Toques Musicais

Dicas culturais de Julinho Bitencourt Por Julinho Bitencourt   A CIDADE IMAGINÁRIA SATOLEP SAMBATOWN é o cruzamento de Pelotas (ao contrário) do cantor e compositor VITOR RAMIL e,...

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Dicas culturais de Julinho Bitencourt

Por Julinho Bitencourt

 

A CIDADE IMAGINÁRIA SATOLEP SAMBATOWN é o cruzamento de Pelotas (ao contrário) do cantor e compositor VITOR RAMIL e, em tradução livre, o Rio de Janeiro do percussionista MARCOS SUZANO. Mais do que isso, é o nome do disco que a dupla acaba de lançar, em show que percorre o país. Mais ainda, é uma tentativa de juntar no mesmo balaio a estética do frio, a canção de quem vive ensimesmado por conta das baixas temperaturas que vem lá do Sul, com o batuque acalorado da Cidade Maravilhosa.
Eles quase conseguem, mas isso não é nenhum demérito. O que de fato acontece é o amplo predomínio, como exceção à regra, do som de Satolep. Por mais e melhor que o excelente percussionista Suzano batuque, o que ouvimos do começo ao fim deste lindo disco é a canção de Ramil, com suas filigranas melódicas e literárias, enfim, com toda a riqueza de construção a que habituou o seu público.
O papel de Suzano é imprescindível, mas quase secundário. Ao contrário do que ocorre no já lendário Olho de Peixe, dele em parceria com o compositor pernambucano Lenine, onde o percussionista é peça-chave, neste Satolep Sambatown quem rouba o show são as canções e não as suas formas. Para muito além de ser um grande percussionista e, particularmente, um dos maiores pandeiristas destas e de outras plagas, Marcos Suzano funciona hoje com um homem-banda. Toca vários instrumentos, programa ritmos eletrônicos, arpejadores e efeitos. Sob os violões de nailon e aço de Ramil, muitas vezes com afinações alteradas, os sons de Suzano determinam as direções de Satolep Sambatown.
E as direções, como disse acima, ficam lá pelas origens. Suzano, como um embaixador, muito melhor do que tentar cariocar o som de Ramil, tem o mérito de levá-lo para todo o país. Faz isso a seu modo universal e entrega a todos o que é, desde sempre, tido e tratado como jóia rara por chimangos e maragatos.

CONFORME RELATEI NO ÚLTIMO NÚMERO DA FÓRUM, no site do violeiro PAULO FREIRE (www.paulofreire.com.br) podem ser encontrados, além de seus lindos discos, algumas produções em que se envolveu. E uma das mais intrigantes e emocionantes é, sem dúvida alguma, o disco URUCUIA, do violeiro Manoel de Oliveira. Vamos, portanto, aonde começa a história.
Freire é um apaixonado inveterado (assim como vários brasileiros e estrangeiros também) pelo romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Seu encanto pelo livro o levou à região onde tudo se passa: o sertão do Urucuia. O objetivo do violeiro era conhecer a música das veredas de João. Muito mais do que isso, acabou encontrando Manoel de Oliveira, seu Manelim, violeiro que se tornou o seu mestre.
A história de seu Manelim também merece uma volta ao início. Nascido e criado na fazenda Santa Cruz, Porto de Manga, foi entregue por seus pais para ser criado pela patroa, dona Onora Martins Alves, que ponteava na viola romances e estórias ancestrais. O menino se interessou pelo instrumento e, incentivado por dona Onora, aprendeu vários segredos, desenvolveu outros, passou a acompanhar e depois a guiar as folias.
Tudo o que sabia passou para Freire, que ficou várias temporadas em sua casa, trabalhando no plantio de arroz durante o dia e na viola pela noitinha. A bela história se resume nisso: se não é seu Manelim, não há Paulo Freire, e se não é Freire a resgatar seu Manelim, ninguém saberia dele hoje. E se não temos os dois, uma boa parte do Brasil se perde, como lá devem ter ido tantas outras.
E é essa lacuna que o disco Urucuia vem preencher. Produzido pelo próprio Freire e acompanhado por ele na viola e mais Adriano Busko na percussão, Zé Esmerindo no violão e voz e Thomas Rohrer na rabeca, o disco devolve ao público brasileiro em geral uma das suas mais belas histórias.
Os toques de viola de seu Manelim contam casos do dia-a-dia do seu entorno. Coisas simples da natureza como “A Corrida do Sapo e do Veado”, “Jaca”, “Toque do Papagaio” se misturam a histórias sobrenaturais. O pacto com o diabo, tema central do romance de Guimarães Rosa e recorrente na região, é apresentada em o “Laço do Capeta”. Casos de amor, romances, ironias e evocações históricas também fazem parte do imaginário e da música ponteada pela viola do autor.
São pequeninas obras-primas que têm o dom de contar, em poucas notas, séculos de histórias em sertões sem fim. São como imagens em grande angular que, em poucos centímetros de papel, guardam um mundo enorme. Entre as notas da capa, seu Manelim agradece pelas musiquinhas que viu os outros tocar. “Era um pouco singela, mas fiz um ajeite pra ficar mais bonita.” E ficaram mesmo.

E A VIOLINHA CAIPIRA DE SEU MANELIM, principalmente usada pelo interior e sertões afora, também é o principal arsenal de músicos com formação acadêmica. Neste seleto grupo de violeiros, acaba de ser lançado o disco DEZ CORDAS, de IVAN VILELA.
O músico é mestre em Artes e Composição Musical pela Unicamp, bacharel em Composição Musical e ainda tem, de quebra, curso de História. Ivan é ainda diretor e arranjador da Orquestra Filarmônica de Violas, além de ter recebido vários prêmios por seus discos e trilhas sonoras. Tantos livros, prêmios e estudos não o afastaram do gosto pelas coisas do povo e das tradições musicais brasileiras.
Neste seu Dez Cordas, busca vários gêneros que vão desde o repertório típico das modas de viola, como “Chora Viola”, de Tião Carreiro e Lourival dos Santos, e “Luzeiro”, de Almir Sater, passa por canções populares urbanas do Brasil, como “Valsinha”, de Chico Buarque e Vinicius de Moraes e “Nascente”, de Flávio Venturini e Murilo Antunes, até Beatles, em versões inovadoras e surpreendentes para “Eleanor Rigby”, de Lennon e McCartney, e “While my Guitar Gently Weeps”, de George Harrison.
O toque de Ivan Vilela é límpido, claro e ao mesmo tempo forte, firme. Traz na sua música o tempero agreste dos violeiros ao mesmo tempo em que é capaz de interpretar temas complicados e de difícil leitura. O disco Dez Cordas é mais uma bela amostra de sua obra, que já se estende para mais de uma dezena de discos, entre próprios e participações. Quase todos podem ser comprados no endereço www.ivanvilela.com e são imperdíveis.



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