Uma guerra batalha porbatalha

Lula deveria anunciar que não é mais candidato à reeleição”, afirmou FHC, aconselhando a opção ao presidente para que pudesse terminar o mandato. Foi a senha para que aqueles que não haviam entendido qual...

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Lula deveria anunciar que não é mais candidato à reeleição”, afirmou FHC, aconselhando a opção ao presidente para que pudesse terminar o mandato. Foi a senha para que aqueles que não haviam entendido qual era o sentido do combate repensassem suas estratégias. A oposição foi com tudo para cima do governo, que conseguiu obter uma unidade rara nos partidos aliados. E uma solidariedade dos movimentos sociais sem precedentes na história política do Brasil

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Batalha 1 – Severino Cavalcanti, o começo de tudo

A primeira grande derrota do governo deriva de um inacreditável erro de avaliação política do Palácio do Planalto, mais especificamente do próprio presidente Lula. Ele teria decidido, em conjunto com o então presidente do PT José Genoino e à revelia de José Dirceu, que já havia saído da articulação política, que o candidato do partido à sucessão de João Paulo Cunha na presidência da Câmara seria o deputado federal paulista Luiz Eduardo Greenhalgh. Ligado à militância pelos Direitos Humanos, o parlamentar enfrentava fortes resistências entre seus pares, principalmen­te nas bancadas ruralista (como advogado, Greenhalgh trabalhou para o MST) e evangélica, por conta de sua posição pró-aborto. Ou seja, suas posições progressistas o inviabilizavam.
O mineiro Virgílio Guimarães, preterido pelo partido, resolveu mesmo assim lançar sua candidatura. Outro partido da base aliada, o PP, lançou o nome de Severino Cavalcanti, influente junto ao chamado “baixo clero”. A divisão já prenunciava a derrota do Planalto.
“Quando Severino fez uma pesquisa interna e viu que Virgílio estava em segundo lugar, o procurou para fazer um acordo de mútuo apoio”, conta um assessor parlamentar. Deputados insatisfeitos com o tratamento dado pelo governo e a desastrosa MP 232 – que aumentava impostos de prestadores de serviços –, enviada ao Congresso dias antes, foram mais decisivos para a derrota do governo do que a suposta falta de carisma de Greenhalgh para lidar com os deputados, como tentaram apontar alguns após o desastre.
Severino foi ao segundo turno e teve 300 votos. O petista ficou com 195 votos, menos do que havia obtido no primeiro turno. A participação do ex-presidente FHC, que manobrou antes e durante aquela madrugada de 15 de fevereiro de 2005 para derrotar o governo, foi decisiva para a vitória de Severino. O PT, uma semana antes da eleição, havia tentado costurar um acordo com o PFL, implicando na desistência de José Carlos Aleluia, mas FHC e Jorge Bornhausen minaram a negociação. O ex-presidente acreditava que de fato Severino tinha chances de ganhar e pediu aos aliados que descarregassem seus votos nele, para que pudesse tirar Virgílio do segundo turno e, depois, derrotar Greenhalgh.

Batalha 2 – Bob Jeff e o caminho das CPIs

“Estávamos no olho do furacão, não tínhamos informações e, no início da crise, os principais comandos no governo, no partido e na Câmara foram trocados. Trocamos os pneus com o carro andando.” É assim que a senadora de Santa Catarina Ideli Salvatti define os primeiros momentos da crise desencadeada após a entrevista de Roberto Jefferson à Folha de S.Paulo, em 6 de junho de 2005.
Para quem não se lembra, o que motivou as declarações do deputado petebista foi a revelação da fita de vídeo que mostra o então funcionário dos Correios Maurício Marinho negociando propina com empresários. No vídeo, Marinho dizia ter autorização do deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) para operar.
Foi só quando as investigações se voltaram para a relação entre ele e Marinho que o petebista resolveu falar à Folha. Dois dias depois era instalada a CPMI dos Correios, para investigar Marinho. Essa CPMI tornou-se o principal campo de batalha da oposição para fomentar a crise política.
Sem força no Congresso para evitá-la, o governo conseguiu o controle de alguns postos-chave. E fez o mesmo com a CPI do Mensalão que, na prática, convocou os mesmos personagens já ouvidos pela outra comissão. A CPI dos Bingos, que acabou apelidada de “CPI do fim do mundo” por “investigar” qualquer coisa, desde a morte de Celso Daniel até a denúncia do caseiro Francenildo, também se prestou a palco para a oposição atacar o governo.
“Foram muitos momentos de solidão”, desabafa Ideli Salvatti. “Não tinha em que me escorar, com quem debater estratégias. Dentro da bancada, tivemos muitas ajudas importantes, mas alguns se omitiram, se acovardaram”, recorda.

Batalha 3 – O Brasil
se liga na TV Câmara

“Eu me considero um lutador e neste momento estou concentrado na luta. Se o lutador pensa o que vai fazer no ringue, perde. O foco agora é derrotar o Lula. Aí a gente vê o que vem depois.” A frase do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), dita à Fórum a menos de uma semana do segundo turno, reflete não tanto o espírito da campanha, mas a ação da oposição desde a instalação da primeira CPI, a dos Correios, um dos terrenos em que conseguiu atingir o governo e minar a popularidade de Lula.
“Isso aí foram coisas criadas dentro da própria base, dentro do próprio governo, foram fatos políticos que surgiram”, analisa o deputado Sandro Mabel (PL-GO), a respeito da sucessão de fatos expostos nas CPIs. Ele mesmo foi vítima de um episódio até hoje mal explicado. Acusado pela deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) de oferecer propina para trocar de partido e ir para o PL, Mabel negou. Era a palavra de um parlamentar contra a de outro, assim, em 1º de novembro o Conselho de Ética decidiu por unanimidade extinguir o processo movido pelo PTB contra o líder do PL.
Apagados os holofotes, o saldo das CPIs acabou por dar mais uma prova de que as comissões tinham sido instrumentalizadas pela oposição, mas, na prática, não conseguiram produzir provas. Algumas tiveram um destino patético, como a CPI do Mensalão, que terminou em novembro de 2005 sem aprovar um relatório final. Já a dos Bingos perdeu totalmente seu objetivo inicial e beirou a ilegalidade durante quase todo seu funcionamento. Ao fim, o relatório final deixou ilesos os interesses dos donos das casas de jogos, aparentemente um contra-senso, mas algo compreensível dentro do contexto da guerra política travada no Congresso.
Já na principal CPI, a dos Correios, a intenção da oposição era atingir a imagem pessoal de Lula, mas o relatório final do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) eximiu o presidente de culpa. “Não incide aqui responsabilidade objetiva do Chefe Maior da Nação, simplesmente, por ocupar a cúspide da estrutura do Poder Executivo, o que significaria ser responsabilizado independentemente de ciência ou não”, dizia o texto. O erro da oposição foi de não focar a investigação, mas o fator vaidade inviabilizou a tática. Na prática, todos queriam aparecer, queriam participar daquele momento de linchamento do governo e fazer sucesso na TV Câmara. Que o diga o deputado ACM Neto.

Batalha 4 – A mídia assume
o controle das tropas

Poucas vezes um presidente foi tão atacado pela imprensa quanto Lula. O caso Waldomiro Diniz, em fevereiro de 2004, já foi um primeiro sinal do papel que a mídia iria desempenhar. Mas foi em maio de 2005 que começou a pior parte da história: o escândalo dos Correios leva à famosa entrevista de Roberto Jefferson a Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, quando a versão do petebista para a história do mensalão veio à tona. Um jornalista que vive os bastidores da Folha garante que Lo Prete procurou Jefferson após um telefonema de FHC a Otávio Frias. O ex-presidente teria dito que o deputado tinha uma bomba para jogar no colo de Lula e José Dirceu.
Desse momento em diante, a mídia entra pesado no jogo da oposição. De acordo com Marcos Coimbra, cientista político e diretor do instituto de pesquisa Vox Populi, em entrevista ao site Conversa Afiada, esse bombardeio da imprensa nunca foi visto no Brasil, nem mesmo em 1989. “Apesar de termos tido em 89 uma eleição muito disputada entre Collor e Lula no segundo turno, não tínhamos visto ainda uma atuação tão intensa da imprensa, especialmente na semana que antecedeu o primeiro turno”, disse Coimbra.
Ele se refere à cobertura do caso da compra do dossiê, que conseguiu forçar, ainda que por pequena margem, a disputa de um segundo turno. A cereja no bolo midiático naquele momento foi a divulgação das fotos do dinheiro apreendido pela Polícia Federal com os “aloprados” petistas que queriam comprar um dossiê dos Vedoin. Em reportagem publicada em CartaCapital, Raimundo Pereira denunciou o esquema, definido por Paulo Henrique Amorim como um “golpe de Estado”, no qual o delegado Edmilson Pereira Bruno fotografou o dinheiro e divulgou imagens de forma ilegal.
Os jornalistas escolhidos para receber as imagens gravaram a conversa com Bruno. O delegado combina com eles a mentira que deveriam contar sobre como as fotos chegaram às redações: “(…) vou chegar para o superintendente e falar, ‘doutor, fui furtado, mas já falei com os repórteres, ninguém sabe de nada, mas eu tô desconfiado, sabe como é, não dá pra confiar em repórter, não dá mesmo’. Agora eu conto com vocês, porque podem abrir uma sindicância contra mim, um processo”, explica o delegado. Bruno ainda frisa: tem que sair no Jornal Nacional.
As fotos saíram no jornal de William Bonner e Fátima Bernardes, bem como na Folha de S.Paulo e no Estadão, mas a gravação, que demonstra claramente a intenção política de Bruno, foi solenemente ignorada. Coisas da “independente” mídia brasileira. Na redação de Veja, durante todo o processo de “guerra” política, o lema era “vamos derrubar o presidente”, dito aos gritos por algum dos editores quando chegava uma nova “bomba” jornalística na redação.

Batalha 5 – Eleição de Aldo serve para governo rearticular a tropa no Congresso 

Com a queda do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, o governo tinha a chance de devolver a derrota sofrida meses antes. Após diversas especulações, chegou-se ao nome de Aldo Rebelo para representar a base governista. Tinha bom trânsito entre os parlamentares e havia demonstrado lealdade ao governo em momentos difíceis. Naquele momento, o PT indicou Arlindo Chinaglia, mas era puro jogo de cena para tirar Aldo da linha de tiro. Um nome petista àquela altura poderia desagregar a já frágil base aliada.
Do lado da oposição, o PFL apostava em José Thomaz Nonô, que nem se reelegeu como deputado. Já Michel Temer tentava ser o “nome de consenso”, mas foi atropelado por Renan Calheiros. Aos pefelistas também não interessava a eleição de Temer, já que seria fortalecer demais os peemedebistas, segundo a visão do senador Jorge Bornhausen. À época, o deputado Renildo Calheiros (PCdoB-PE) analisou à Fórum: “Ao optar por lançar Nonô e inviabilizar o Temer, a oposição nos deu metade do PMDB”. Não era só o governo que errava a mão.
No primeiro turno, PT, PCdoB, PSB e PL estavam unidos formalmente em torno da candidatura Aldo. Mas, no segundo turno, os votos do PDT foram decisivos para a vitória do comunista, por 258 a 243. O líder da bancada pedetista havia assinado pelo seu partido o registro da candidatura de Nonô, mas o ato não havia sido debatido entre os parlamentares. O mal-estar só acabou quando se decidiu lançar o nome do gaúcho Alceu Collares no primeiro turno, que levou todos os 18 votos do partido. No segundo, os votos seriam liberados. A maior parte deles migrou para Aldo. Ironicamente, foi fundamental para a vitória a atuação do deputado mineiro Sérgio Miranda, que havia rompido com o PCdoB por conta do apoio incondicional do partido ao governo Lula.

Batalha 6 – Palocci cai, mas o tiro sai pela culatra 
Entre os inúmeros petistas que tombaram durante a crise política, alguns eram de alta patente. O clima de instabilidade fez com que alguns personagens fossem afastados não necessariamente por alguma condenação ou indício mais sério, mas para não serem alvos permanentes da mídia.
Assim, o chamado “núcleo duro” do governo Lula desapareceu, restando da composição inicial apenas Luiz Dulci. Luiz Gushiken caiu, assim como José Dirceu. O ministro Antonio Palocci parecia soberano, sem a presença de Dirceu, que lhe fazia oposição dentro do governo, embora enfrentasse resistência da ministra Dilma Roussef, da Casa Civil. Mas, como figura principal dos ministérios, tornou-se alvo preferencial da oposição. Parecia um golpe de mestre: ataca-se o principal fiador do setor financeiro, cria-se um clima de instabilidade econômica e o governo vai à lona.
O ex-prefeito de Ribeirão Preto começou a ser alvejado em 19 de agosto de 2005, quando seu ex-secretário de governo Rogério Buratti afirmou que o ministro havia recebido propina de R$ 50 mil por mês da empresa Leão Leão, responsável pela coleta de lixo na cidade. Depois, o caseiro Francenildo Costa testemunhou que Palocci freqüentava a casa onde ex-assessores faziam festas “animadas” e negócios irregulares em Brasília. A queda se efetivou após a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. A economia não ruiu, o mercado não teve um ataque de nervos e Guido Mantega assumiu a pasta de Palocci. E, segundo disse à Fórum um influente deputado petista: “a oposição acabou fazendo o que a gente sonhava, livrar o governo do Palocci e da sua política neo­liberal. O governo só ficou mais unido depois de sua saída”.

Batalha 7 – A resistência de José Dirceu 
Apontado como articulador do mensalão pelo deputado Roberto Jefferson, José Dirceu teve de sair do governo para tentar tirar a crise do Palácio do Planalto. De volta à “planície”, como disse, imaginava-se que poderia trabalhar para articular uma nova tentativa de aproximação com o PMDB, algo já feito por ele antes do início do mandato e também na primeira reforma ministerial. Em seu livro Uma vida de repórter, do golpe ao planalto, o ex-assessor de imprensa de Lula, Ricardo Kotscho, narra o episódio da primeira tentativa. “Nada, porém, nos deixou mais atordoados, a todos nós do chamado grupo de assessores diretos do presidente, do que a reviravolta na formação do ministério. (…). ‘Acabou. Não tem mais aliança com o PMDB. O Lula acabou de vetar tudo o que estava acertado”’, teria dito José Dirceu ao sair de uma reunião com o candidato eleito que ainda não havia assumido a presidência. Gente que goza da intimidade de Lula afirma que ali ele quis mostrar quem mandava no governo. E errou.
Mas não houve tempo para articulações de Dirceu. Seu processo de cassação foi encaminhado rapidamente para o Conselho de Ética da Câmara, que aprovou o pedido. Fórum conversou com o ex-deputado três dias antes da votação do processo na Câmara. Ora ele se mostrava conformado com seu destino, ora apontava que ainda movia as peças para evitar o pior. Mas dizia que, para isso, “precisava trabalhar em silêncio e dar a impressão de que a fatura estava liquidada”, não chamando a atenção da oposição. No entanto, O Estado de S.Paulo do domingo indicava por meio de uma pesquisa feita com parlamentares que o jogo estava equilibrado. Foi a senha para que a oposição trabalhasse mais forte para garantir que um dos generais da tropa lulista fosse derrubado.
Era dia 1º de dezembro, meia noite e meia, quando o presidente da Câmara Aldo Rebelo, que lia a apuração, anunciou o voto que confirmava a cassação de Dirceu. Silêncio no plenário. Nenhum aplauso, nada de comemorações. “Foi um momento solene e tenso. Estava sendo votado um processo puramente político e a oposição tinha noção de que estava decapitando um dos principais comandantes do exército inimigo em uma liturgia marcial”, lembra Rebelo, que classifica o episódio, juntamente com sua própria eleição à presidência da Casa, como o mais nervoso de toda a crise política.
Na avaliação de um deputado petista, se José Dirceu tivesse tido um comportamento menos “esnobe” à frente da Casa Civil, teria se livrado da cassação. “Ele deixava deputados esperando horas na sua ante-sala. E tratava a todos como se fosse um ser superior”, afirmou à Fórum.
De qualquer forma, há uma avaliação quase geral de que se o ex-deputado tivesse, por exemplo, renunciado ao invés de ter lutado pela sua absolvição, o governo não teria tido tempo nem fôlego para retomar o controle da situação.

Batalha 8 – Sem o impeachment, a ordem
é sangrar até onde
for possível 

No dia 5 de agosto de 2005, Gildson Gomes dos Santos, de Ribeira do Pombal (BA), e Aylton Ferraz Freiras, do Guarujá (SP), impetraram dois pedidos de impeachment contra o presidente Lula. A idéia de derrubar o petista por essa via já tomava conta da mídia e era discutida (ou propagandeada) por articulistas e políticos da oposição.
“Aquele foi um momento muito difícil”, lembra a senadora Ideli Salvatti. “Quando uma parte da oposição começou a falar em impeachment do presidente, fiquei tensa não pela viabilidade da proposta, mas pela falta de reação adequada da nossa base no parlamento”. De fato, o PT e os partidos aliados demoraram a se movimentar para combater a idéia que começava a ser propalada como algo natural.
Fruto dessa omissão, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) recebeu pedido de Elenice Carille, conselheira pelo Mato Grosso do Sul, para que a instituição entrasse com uma ação nesses termos. A idéia contava com a simpatia do presidente da entidade, Roberto Busato, que não hesitava em fazer críticas duríssimas a Lula. Mas o conselho da OAB rejeitou o pedido. Em maio daquele ano, o jurista Dalmo Dallari definiu à Fórum a ação da entidade: “Estão agindo contra o governo, como se fossem mais um partido de oposição”.
Após a rejeição do Conselho da OAB e com a recuperação de popularidade do presidente, a tese do impeachment perdeu força. “Eles não foram à frente porque não tinham qualquer embasamento, jurídico, político ou social”, aponta Salvatti. A opção acabou sendo a de sangrar o governo até onde fosse possível, levando Lula ou a desistir da reeleição ou a ser um candidato fantasma, sem força.

Batalha 9 – A retomada do front da governabilidade
A sucessiva queda de quadros petistas, inclusive de três dos quatro integrantes iniciais do chamado núcleo duro, desestabilizou o governo. No auge da crise do mensalão, a popularidade de Lula baixou o suficiente para ameaçar o projeto da reeleição.
Nesse momento, um novo grupo se formou em torno do presidente e conseguiu retomar a governabilidade. A gaúcha Dilma Roussef e o baiano Jaques Wagner são os nomes mais fortes dessa fase do mandato, além do sobrevivente Luiz Dulci e de Márcio Thomaz Bastos, que foi o grande “bombeiro” das crises. “Essa costura final explica o renascimento do Lula”, afirma José Prata Araújo, economista e autor do livro Governo Lula – Um balanço do Brasil.
Jaques Wagner assume a pasta das Relações Institucionais, absorvendo o Ministério da Coordenação Política de Aldo Rebelo, e assume a articulação no Congresso Nacional. O galego pacificador, como é chamado por Lula, consegue reconstruir pontes no Congresso e criar condições para manter o governo andando.
Dilma Roussef chega à Casa Civil com uma atuação bem diferente da de seu antecessor, José Dirceu. Deixa de lado a articulação política e se dedica a organizar o trabalho dos ministérios. “Dilma tem uma atitude mais gerencial e estava mais em sintonia com a equipe econômica, principalmente com a entrada de Guido Mantega”, analisa Araújo. “Quadros políticos como Dirceu devem pertencer ao governo, mas não concorrendo com o presidente. Ele deveria ter ido para a Saúde ou Educação, um ministério temático onde poderia trabalhar, mas é uma liderança muito forte para a função que desempenhava”, conclui.
Outro fator importante foi o aparecimento dos resultados dos programas do governo, especialmente na área social. Nesse setor, o grande nome é o do mineiro Patrus Ananias, o discreto ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, responsável pelo Bolsa Família. O programa, tão criticado pela mídia durante todo o governo, foi um dos grandes cabos eleitorais de Lula. O sucesso foi tamanho que mesmo Alckmin, que antes o considerava assistencialista, passou a repetir insistentemente: “eu vou continuar, melhorar e ampliar”. “Patrus foi importante para isso porque foi quem deu o formato final do programa”, avalia Araújo.

Batalha 10 – Lula detona Alckmin e aliança governista vence na maior parte dos estados
Geraldo Alckmin começou a campanha com uma linha leve, pouco utilizando o tema da corrupção em seu programa na TV. No entanto, desde o início setores do PSDB e o PFL em peso queriam que o candidato batesse forte em Lula. O ex-presidente Fernando Henrique deu o tom da coisa ao declarar, no final de agosto, que faltava ao Brasil um Carlos Lacerda, alguém para “botar fogo no palheiro”. Desde esse momento, Alckmin passa a crescer o tom das críticas. Ganha pontos com isso, mas não parece ser o suficiente para evitar a vitória de Lula no primeiro turno.
Até que o inesperado acontece. O escândalo do dossiê toma o noticiário e os programas da campanha de Alckmin. A grande mídia adere ao clima de caça às bruxas e mais uma vez trata acusados como réus condenados, invertendo o ônus da prova. E não hesita em lançar Lula no meio da fogueira.
Para o senador Arthur Virgílio, aquele que chamou o presidente da República para a briga, o tom da campanha não foi pesado. “O que o Geraldo fez contra o Lula? Eles que ficam dizendo que o Geraldo vai privatizar a Petrobras, os Correios, o Banco do Brasil, quando na verdade vai reestatizar, tirar da corrupção”, reclama.
Logo após o primeiro turno, muitos dirigentes petistas apavoraram-se e diziam (em off) temer por uma derrota. Mas, ao fim, o segundo turno veio a consagrar Lula. “Nesse sentido, o presidente Lula tem razão quando diz que o segundo turno foi uma ‘bênção’, já que pudemos trazer idéias importantes para o debate. E pôde-se consolidar uma vitória consagradora”, comemora Ideli Salvatti. E foi a batalha final. Que de fato definiu a grande guerra que se iniciou, segundo a avaliação de muitos, com a eleição de Severino Cavalcanti, pelos erros e a arrogância do governo, mas com os votos da oposição.



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