Toques musicais

A visão de Julinho Bittencourt sobre música Por Por Julinho Bittencourt   JÁ ERA FINAL DE NOITE. ELE APARECEU NO SAUDOSO BAR DA PRAIA, DE SANTOS, e...

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A visão de Julinho Bittencourt sobre música

Por Por Julinho Bittencourt

 

JÁ ERA FINAL DE NOITE. ELE APARECEU NO SAUDOSO BAR DA PRAIA, DE SANTOS, e foi alegria e espanto. Bastaram alguns minutos para que todos percebessem que se tratava de uma pessoa tranqüila, engraçada e, por hábito e pelo avançado da hora, em estado um tanto acima dos incautos. Ali na nossa frente, em movimentos dúbios, desfazia e comprovava a lenda que tínhamos dele. Era um herói do nosso tempo, militante comunista e do teatro, intelectual e boêmio, autor e ator e também, como se não bastasse, letrista de algumas das nossas melhores canções populares.
Era GIANFRANCESCO GUARNIERI. Aquele mesmo que eu menino aprendi a amar como o “Tonho da Lua”, das Mulheres das Areias de Itanhaém e, naquela noite, como um baita cara legal. E aí foi conversa a perder de vista e fala. Seu rosto se iluminou enquanto contava a gestação de sua peça Arena Conta Zumbi, de 1965. Lembrava texto por texto, atores, montagem e as parcerias com o então jovem Edu Lobo: “Imagina, Edu, imagina o neguinho pelado, upa, nariz sujo, na estradinha de barro, imagina ele brincando, upa, pulando pra lá e pra cá, imagina!”. Enquanto contava batia palmas e repetia o bordão: “Upa, Neguinho, Upa!”. Segundo disse, Edu Lobo, bem mais retraído, dedilhava o violão e cantarolava, à medida que ele lhe dava os versos: “Patapatri tri tri tri tri pa tá tá, upa neguinho na estrada, upa pra lá e pra cá, vixe que coisa mais linda, upa neguinho começando a andar, começando a andar, começando a andar… e já começa a apanhar”.
Este é um dos maiores sucessos da dupla. Ficou pra lá de conhecida na inesquecível interpretação de Elis Regina. No entanto, Guarnieri fez várias outras canções, a grande maioria com o próprio Edu Lobo mesmo. Entre elas, a truncada “Cinco Crianças”, já da fase posterior a que o músico estudou em Los Angeles. Todas, assim como tudo o que fazia, exigiam mudanças. Trazia na sua obra a marca da indignação sem com isso perder, em momento algum, o talho, a possibilidade do belo.
Aquela noite, no Bar da Praia, Guarnieri estava secretário de Cultura do então governador de São Paulo Mario Covas. Estava ali de verdade, trupicava, ia ao banheiro, ria alto. Mas era, e não deixava de ser em momento algum, o artista e seu sonho, desenhado de utopias com suas obras impossíveis. Riscava no espaço à sua volta e era o teatro com os seus movimentos. Cantava e era a canção, falava e era o texto e o ator.
Não tem essa de dizer que Guarnieri se foi, mas seu teatro fica. Ele se foi junto dele nesse triste, seco e gelado julho de 2006, em que perdemos também Raul Cortez. O teatro desvanece-se assim que baixa o pano. O ficar depende de quem viu, ouviu e se habilita a carregá-lo nos ombros. E a grande obra pesa, é feita de todos os homens de bem e caminha sempre na mesma direção.
E é nessa direção que fica inevitável voltar ao assunto. O disco CARIOCA, de CHICO BUARQUE, vem em duas versões. Uma delas simples e a segunda, um pouco mais cara, com o DVD. Nele está o filme DESCONSTRUÇÃO, que trata, como dizem por aí, do making off do disco. A idéia de filmar a gestação de uma obra é tão gasta que ganhou até nome na indústria. Alguns são chatíssimos, outros curiosos e alguns, como é o caso deste, primorosos.
A qualidade do filme, dirigido, produzido e captado por BRUNO NATAL, passa, é claro, pelo objeto que ele está filmando e o interesse que desperta. Mas vai além, muito além. O filme tem o mérito de acompanhar o cantor e sua equipe de forma quase invasiva, sem dissimular. Ninguém esconde nem finge esconder que está sendo filmado. Isso não impede, no entanto, que Desconstrução tenha vários momentos de intimidade explícita e muitas revelações surpreendentes.
A principal delas é a simplicidade com que o autor lida com a sua obra, amigos e colegas de trabalho. Em vários momentos pede conselhos, se mostra preocupado de fato com a opinião dos outros e, principalmente, muda trechos de suas letras. Um exemplo é o cacófato “como um gato e sua dona”, apontado pelo produtor Pedro Seiler. Num clima confuso, que fica entre a gozação meio tímida (afinal trata-se de Chico Buarque) e a explícita, diante da inesperada palavra suadona, Chico silencia, pensa e rapidamente muda o verso para “feito um gato aos pés da dona” e todos aprovam. No áudio segue a canção, que é de fato linda.
Uma das suas brincadeiras acaba por se transformar no melhor momento do filme. Ele havia recebido, tempos antes, uma melodia do seu baixista Jorge Helder, para letrar. Na primeira cena, conta para todos e pede que Jorge seja chamado no dia seguinte, de surpresa, para gravar a canção. Na cena seguinte, já em outro dia, o músico chega. Depois de alguma onda, Chico revela a farsa e mostra a letra, diante de um emocionado e inesperado parceiro que, chorando, pede inutilmente que não seja filmado.
O reconhecidamente tímido Chico Buarque se revela neste documentário como poucas vezes fez na vida. Fala palavrões todo o tempo, manifesta suas fragilidades musicais e inseguranças sem nenhuma falsa modéstia. Em outro momento, conta que compra suas canções de fornecedores que conhece das ruas. Diz que alguns cobram caro, outros são ruins, outros melhores e a que faz as canções no feminino é uma moça.
Enquanto rola a brincadeira, o disco vai se aprontando de forma mais límpida. Vários detalhes que escapam aos ouvintes são escancarados sem pudor algum. Arranjos sendo montados, truques, vozes corrigidas, depoimentos de técnicos, do arranjador Luis Cláudio Ramos e dos músicos e do próprio autor. O clima de Big Brother só não seria mais predominante em função das entrevistas e, é claro, da inteligência que predomina durante todo o tempo do filme.
O disco Carioca é imperdível. Mais uma obra genial de Chico Buarque. E o filme Desconstrução, de Bruno Natal, consegue torná-lo melhor ainda.



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