Toques Musicais

Dicas culturais de Julinho Bittencourt Por Julinho Bittencourt   Quem ouve os versos de “14 anos”, de Paulinho Da Viola e vai conferir os personagens, percebe logo se...

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Dicas culturais de Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 

Quem ouve os versos de “14 anos”, de Paulinho Da Viola e vai conferir os personagens, percebe logo se tratar da mais pura e fértil imaginação do autor. A canção diz: “Tinha eu 14 anos de idade / Quando meu pai me chamou / Perguntou se eu não queria / Estudar filosofia, medicina ou engenharia / Tinha eu que ser doutor / Mas a minha aspiração / Era ter um violão / Para me tornar sambista / Ele, então me aconselhou / Sambista não tem valor / Nesta terra de doutor / E seu doutor / O meu pai tinha razão”.
Como dizem no final dos filmes, qualquer relação com fatos e personagens reais deve ser pura coincidência, pois o pai de Paulinho é nada menos do que CÉSAR FARIA, violonista do antológico grupo Época de Ouro, um dos violões mais festejados do samba e do choro. César não só incentivou o filho como o acompanhou no seu grupo enquanto teve forças, até a sua partida, neste último outubro, aos 88 anos de idade.
Antes disso, no entanto, César Faria fez história dentro da nossa música, como um discreto e imprescindível coadjuvante. Como integrante do grupo Época de Ouro, acompanhou o bandolinista Jacob do Bandolim por vários discos. Estava inclusive num dos mais lindos espetáculos da nossa história, ao lado do Zimbo Trio e da cantora Elizeth Cardoso, que foi gravado ao vivo no teatro João Caetano, no Rio, na década de 1960
Seu papel era o de harmonizador. Criava as estampas para os tecidos que a linha de frente confeccionava. Sem os seus acordes, não havia onde os cantores e solistas pudessem repousar. Quem define bem é o próprio filho: “Cresci ouvindo e admirando o violão do meu pai. Numa formação de regional clássica, o seis cordas sempre fica ofuscado pelo de sete. Então sempre fiz questão de ressaltar a beleza das harmonias, da levada deste violão”, destaca Paulinho.
Pois é. A importância da beleza do violão de César foi tamanha que explica até a sua obra maior, ou seja, a música que o filho veio a fazer. Toda a elegância do samba de Paulinho da Viola é uma decorrência natural dos sons que o pai construía ao lado do garoto atento. A relação foi tão estreita que as duas gerações permaneceram lado a lado, num dos melhores equilíbrios entre tradição e modernidade de que se tem notícia neste e em muitos outros tempos
Durante apresentação do grupo Época de Ouro, em 2005, no antológico Clube do Choro de Brasília, César Faria, ao ser apresentado, foi aplaudido de pé, em cena aberta, por longos e emocionados minutos. Alguém disse na ocasião que isso sempre acontecia nas apresentações do grupo.
O grande e discreto violonista se foi. Talvez não seja mesmo o pai da canção “14 Anos”. Ou quem sabe, de certa forma, tenha sido sim. Afinal, foi com ele também que o sambista aprendeu a ter valor. E, mais do que isso, quem é capaz de negar que ele tenha formado um doutor? É Paulinho, o seu pai tinha razão.
ELA É BAIANA, CANTA SAMBA FEITO CARIOCA e acaba de lançar um disco acompanhada pelo Quinteto em Branco e Preto, um dos maiores expoentes da música paulistana. Ela tem, enfim, a alma brasileira, aberta a todos os mundos e sons, mas preserva sempre um núcleo, um jeito próprio, repleto de outros jeitos. Ela é Ione Papas, que gravou há sete anos atrás um disco excelente, só com canções do mestre Noel Rosa (Ione por Noel) e agora volta em NA LINHA DO SAMBA, com sambas de compositores novos e outros consagrados, todos mestres do riscado popular.
IONE tem um pé no samba e outro em várias tendências da nossa música. A amplidão que busca, e quase sempre consegue, parte do repertório que escolhe, com tendências de várias épocas e lugares. O disco abre com “Som Sagrado”, samba de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro, da linhagem de “O Samba é Meu Dom”, uma espécie de hino carioca da retomada do ritmo. “Som Sagrado” tem um arranjo meio torto, com instrumentos que se anunciam aos poucos. A pegada carioca, no entanto, aparece ironicamente no arranjo de gafieira para a composição “Vestido de Malha”, do baiano Tuzé de Abreu.
A confusão de lugares atinge seu auge com a composição “Bondinho”, do paulista Nando Távora, em homenagem ao bonde de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Ione quer o mundo todo ao mesmo tempo agora. E consegue.
Entre várias outras, a cantora teve o mérito de buscar composições inéditas de Moacir Luz e Mário Leite, um belo samba de Batatinha e ainda compor um “Sambarap”, com seu vizinho, enquanto este pintava a sua casa. O resultado final é um disco divertido, bem executado e arranjado, cheio de suíngue e, principalmente, muito bem cantado. Enfim, um autêntico disco de samba pra ninguém botar defeito, antenado com várias tendências da nossa música.
É A PAIXÃO PELA MÚSICA DE NARA LEÃO QUE FERNANDA TAKAI nos mostra no seu primeiro disco solo ONDE BRILHAM OS OLHOS SEUS. Com uma delicadeza indizível e a mesma criatividade dos seus discos com o Pato Fu, Fernanda nos dá o melhor dos presentes de final de ano. Entrega de bandeja as múltiplas possibilidades que Nara Leão, na década de 1950 em diante, nos abriu. Empresta um novo olhar, jovem e renovado, a um dos maiores símbolos de juventude do Brasil. Em outras palavras, sem grandes invenções, a cantora renova o que sempre foi novo.
Este projeto de Fernanda Takai tem três parceiros que não podem ser esquecidos. Antes de qualquer coisa seu pai, que com suas fitas cassete transbordou de bom gosto a vida da moça. Depois, a idéia inicial que foi sugerida pelo crítico, compositor e escritor Nelson Motta, que enxergou na cantora a Nara Leão do pop-rock e fez a direção artística do disco. No final das contas, tem também o grande mérito de seu parceiro e marido John Ulhoa, produtor musical do projeto. O formato que o músico construiu, tanto nos arranjos quanto nos timbres, é motivo para o seu nome na capa.
Os arranjos e interpretações dão a conta. Absolutamente distantes do universo original, são repletos de inovações, andamentos alterados, timbres eletrônicos e vários outros detalhes. A voz de Fernanda é suave, delicada e muito próxima da de Nara. O resultado final é surpreendente e bonito. Nara teria adorado.



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