Toques Musicais

Dicas musicais de Julinho Bittencourt Por Julinho Bittencourt   Caetano Veloso declarou durante o primeiro turno das eleições que não era louco nem idiota para votar em Lula....

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Dicas musicais de Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 

Caetano Veloso declarou durante o primeiro turno das eleições que não era louco nem idiota para votar em Lula. Assim que foi promulgado o resultado das eleições foi um dos primeiros a se manifestar. Disse que havia votado em Alckmin, mas poderia agora depositar sua confiança em Lula. Foi mais longe ainda. No Rio, seu domicílio eleitoral, poderia votar em Sérgio Cabral, mas também em Denise Frossard ou também em Frossard, mas provavelmente em Cabral. Ou não.
O mesmo Caetano nos fez votar em seus discos de música latina com salsas, boleros, e tantos outros ritmos caribenhos. Escolhemos feito loucos seu roque, samba, bossa, gravações de standards americanos, manifestos pró, a favor, contra e muito pelo contrário. Qual idiotas sorvemos a sua poesia concreta e música caipira, música eletrônica, subliteratura, cinema mudo falado, enfim, demos posse à sua instigante ambigüidade por todos os cantos onde conseguiu ser ouvido.
Num momento em que parecia não faltar mais nada, já passado dos sessenta, com prestígio, fama e fortuna, pega os amigos do filho mais velho e lança Cê, abreviatura coloquial para você. Um disco muito próximo do pop inglês alternativo ou, como preferem os iniciados, meio assim, indie, entendem?
Em um primeiro momento creio que não somos nem loucos e nem idiotas para gostar da aparente opção pela absoluta falta de estética e lirismo. Depois de deglutir, digerir, ouvir, ouvir e ouvir, talvez gostemos. Ou não. A imprensa, de forma geral, insistiu em comparar o disco com Carioca, de Chico Buarque. Os dois não lançavam nada inédito já fazia um certo tempo. Enquanto Caetano partiu para a sujeira e simplicidade da linguagem do roque, Chico se entregava ao preciosismo. Entre os modernos, Caetano ganhou e entre os tradicionalistas, Chico. Até aí nada de novo. Eu, da minha parte, prefiro viver num país onde cabem os dois.
A ambigüidade de Caetano não fica só no fazer em si. Descendo ao âmago de Cê, tudo parece contradição. Logo de cara anuncia nos versos de “Outro”: “Você nem vai me reconhecer quando eu passar por você, de cara alegre e cruel, feliz e mau como um pau duro”. O canto arrastado e malemolente contradiz a forma inquisidora e pretensamente cruel que a letra da canção denota. Tem, enfim, um jeito quase fêmea de se dizer macho e vice-versa. Ou não, entendem?
Em quase todo o disco, a tônica é próxima disso. Por vezes ressentido, em outras com a velha contemplação de sempre, Caetano neste Cê é mais explicitamente lúbrico do que nunca. No seu entardecer de fauno resolve fazer o manifesto da sua sexualidade de homem e desdiz, aí também, todo o velho discurso e atitude ambíguos com que sempre provocou o seu tempo. Chega próximo da misoginia em “Homem”: “Não tenho inveja da maternidade, nem da lactação / Não tenho inveja da adiposidade, nem da menstruação / Só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos”.
Caetano confunde pelo avesso mais uma vez. Cansou de brincar de menina e agora brinca de rapaz. Tudo isso é engraçado e inventivo, como quase tudo que o artista fez em sua longa, curiosa e controversa trajetória. O que falta mesmo em Cê, vez ou outra e quase sempre, é o velho prazer de ouvir Caetano. Aqui cito um amigo, admirador e conhecedor de sua obra: “Ando de férias dele. Qualquer dia desses volto a gostar de suas coisas”. E acrescento, principalmente quando ele nos der motivo.

De verdade mesmo, não acontecem grandes novidades no Acústico MTV, de Lenine. O repertório é um desfilar de melhores momentos de sua carreira e algumas participações, como em todos os outros. O que muda é o que sempre salva qualquer obra. O talento de quem faz, que, no caso, é de fato transbordante.
Apesar da participação de uma orquestra, os arranjos não são lá muito diferentes. O que chama mais a atenção logo de saída são as participações especiais, mais particularmente o camaronês Richard Bonna, em “A Medida da Paixão”, e o rapp­e­r de Brasília Gogh. Este último, dentro da canção “A Ponte”, conta a história da construção da ponte JK na capital, cercada de suspeições. O texto de Gogh se desenrola por toda a trajetória do Plano Piloto e cidades satélites, o desequilíbrio social, as contradições da ponte que une (e na verdade separa) o planalto ao sertão e teoricamente o desenvolvimento à miséria. No final, respondendo aos breques e contracantos de Lenine, Gogh dá nome aos bois e encerra, seguido de silêncio diante da pergunta: “Me diz quanto foi”, a quantia exata e exorbitante que foi gasta na sua construção.
Vários artistas sucumbem aos acústicos da MTV. Quando se mostram desprovidos de suas quinquilharias eletrônicas, o arremedo de música que fazem ou tentam fazer desaparece por completo. Com Lenine, o fenômeno acontece às avessas. Sua música é boa mesmo. Se faz presente independentemente dos timbres e truques. Quando é colocado dessa forma, diz a que veio de forma mais clara, límpida. O seu acústico é um presente pra quem gosta de boa música.



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