Breve viagem pelos vários Brasis do Nordeste

Acompanhe algumas cenas da dinâmica realidade nordestina que, com suas contradições e graça, consegue juntar o mundo todo em seu mundo particularíssimo Por Por Xico Sá  ...

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Acompanhe algumas cenas da dinâmica realidade nordestina que, com suas contradições e graça, consegue juntar o mundo todo em seu mundo particularíssimo

Por Por Xico Sá

 

I – Iracema, a virgem dos lábios de aluguel

Pé na estrada. Começamos a nossa viagem pelo reconhecimento de uma Iracema contemporânea que fere a outrora romântica paisagem indígena do Nordeste: a exploração sexual de crianças e adolescentes, as Iracemas das metrópoles. Os lábios têm mais gloss que o mel de todos os favos do jati. O perfume francês de camelô supera, de longe, a baunilha que recendia no bosque como seu hálito de rapariga precoce. O graúna foi descolorido, pelo menos nas pontas; algumas têm panos brancos nas costas. Sim, continuam encantadoras. Os estrangeiros babam nos tristes tropiques. Os gringos poderiam chamá-las de jambo-girls, doideira cruel.
Elas fazem trotoir na praia, adon¬de são louvadas pelas mesmas lentas ondas.
Lá vêm as meninas de todas as origens e mestiçagens, da gruta do Ipu, dos sertões, dos Inhamuns, dos vizinhos Piauís, das sustanças dos pequis do Araripe, da ferrugem praieira de todas as vizinhanças, vêm com o vento, como cisco, como “bascui”, tangidas pelos redemoinhos das carências e circunstâncias.
“Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema”, assim rezou a prosa alencarina, rosário futuro das sinas. Agora eles, os príncipes encantados de sempre, compram ainda mais em conta, nem pagam o pedágio da simbologia das tribos, não bancam os rituais da entrega, simplesmente estragam, devoram, levam.
“Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.”
Além, muito além daquela favela que ainda hoje azula de fome sob a sombra da elite, nasceu Iracema, a virgem dos lábios de aluguel.
II – No céu de Suely

Pé na estrada e todo cuidado é pouco. Não com a buraqueira dos sertões/veredas. Com a imagem guardada na sua cabeça e com a idéia que o caríssimo leitor ou leitora tem ou faz do Nordeste. E é justamente nesse espanto dos olhos que você pode descobrir o que há de melhor e extravagante na região nos dias de hoje. Menos para os puristas, que desejariam encontrar sempre uma grande Macondo, a terra imaginária do realismo-fantástico de Gabriel Garcia Márquez, ou um lugar congelado no tempo, com a mais ingênua das gentes.
Não se espante, viajante, se você der de cara com um vaqueiro, este tradicionalismo-tipo da área, tangendo o seu gado ou as suas cabras montado numa possante motocicleta. A coisa mais comum do mundo hoje em dia é uma cena como essa. O cavalo, o burro e o jumento são cada vez mais substituídos pelas motos. Qualquer cidadezinha ou vilarejo do Nordeste é apinhado desses veículos. Haja mototaxista. Um tipo tão popular que já tomou conta das letras de canções bregas e forrós, sempre visto como um “sedutor”, um dom Juan agreste. Um tipo que agora ganha no cinema, na bela obra de Karin Ainouz, O céu de Suely, a sua mais interessante representação. A película mostra bem este Nordeste, a partir da cidade de Iguatu (Ceará), entre o arcaico e o moderno desmantelo.
A modernidade toma conta das veredas e até dos telhados dos casebres. Haja antena parabólica a enfeitar as cumeeiras dos lares doces lares. O sertanejo ou interiorano, à imagem e semelhança do Jeca Tatu de Monteiro Lobato, ficou na poeira da estrada. Praticamente não existe mais. O sertanejo hoje é antes de tudo um antenado. E isso não significa, ao contrário do que pregam os apocalípticos, prejuízos aos costumes e à sua cultura. Nada disso. Estão lá, fortes como sempre, as suas manifestações artísticas. Felizmente o escritor Mário de Andrade, que excursionou pelo Nordeste ainda no começo do século XX, errou as suas previsões e cálculos ao alardear que muito da cultura popular estava com os dias contados.

III – Deixe em casa a visão antiga

O violeiro, esse outro tradicionalismo-tipo, algo herdado do nosso mundo ibérico, nunca esteve tão em voga. Convive numa boa com a parabólica. E dela até assunta seus novos motes, fazendo repentes sobre as modas e modinhas novas, os telejornais, o sexo na TV, o drama das novelas. Não será difícil, caro viajante, deparar com um festival de violeiros, tanto no interior como nas capitais. São grandes embates de repentistas, que se desafiam em motes (temas) variados sugeridos por um júri, até o triunfo da melhor dupla. Sabendo de um desses acontecimentos, não titubeie, caia dentro. Imperdíveis.
Se der sorte, vai encontrar o Oliveira de Panelas, um dos melhores repentistas de todos os tempos, mandando rimas sobre o fenômeno da globalização ou o massacre de George W. Bush no Iraque, entre outros temas favoritos.
Deixe em casa, pois, a visão do Nordeste das antigas, e prepare-se para a grande viagem, com olhos de um(a) generoso(a) documentarista. Aquele tipo que vai para o mundo despido de preconceitos e estereótipos. O pior viajante é aquele que já sai do seu canto com os olhos preenchidos.
Não fique somente nas praias, adentre, enriqueça a trajetória, fuja também do que é lindo e óbvio. Uma noite no sertão é guardada para o resto da vida, como uma cena clássica de um grande filme. A caatinga fica meio branca, como na tela do Cinema, Aspirinas e Urubus, película de Marcelo Gomes. A coruja pia, o sertãozão encantado, música ao longe, principalmente a música do silêncio, o nonada enluarado. Na verdade, não há silêncio, você é que não escuta nada mesmo, como diz Lírio Ferreira, diretor de Baile Perfumado (em dobradinha com Paula Caldas) e de Árido Movie, um road-movie que sai do sertão arcaico e chega ao sertão moderno sem que a gente saiba onde começa um e onde termina o outro.

IV – Se oriente, rapaz

Como parece oriental o ritmo do sertão, você vai ver. Principalmente na fala pouca e no dizer muito. Às vezes só um gesto com os lábios tem mil palavras. Pergunte se é muito longe ou muito perto. A criatura vai apenas esticar os beiços, como se dissesse “é bem ali”. E haja andar que só a peste.
Outro grande tipo, clássico que se mantém, melhor que nos tempos de Pedro Malasartes e João Grilo (personagem da literatura de cordel adaptado para o teatro por Ariano Suassuna e daí para a TV e o cinema, vide O Auto da Compadecida) é o anti-herói, um gozador por excelência. Não se trata de uma criatura tomada pela Lei de Gerson, o cara que leva vantagem em tudo, muito pelo contrário. Trata-se do gozador por excelência, o tirador de onda, o sujeito cheio de artimanhas e pulhas, que disso faz a sua vida. Disso sobrevive, inclusive, de pequenos truques que lhe dão o sustento e a teimosia para sempre. É o tipo que encarna Quixote e o seu duplo, o doido sonhador e o velho Sancho Pança.
Caro viajante, não choramingue as mudanças, não chore as pitangas, cultura é assim mesmo, não é estática, o Nordeste agora tem muito mais contradições e graça. Tudo para ser mais forte ainda, contrariando os apocalípticos, juntando o mundo todo ao seu mundo particularíssimo.
Conheça a primeira metrópole dos sertões. É fato. Chama-se Jua¬lina, como é chamada a mancha urbana entre Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), separadas no nascimento pelo rio São Francisco. Coisa mais linda. Conheça Juazeiro, Barbalha e Crato, uma metrópole, na “Meca do Cariri”, como é chamada, território cearense, jardins dos caminhos onde se bifurcam todos os Nordestes, modernidade na livre convivência com o messianismo, terra do Padre Cícero, eleito santo pelo voto popular daquele povo todo, ô mundão tão místico.
Pé na estrada e seja bem-vindo a um país que não cabe mais nos seus estereótipos.
Viajar é perder de vista o passado. F



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