Um novo Mercosul

A inclusão da Venezuela como membro pleno fortalece o bloco econômico e também faz de Hugo Chávez o novo protagonista do grupo Por Por Eliza Capi, de Córdoba  ...

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A inclusão da Venezuela como membro pleno fortalece o bloco econômico e também faz de Hugo Chávez o novo protagonista do grupo

Por Por Eliza Capi, de Córdoba

 

Quando o avião bolivariano pousou em Córdoba, cidade a 700 km de Buenos Aires que sediou a Cúpula do Mercosul nos dias 20 e 21 de julho, os quase cem jornalistas da sala de imprensa pararam seus textos e pesquisas para assistir ao carismático presidente de blusa vermelha acenar no telão. No meio de alguns gritos de apoio, um jornalista argentino me pediu para que tirasse uma foto sua com a imagem de Chávez projetada no vídeo. Para a história, lá ficou o escriba e seu ídolo, virtualmente lado a lado.
Esse episódio ilustra um pouco a dimensão do ingresso da Venezuela no Mercosul. O bloco agora alcança 76% do PIB da América do Sul, ultrapassando os US$ 1 trilhão, e se estende desde a Terra do Fogo até o Caribe, somando 12,7 milhões de quilômetros quadrados. Além disso, a figura de Chávez atrai mais a atenção do mundo para o bloco. Na Argentina, ele foi o dirigente mais comentado e também o responsável por levar a outra estrela do evento, Fidel Castro, que assinou um Acordo de Complementação Econômica (ACE) com o Mercosul. O venezuelano ainda organizou sua própria festa de ingresso no bloco, reunindo mais de 40 mil pessoas no encerramento da Cúpula dos Povos. “Nasce um novo Mercosul”, bradou na ocasião. O mandatário economizou palavras para adiantar o discurso de Fidel, que falou por quase três horas.
“O ingresso de Chávez é o fato mais relevante dos últimos dez anos”, comemorou o chanceler uruguaio Reinaldo Gardano debaixo de uma salva de palmas no encerramento de outro evento, o “Encontro por um Mercosul Produtivo e Social”. Com o novo membro, o Mercosul se torna também uma potência energética. “Temos a maior fonte de petróleo do mundo. E vocês devem saber que a prioridade é para o bloco regional”, afirmou o presidente venezuelano. No documento final, ficou acordado entre os cinco países membros efetivos a criação do Grande Gasoduto do Sul, que ligará a Venezuela à Argentina.
Ainda dentro da área de energia, o ministro do Planejamento argentino, Julio De Vido, anunciou ainda que Argentina, Uruguai e Venezuela realizarão de forma conjunta a exploração de derivados petrolíferos na Falha do Orinoco, por meio de um projeto orçado em US$ 4 bilhões. A Venezuela será a sócia majoritária, com 51% da exploração. De Vido disse que “incrementará em quase 50% a produção argentina”, deixando “garantido o crescimento dos próximos anos, solucionando o problema de derivados diante da crescente demanda”. Assim, tira uma das principais pedras do sapato do governo Kirchner, um possível colapso energético previsto para os próximos anos.
Em paralelo, a adesão venezuelana também foi aplaudida por movimentos sociais presentes na cúpula alternativa à dos mandatários. “É muito bom entender que há processos muito mais abrangentes do que o que nós vivemos no dia-a-dia do Brasil, Argentina, Uruguai ou Paraguai. A Venezuela segue com políticas claras para a juventude e para a sociedade como um todo, que muito tem para nos ajudar enquanto bloco”, acredita Paulo German, coordenador Nacional da Juventude da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA). Mesmo torcendo para que a entrada de Chávez modifique o atual quadro, Fernando Garazoni, secretário da Coordenadoria das Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS), ponderou: “Lamentavelmente notamos que há um divórcio entre o discurso e a prática, que já vem de muito tempo. Pensamos que agora, com todas as mudanças de presidentes, teríamos a possibilidade de maior participação. Mas nada mudou, continua sendo um processo de integração de governos, com uma política participativa muito débil”, explica.
Do ponto de vista econômico, o consultor de Comércio Exterior Abelardo Daza acredita que há um desequilíbrio na relação entre os membros antigos e o novo sócio. “A Venezuela é um bom negócio para o Mercosul, mas o Mercosul não é um bom negócio para a Venezuela.” Segundo ele, os acordos prioritários serão feitos entre o petróleo estatal e o resto do bloco, deixando o empresariado do país desprotegido. “A indústria automobilística venezuelana exporta para a Colômbia, mas não tem condições de competir com a indústria brasileira e argentina”, exemplificou Daza.

Problemas de hermanos
A presidência temporária do bloco, sob responsabilidade de Lula, tem como grande desafio encerrar um período crítico de entraves binacionais e iniciar um outro de maior integração dos países. Na Cúpula, o presidente brasileiro destacou a necessidade de acabar com o conflito das fábricas de celulose entre Argentina e Uruguai (ver box), com os problemas aduaneiros e com as assimetrias. “É normal que os mais pobres culpem o Brasil e a Argentina, como outros culpam os Estados Unidos. Temos a obrigação de ajudar esses países a se desenvolverem, comprando mais deles. Não há bloco que se sustente se a pobreza durar”, defendeu Lula.
Nestor Kirchner seguiu a mesma toada. “Temos que encontrar caminhos para que a solidariedade seja efetiva”, mas, ao mesmo tempo, defendia a não-inclusão das assimetrias no documento final. Em seguida, foi contestado pelo presidente paraguaio, Nicanor Duarte: “não queremos que só a metade do estádio festeje”. Os dois menores do bloco deram sinais de grande insatisfação durante a presidência temporária da Argentina. O Paraguai advertiu que sairia do bloco caso não recebesse algumas compensações e o Uruguai defendeu encontros bilaterais fora do âmbito do Mercosul, iniciando um diálogo com os Estados Unidos. Para colocar panos quentes no assunto, Kirchner defendeu um Fundo de Convergência Estrutural para ajudar especialmente os sócios menores e a criação de um Banco de Desenvolvimento do Mercosul, uma espécie de BNDES sul-americano.
Ao contrário dos encontros anteriores, a reunião do Mercosul não teve como atração principal a disputa entre Brasil e Argentina, embora Kirchner ainda continue pedindo proteção para setores mais sensíveis da economia do seu país diante da concorrência brasileira. Disposto a latinizar de vez o mercado, o governo brasileiro, por meio do ministro da Economia, Guido Mantega, propôs o fim das negociações em dólar. “É uma coisa maluca que empresas da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai tenham que fazer transações em dólar dentro do Mercosul.” F

DOIS A DOIS

A Cúpula do Mercosul sediou pelo menos nove encontros bilaterais, expondo feridas vividas pelos países membros nestes últimos seis meses e algumas ainda mais antigas.

Tabaré x Kirchner: o caso das papeleras
“Nem tudo foi cor-de-rosa, claro que houve dificuldades. Se dissermos o contrário, estaríamos cometendo o pecado do cinismo. Existiram e existem dificuldades, mas estamos lutando para que essas diferenças sejam conjunturais e temporárias.” Assim o presidente uruguaio Tabaré Vazquez definiu a relação de seu país com a Argentina. Tabaré referia-se ao “caso das papeleras”.
A construção das fábricas de celulose das multinacionais Bosnia e Ence na margem do rio Uruguai, cujas águas descem para o território argentino, foi rejeitada por Kirchner, que alegou defesa do meio ambiente. O impasse foi levado à Corte Internacional de Haya, que deu parecer favorável ao Uruguai. Em encontro bilateral entre os pratenses, Tabaré acordou “seguir com o diálogo sempre” para solucionar o conflito das fábricas de celulose e enfatizou: “Não pode ser que entre irmãos resolvam terceiros”.
O mandatário do Uruguai reconheceu que a “preocupação dos vizinhos são legítimas e nós também a tivemos (…). Queremos seguir protegendo o meio ambiente”. Vale ressaltar que o pequeno rio do Prata é o terceiro país em conservação ambiental do mundo. Kirchner, que fez cara de envergonhado quando seu par uruguaio iniciou o dolorido assunto, conseguiu deixar o caso fora do documento final. Ainda assim, Tabaré encerrou o encontro otimista: “vou embora desta Cúpula com alegria e esperança”.

Evo x Lula: ainda o gás
Depois da estatização das reservas de gás no vizinho andino, Lula se encontrou com Evo Morales em Córdoba. Mas da reunião bilateral ficaram só dúvidas.
O brasileiro disse que o gás não foi discutido no encontro e que esse assunto está sendo resolvido pela Petrobras. Já o embaixador da Bolívia em Buenos Aires, Roger Ortiz, afirmou que os presidentes “conversaram sobre o tema do gás”. Ou seja, sigilo nas negociações entre Brasil e Bolívia.

Evo x Bachelet: vista para o mar
A Bolívia perdeu sua costa no Pacífico em uma guerra contra o Chile no final do século XIX e desde então a situação entre os dois vizinhos é tensa, sendo que as relações diplomáticas foram cortadas em 1978. Em Córdoba, os dois presidentes se encontraram, mas não detalharam a discussão. “Tivemos um diálogo com a agenda aberta, sem excluir tema algum”, esclareceu Evo Morales. O Chile de Michelle Bachelet não deu declarações oficiais sobre o encontro. Mas a reunião bilateral entre os vizinhos andinos foi histórica. É a primeira vez em 31 anos que a luta boliviana por uma saída ao mar encontra algum eco.



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