Vitrine Solidária

A Fórum dedica este espaço a divulgação de iniciativas ligadas à economia solidária. Se você participa ou promove algum tipo de empreendimento relacionado ao comércio justo e solidário, entre em contato conosco para divulgá-lo Por...

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A Fórum dedica este espaço a divulgação de iniciativas ligadas à economia solidária. Se você participa ou promove algum tipo de empreendimento relacionado ao comércio justo e solidário, entre em contato conosco para divulgá-lo

Por Brunna Rosa

 

A economia solidária está em ebulição no país

Em entrevista à Fórum, Daniel Tygel, secretário executivo e articulador político do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), fala sobre economia solidária no Brasil e as expectativas para a IV Plenária Nacional de Economia Solidária. O encontro acontece em Brasília, entre os dias 27 e 30 de março.
Fórum – A partir de 1990 as experiências em economia solidária aumentaram substancialmente no Brasil. Desde então quais foram as principais conquistas do movimento da economia solidária?
Daniel Tygel –
Em termos de organicidade, uma importante conquista foi a criação do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), em 2003, hoje presente nos 27 estados por meio de fóruns estaduais e microrregionais envolvendo diretamente mais de 2.600 empreendimentos solidários, 450 entidades de assessoria e a rede brasileira de gestores públicos e cerca de 80 gestores municipais e seis gestores estaduais. No âmbito dos espaços institucionais, a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, criada também em 2003, foi importante, assim como a criação de secretarias, departamentos e gerências de Economia Solidária em diversos municípios e estados do país. Outro espaço de crucial importância para a construção de políticas públicas com participação da sociedade civil é o Conselho Nacional de Economia Solidária, implantado em 2006 após a I Conferência Nacional de Economia Solidária.

Fórum – E no âmbito das ações efetivas?
Tygel –
Quanto às realizações, vale destacar a criação de redes e entidades nacionais de representação de empreendimentos de economia solidária, a participação crescente da economia solidária nas edições do Fórum Social Mundial, a campanha “Economia Solidária: Outra Economia Acontece”, com vídeos e programas de rádio disponíveis publicamente para ações de formação e conscientização, o mapeamento de economia solidária, realizado de 2005 a 2007, e que permitiu termos um retrato deste campo da economia no país. Também cabe mencionar as Feiras Estaduais de Economia Solidária, ocorridas em todos os estados brasileiros anualmente desde 2005, que ampliaram a visibilidade e fomentaram a articulação e processos de formação entre empreendimentos de economia solidária e a consolidação e fortalecimento de redes setoriais, tais como a dos bancos comunitários e a das quebradeiras de coco babaçu. Poderia citar várias outras conquistas mais pontuais, visto que esta é uma temática em ebulição no país, apesar de ainda muito marginal nos meios de comunicação e na agenda governamental.

Fórum – Quais são as principais ações para o fortalecimento da economia solidária em 2008?
Tygel –
A construção do Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário (SNCJS), em processo de implantação que deve ser efetivado nos primeiros meses de 2008 após um desenvolvimento de dois anos, permitirá a regulamentação dos sistemas de garantia do comércio justo e solidário, por meio de certificações e selos. Está prevista, também para 2008, a constituição de política de fomento à comercialização, integrando ações da Senaes e da Secretaria de Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), por meio da articulação do SNCJS e dos Secafes, os Sistemas Estaduais de Comercialização de Produtos da Agricultura Familiar e Economia Solidária, estes ainda em construção.

Fórum – Após cinco anos de existência, o FBES foi responsável por grandes avanços da economia solidária no Brasil. Quais serão os próximos desafios?
Tygel –
Uma das prioridades é o reconhecimento, pelo Estado e legislação brasileira, da economia solidária como um setor da economia, diferente da economia estatal, da economia privada e da economia popular, conhecida como de subsistência. Isso envolve o reconhecimento do direito ao trabalho associativo autogestionário, diferenciando-o do trabalho subordinado e do trabalho autônomo, o reconhecimento da propriedade coletiva e o reconhecimento dos empreendimentos de economia solidária como instrumentos de desenvolvimento. Outro grande desafio é a consolidação do FBES localmente, por meio de fóruns locais, municipais e microrregionais de economia solidária. Precisamos também fortalecer as redes e cadeias de produção, comercialização e consumo solidários.

Fórum – Quais são as principais expectativas para a IV Plenária Nacional?
Tygel –
A IV Plenária Nacional de Economia Solidária diferencia-se da III Plenária Nacional, realizada em 2003, em uma série de aspectos. Em primeiro lugar, naquele ano ainda não era possível avaliarmos as ações do FBES nem as políticas do governo federal. A última plenária se ateve mais em definir a Plataforma e a Carta de Princípios da Economia Solidária, que dão hoje o recorte político e conceitual do movimento de economia solidária no país. Desde então, muita coisa aconteceu e foram ficando mais evidentes os desafios, as fragilidades e os pontos fortes do movimento de economia solidária, o que nos permite dizer que a IV Plenária terá caráter muito mais de aprofundamento e priorização das inúmeras bandeiras de lutas para termos um projeto a médio/longo prazo mais bem definido e autônomo do movimento. Em segundo lugar, a avaliação desse período coloca em evidência a necessidade de repensarmos a estrutura e a organicidade do FBES no país para dar conta de, por um lado, consolidar-se localmente a partir das realidades locais e, por outro lado, potencializar sua capacidade de articulação dos atores e incidência junto aos órgãos governamentais no sentido de representar a diversidade do movimento brasileiro de economia solidária.

Rede de Padarias Solidárias são criadas em município gaúcho
Em busca de melhores condições de vida, trabalhadores do município de Pelotas (RS) se uniram para constituir a Rede de Padarias Solidárias. Os empreendimentos foram inaugurados em dezembro de 2007, em três bairros de baixa renda. “Nossos clientes são nossos vizinhos e sempre explicamos para eles que a proposta da nossa padaria é diferente das outras”, conta César Porto, responsável pela administração de uma das filiais. Desempregado durante dois anos, Porto comemora a nova oportunidade.”É natural que a gente encontre algumas dificuldades no início, como todo negócio tem, mas acreditamos na nossa capacidade e estamos otimistas”, afirma, destacando que, ao final do mês, o pagamento de contas, como aluguel, luz e fornecedores são priorizadas. “O que sobra nós dividimos igualmente entre todos”, diz. Antes de abrir as portas das padarias, os doze trabalhadores da Rede receberam treinamento em administração. O curso foi oferecido por meio de parceria entre Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (Senaes/MTE), Associação de Trabalho e Economia Solidária (Ates) e a Faculdade Atlântico Sul. Foram seis meses de aulas com abordagem de temas como autogestão, plano de negócios e história da economia. “Além de gerar emprego e renda, as panificadoras estimulam o desenvolvimento econômico dessas localidades”, acredita Dione Manetti, diretor de Fomento da Senaes. De acordo com ele, a operação em rede reduz riscos para investir e facilita o acesso ao crédito, além de possibilitar a criação de uma marca forte e unificada. “Um bom exemplo das facilidades trazidas por esse modelo é a possibilidade de efetuar compras conjuntas com custos menores”, sustenta. Outro diferencial da Rede de Padarias é que a maior parte das mercadorias disponíveis nas prateleiras também é feita por empreendimentos da economia solidária. “Nós fazemos a produção do dia-a-dia, o pão, os salgados, os doces. As outras coisas, como café, leite, mel, arroz e feijão nós compramos de cooperados como a gente”, ressalta Porto. A idéia é diminuir os intermediários entre o produtor e o consumidor, um dos princípios do comércio justo. “Dessa forma, é possível desonerar a cadeia produtiva e todos saem ganhando”, defende Manetti.



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