Toques Musicais

Dicas musicais de Julinho Bittencourt Por Julinho Bittencourt   SE EXISTE ALGUM ARTISTA HOJE NA NOSSA MÚSICA que seja de fato moderno é CELSO FONSECA. No seu...

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Dicas musicais de Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 

SE EXISTE ALGUM ARTISTA HOJE NA NOSSA MÚSICA que seja de fato moderno é CELSO FONSECA. No seu recém-lançado FERIADO, a sensação logo de saída é que está tocando o disco errado. Um sampler da introdução de “Barato Total”, que abre o disco Cantar, de 1974, um dos melhores da carreira de Gal Costa, aparece quase na íntegra no início da canção “Não se Afasta de Mim”. Alguns scratchs depois e a voz de Celso se revela, nítida, como um dia de sol no Rio de Janeiro.
Daí pra frente, a sensação de feriado inunda o ouvinte com sons relaxados, prazeirosos, dançantes e sem pressa alguma. Como diz o próprio cantor, desta vez fez um disco para tocar em pé. Não que tenha abandonado seu estilo único pós-bossa nova, mas agora tudo suínga de forma mais poderosa, alegre e festiva. Fonseca vai do Jobim de “Águas de Março” a MC Leozinho de “Se Ela Dança eu Danço”, com a maior sem cerimônia do mundo. Tudo se encaixa num signo musical único, amarrado em torno da canção popular e sua capacidade de enfeitar a vida e divertir.
Por coincidência, Celso Fonseca tocou, no início da carreira, com o trompetista Márcio Montarroyos. Márcio se foi, no final de 2007, aos 58 anos, vítima de câncer generalizado. Um dos melhores instrumentistas do Brasil, tocou com inúmeros artistas, entre eles Stevie Wonder, Sarah Vaughan, Nancy Wilson, Carlos Santana e Ella Fitzgerald, além de brasileiros como Sérgio Mendes, Edu Lobo, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Milton Nascimento e Tom Jobim, entre outros. Gravou vários discos, como Sessão Nostalgia (1973), Stone Alliance (1977), Trompete Internacional (1981), Magic Moment (1982), Carioca (1984) e Samba Solstice (1987). Deixou ainda o inédito Rio e o Mar, que deve ser lançado neste ano.
Entre os vários momentos inesquecíveis da carreira do trompetista, gostaria de relembrar o solo de flugelhorn que fez na canção “Vento Bravo”, de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro, no disco Tom & Edu – Edu & Tom, de Edu Lobo e Tom Jobim, gravado em 1981. Nele está tudo o que se pode esperar de um grande músico. A bela canção enriqueceu sobremaneira com as notas rápidas e dobradas, executadas com muita riqueza rítmica e melódica. Assim como este, o instrumentista encheu a nossa música de momentos inestimáveis. Uma grande perda.

ACABA DE SER LANÇADO, PELA GUELA PRODUÇÕES, o DVD VOU VENDER MEU SAMBA, com a vida e a obra de Renato Borgomoni. O filme tem duas faces admiráveis. Antes de mais nada, se trata de um dos mais importantes compositores populares de Santos (SP), cuja obra tem fôlego pra passear por toda parte. O outro lado da moeda é a iniciativa em si. A Guela Produções criou o projeto Majestades Anônimas para, como o título diz, levantar, filmar e divulgar a vida de personagens que, apesar do anonimato, têm forte influência sobre a comunidade onde vivem.
Renato Borgomoni, o Rebor, como é conhecido, é um trabalhador aposentado do cais de Santos, de 90 anos de idade, todos eles dedicados à numerosa família, o trabalho, uma intensa militância comunista e, é claro, o samba. Mais particularmente os seus sambas, com frases melódicas angulosas e ágeis, letras curtas e anedóticas. Rebor expõe uma situação, desenvolve e conclui, normalmente com uma boa surpresa. Um belo exemplo é o que dá título ao projeto:
“Vou vender meu samba de qualquer maneira
Vou pôr no jornal de segunda-feira
Ninguém quer cantar, ninguém quer gravar
Vou vender meu samba
Pra quem quiser comprar
Tenho muitos sambas
E faço bom preço
Pra quem quiser deixo meu endereço
Rua das casas, número das portas
Só não me procure
Em horas mortas
Quero descansar
Quando estou cansado
E por isso eu deixo
Meu endereço errado”
A história do seu Renato é conduzida pelas ruas de Santos, seu porto e adjacências com extrema delicadeza e sensibilidade. Os diretores Ana Paula Guimarães e Eduvier Fuentes Fernandes estiveram ao lado do personagem por toda parte ouvindo seus comentários espontâneos. A partir daí, o roteiro se desenvolve em torno de uma apresentação, onde vários músicos e amigos, além dos filhos e netos, cantam, tocam e falam sobre o artista. À medida que o filme corre, fica claro que o compositor é tão querido quanto a sua obra. Ninguém comprou o samba de seu Renato. Ele preferiu esconder o endereço e distribuir de graça aos que ama e sempre amou.
COMO NUM PASSE DE MÁGICA, UMA DAS NOSSAS maiores damas do samba, com todo o seu talento e prestígio, em apenas duas noites juntou tudo o que há de mais importante na Bahia e fez o DVD e CD BETH CARVALHO CANTA O SAMBA DA BAHIA. Fora João Gilberto, que por temperamento e manutenção do próprio folclore jamais participaria de coisa assim, e Gal Costa, que não foi por motivo de agenda, estavam todos lá. Caetano e Gil, Maria Bethânia, Daniela Mercury e Ivete Sangalo, Olodum, Danilo Caymmi representando o pai Dorival, inspirador de toda a barafunda, Margareth Menezes, Carlinhos Brown, Armandinho, Mariene de Castro e Roberto Mendes, Riachão, os compositores Edil Pacheco, Roque Ferreira e Walter Queiroz, enfim, um disco definitivo pra quem quer saber de fato o que é que a Bahia tem.
Se a lista de convidados já é um catálogo das últimas décadas do fuzuê baiano, o repertório então nem se fala. A real extensão pode ser percebida por surpresas que imaginávamos de outras plagas. O melhor exemplo delas é “Verdade”, consagrada pelo carioquíssimo Zeca Pagodinho, interpretada aqui por um dos autores, o baiano Nelson Rufino (o outro é Carlinhos Santana). De quebra, ele e Beth têm o auxílio no baticum do bloco Olodum. Numa bela e justa homenagem, que vai de Dorival Caymmi a Ivete Sangalo, Beth Carvalho lançou um dos melhores discos de 2007. Imperdível.



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