1950, quando o choro e o samba brasileiro se preparavam para virar a bossa. No instante em que a antítese virava a síntese.



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