A consolidação de um processo

O grande desafio em 2002 era traduzir de forma concreta o chamado “espírito de Porto Alegre” e motivar ações que pudessem abalar ainda mais o pensamento único Por Rigoberta Menchú  ...

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O grande desafio em 2002 era traduzir de forma concreta o chamado “espírito de Porto Alegre” e motivar ações que pudessem abalar ainda mais o pensamento único

Por Rigoberta Menchú

 

O desafio do Fórum em era ser propositivo. O pensamento único já sofrera seu golpe mais duro em 2001 era agora, era preciso «aduzir de forma concreta o espírito do encontro. Mais de mil seminários, conferência e oficinas contribuíam para uma proposta nada modesta: simplesmente, mudar o mundo.

Foi ali que o Orçamento Participativo serviu de referência para a Assembléia Mundial Sobre Gastos de Guerra decidir que os US$ 800 bilhões anuais gastos com a indústria armamentista – deveriam ser direcionados para a erradicação da fome, do analfabetismo e do trabalho infantil. Essas foram as prioridades eleitas por 4.495 pessoas. Mas a ansiedade por propostas foi criticada à época pelo belga François Houtart. “O capitalismo demorou 400 anos para construir as bases materiais da sua própria evolução”, disse. “Não podemos pensar que ‘o modo de produção so alista vai poder realizar-se em um dia de revolução. Nem tampouco em 50 anos”, alertava, respondendo aos que tinha pressa e voracidade pelos tais “objetivos concretos”

Aqu5la edição contou com duas presenças bastante ilustres. O prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel e a guatemalteca, que recebeu a mesma honraria, Rigobta Menchú. Uma mulher qu,e contava aos participantes do FSM uma história semelhante à de müitos brasileiros e outros tantos latino-americanos e, por conta disso, s auto-intitulava um símbolo da globalização.

Assim, ela mediou um seminário em que se discutiu a paz entre israelenses e palestinos, participou de uma conferência com Esquivel e conceder um depoimento relatando sua história pessoal, além de uma entrevista coletiva. Em todas as ocasiões, emocionou seus ouvintes.

A mais globalizada do mundo Eu me pus a pensar durante toda essa noite e cheguei à conclusão de que sou a mulher mais globalizada do mundo. Sou um perfeito exemplo da globalização. Nasci em uma aldeia onde não havia luz, água potável ou escola. Era uma comunidade bem pequena, onde eu precisava descer com meus pais para colher café, algodão, e voltar ao altiplano, além das tantas vezes em que vivi as mazelas do impaludismo. Sabem o que é impaludismo? A pessoa fica louca de tanta febre.

Também pensei sobre a fome, porque a fome é feroz, é terrível. Não a fome que temos talvez antes do almoço, que nos faz comer rápido. Quando se vive a fome ao longo da vida é diferente. Mas eu não vivi a fome, não totalmente a fome, pois em minha terra havia flores, ervas, raízes para comer. Quase como no Brasil, onde há lugares belos. Sou globalizada também por isso.

Fui também analfabeta, ainda que alguns não acreditem, por muitos anos de minha vida, porque não havia escola em minha aldeia. Também fui dirigente camponesa. Por isso sei que os camponeses não lutam só porque têm ou deixam de ter um pedaço de terra, mas para que essa terra floresça e dê até o final de sua força. Por isso sou globalizada; porque conheço algo da vida camponesa.

Fui empregada doméstica e digo que exercer essa função não é ruim. Foi algo que me ensinou muito. Passei a cozinhar, a amar a cozinha, além de ter aprendido a lavar o banheiro, os corredores, tudo. Isso não é mal, o trabalho doméstico nunca me tomou indigna. Ainda melhor: é o trabalho mais humilde e honrado que pode ocorrer na vida de uma mulher como eu. E por isso também sou global.

Violência Se eu lhes dissesse que não sei quantas vezes estive exposta a uma violação sexual, não acreditariam. E essa é a vida de milhares de mulheres que não têm uma lei que as proteja, uma associação que as defenda; simplesmente as move a coragem de seguir adiante, sem perder o rumo.

Fui sobrevivente de genocídio. Que palavra é essa? Há décadas, as Nações Unidas aprovaram a convenção internacional que penaliza os delitos contra a humanidade. E estou falando de apenas 20 anos atrás, não de 50. Como vêem, ainda falta percorrer um longo caminho.

Quando falo de minha vida, não posso separá-la da história coletiva, pois a história coletiva é a história pessoal. Tive de ver um irmão ser levado, torturado e queimado vivo. Tive de ver meu pai queimado vivo. Minha mãe seqüestrada, torturada, assassinada e comida por animais. Além de outro irmão fuzilado. ‘E eu pensei que seria só isso…

Guatemala O pequeno povoado da América Central onde nasci viveu um conflito armado de 36 anos. Em apenas uma década, foram cometidos 646 massacres e sumiram do mapa 440 idéias. Houve 200 mil vítimas, com mortos, desaparecidos, torturados, executados em público, pessoas queimadas vivas. Destes. 200 mil, ainda há 50 mil desaparecidos. A maioria dessas pessoas permanece viva perante a lei. Esse horror que aconteceu na Guatemala afetou 83% da população maia e nada aconteceu. Mesmo com relatórios da ONU e de todas as entidades mais respeitáveis, estatísticas e dados oficiais dos crimes, a Bolsa de Nova Iorque não caiu nem um ponto. Mesmo com a CFA tendo muitos documentos guardados sobre a tragédia, a bolsa não caiu.

Depois de tudo, apostamos na paz. Começaríamos a reconstruir nosso país, reconstruir o tecido social. Mas, primeiro, deve-se fortalecer a verdade e a justiça, porque, sem ambas, em breve voltaremos a cometer genocídios. Formulamos uma série de iniciativas: a criação de uma nova polícia civil, estreitar a vigilância sobre os juízes para que não ‘sejam corruptos’ e não aceitem chantagens, além de tratar de preparar tradutores em idiomas maias, para que traduzam nossa gente nos tribunais. Estávamos ocupados em construir uma democracia real e, do outro lado, conspiravam contra nós. E, ao final, os genocidas voltaram ao poder e a Bolsa de Valores de Nova Iorque também não caiu.

Quem é e onde está a comunidade internacional? Chego à conclusão de que os mortos também têm categorias. Neste caso, eram maias. E é isso que se sente também na Colômbia. Estive lá e o que se passa é inacreditável. Há tantas atrocidades que seria terrível ilustrá-las. É por isso que é tão importante nossa proposta de os próprios colombianos encontrarem uma solução, não dependerem de outros para apadrinhá-la.

Prêmio Nobel
Deram-me o Prêmio Nobel. O problema é que ninguém falou dos motivos desse prêmio nem o que se podia fazer dele. Iniciou-se então o trabalho de torná-lo o mais nobre possível e guiá-lo ao máximo eu favor dos ideais que tenho e que de. vem ter todos os demais. Mas o pior é que, a partir disso, recebi 23 títulos de doutora honoris causa, diplomas que simplesmente estão aí. Reconheço o valor disso todos os dias. Sempre os admiro. Às vezes, os co loco expostos e os contemplo, ma não os posso empenhar. Ou seja, não podem ser levados a um banco para pedir empréstimo, e nem podem ser rifados, pois quem gostaria de ficar com um diploma meu? Talvez para uma coleção de arte. Mas não me é possível fazer um hospital, uma escola, nada. Nem, sequer posso pagar minha passagem ao Fórum Social Mundial, onde queria ensinar algo para poder vir todos os anos.

Paz Sugeri um código de ética e de paz para um novo milênio, baseado no simples fato de que não pode haver paz sem justiça, não pode haver justiça sem equidade, não pode haver eqüidade sem democracia e não pode haver democracia sem o respeito à diversidade os povos e das opiniões. A paz deve ser uma visão integral de todos os problemas e suas soluções.

O tema da paz foi reduzido a um antônimo de guerra. Fala-se da paz quando se instala um conflito; o que aconteceu com a educação, com a saúde, com a visão integral dos problemas da humanidade? Nós mesmos, às vezes, nos ‘esquecemos da visão integral do rnundo.’



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