Educar para um outro mundo possível

Realização das edições do Fórum Mundial de Educação possibilitou a troca de experiência e práticas educacionais que vão além da esfera do Poder Público Por Nicolau Soares  ...

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Realização das edições do Fórum Mundial de Educação possibilitou a troca de experiência e práticas educacionais que vão além da esfera do Poder Público

Por Nicolau Soares

 

Nove meses depois da realização do primeiro Fórum Social Mundial, surgia um de seus mais importantes frutos. Cerca de 15 mil pessoas foram a Porto Alegre para participar do Fórum Mundial de Educação, espécie de extensão do FSM voltada especificamente para o tema. Hoje, o FME está chegando a Nairóbi, depois de passar, entre edições regionais e temáticas, por São Paulo, Cidade do México, Córdoba (Espanha), Caracas, Nova Iguaçu e Buenos Aires. Em cada lugar, deixou marcas de sua passagem e acumulou novas idéias, experiências e, principalmente, a esperança de que a educação seja efetivamente um direito para todos.

“A educação como debate não estava nos eixos centrais e aparecia pouco nos sub-eixos temáticos do 1 FSM”, lembra Salete,Valesan Camba, da Secretaria Executiva do Conselho Internacional do FME. Entretanto, um grande número de educadores estava presente em Porto Alegre em 2001 e a idéia de- um encontro sobre o tema começou a nascer. A prefeitura de Porto Alegre, que já realizava um evento chamado Encontro Mundial de Educação, se aproximou e, em outubro do mesmo ano, surgia na cidade o Fórum Mundial de Educação.

Para Moacir Gadotti, diretor do Instituto Paulo Freire, o FSM tem uma faceta pedagógica muito importante, que foi ampliada no Fórum Mundial de Educação. “O pior não é o mundo que está aí, é pensar que só esse mundo é possível, é esse mundo transformado em fetiche: o discurso único fatalista que tudo domina, a fração fatal pela mercar dona, imutabilidade, atração fatal pelos objetos”, explica. “Só uma nova conscientização contra a fetichização poderá desbloquear esse travamento da humanidade. Daí a importância do FSM como processo pedagógico. Se um outro mundo é possível, uma outra educação é necessária”, completa.

O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Miguel Arroyo, participante de todas as edições do Fórum, tem visão semelhante à de Gadotti.
“Os dois fóruns (FSM e FME) são demonstrações de que há processos na sociedade, e principalmente processos educacionais, de contra-hegemonia, de sair da visão de mercado. E uma reação coletiva e mundial à concepção de sociedade, de ser humano, de educação que vinha se impondo”.

Na busca por essa reação contra o mercado, alguns valores e conceitos se destacam e dão o tom dos discursos. Dentre eles, o acesso uma educação pública e gratuita e que a garantia de permanência e a aprendizagem são consensuais. Para José Clovis de Azevedo, professor do programa de pós-graduação da rede Metodista do Sul e conferencista nas duas edições gaúchas cio Fórum Mundial de Educação, a principal contribuição do FME vem sob a forma de “diretrizes para a inclusão social via acesso ao saber”. De acordo com ele, a educação tem dois problemas básicos: limites de acesso e dificuldades de permanência e aprendizagem. Dessa forma, a luta precisa ir além da universalização. “O Brasil praticàmente universalizou o acesso ao ensino fundamental, tem estrutura para absorver a demanda. Mas a média de permanência é de menos de quatro anos. Há exclusão por ‘n’ razões socioeconômicas”, exemplifica. “São questões que perpassam a democracia de tema transversal e que são diferentes de país para país”, sustenta.

Miguel Arroyo considera que o fundamental nos fóruns é a troca de experiências e de práticas educacionais e políticas dos movimentos sociais. “A educação é um campo fechado, repetitivo, que perdeu um pouco o viés de futuro. O movimentos, sejam eles do campo, como o MST os quilombolas, os movimentos feministas, trazem outras questões”, avalia.

Arroyo acredita que os movimentos sociais são os grandes educadores da sociedade e levam não apenas uma experiência de escola aos fóruns, mas se afirmam como agentes coletivos. “A educação ficou excluída da escola. Lá se formam competências, acontece o ensino, mas não a educação. Graças à presença dos movimentos, o FME é um encontro de educação, não de ensino, como normalmente ocorre em eventos desse tipo, que falam apenas de métodos, de aprovação, reprovação”, analisa.

Assim, as entidades encontram no FME, assim como no FSM, o espaço ideal para a articulação e o fortalecimento de relações, viabilizando redes, campanhas e definindo propostas que continuam depois do evento. “No Brasil, um exemplo de discussão que está se concretizando é o Fundo da Educação Básica (Fundeb), aprovado recentemente pelo Congresso Nacional, que já vinha sendo discutido pelas entidades, mas ganhou força no FME”, comemora.

Políticas públicas No FME, os debates vão além das organizações ligadas à área de educação. “Ao trazer para a pauta mundial a necessidade de discutir a educação como direito, o Fórum acaba levando para a pauta de economia a necessidade de financiamento para a educação”, exemplifica Valesan. Além disso, possibilita que no mesmo espaço estejam pessoas de várias áreas, viabilizando articulações com outros setores, como saúde e cultura, para discutir políticas públicas que possam interagir.

Agentes do Estado também participam desse processo. As políticas propostas pelo Poder Público são submetidas à avaliação das entidades e tornam-se mais visíveis para a sociedade em geral, em especial para a comunidade escolar. “As entidades avaliam a legitimidade das propostas do Poder Público e passam a entender melhor como funciona o governo. E urna relação diferente”, sustenta Valesan.

Cida Perez, secretária de Educação de Suzano, destaca que o controle social possibilitado pelo Fórum não se aplica somente a governos, mas também às entidades que participam do evento. “Houve, por exemplo, urit grande debate sobre a lei francesa que proibia o uso do véu nas salas de aulas. Nesse debate não fica exposta apenas a atitude do poder público francês, mas as posturas das organizações que se posicionaram”, afirma.

Perez conheceu de perto a força da passagem do FME em uma administração pública. Em 2004, o evento foi realizado em São Paulo, no ano do aniversario de 450 anos do município. “A prefeitura naquele ano procurava formas de comemorar a data, mas com eventos que ajudassem a transformar a cidade, O FME foi’ um deles”, recorda Cida Perez, à época secretária de Educação na capital paulista e uma das responsáveis pela realização do Fórum. “A prefeitura participou das discussões junto com os movimentos sociais e não teve qualquer privilégio por ser financiadora”, explica. “Toda temática, as atividades, tudo é discutido pelas entidades que são de vários tipos: sindicais, religiosas, ONGs. São pontos de vista diferentes, cada uma se pauta por sua atividade. E uma diversidade muito interessante”, conclui.

Ela acredita que o Poder Público tem nesses locais uma fonte renovadora de suas práticas. “E uma retro-alimentação: a gente vai buscar nos movimentos sociais o embasamento para as ações”, avalia Perez. No caso paulistano, as estrelas do evento foram os Centros Educacionais Unificados (CEUs). “Confrontar a proposta com outras experiências internacionais foi importante. Atraímos parceiros de todo o mundo não só para os CEU’s, mas para’ toda a política educacional, como formação para os professores, por exemplo”, conta.

A pioneira Porto Alegre, sede de três edições do evento, também usufrui do legado’ do FME. Quem colheu esses frutos foram os professores da cidade. “Ficou demonstrado pela troca de experiências que a cidade tinha um projeto educacional bem avaliado e que os professores já tinham avançado bastante nas discussões”, conta José Clovis de Azevedo. isso contribuiu e muito para a melhoria da auto-estima do professorado. “Toda a comunidade escolar, com pais e alunos, também foi beneflciada Foi possíe1 realçar o trabalho que estava acontecendo ‘na cidade”, sustenta.

A Plataforma Mundial de Educação Como “filho” do Fórum Social Mundial, o FME traz consigo muitas de suas características, o que faz também com que sofra muitas das críticas que habitualmente se fazem ao FSM. Para manter a diversidade, que é sua marca mais forte, ambos os fóruns abdicam de publicar propostas únicas, a menos que se atinja o consenso entre as entidades participantes. No caso do FME, alguns documentos foram divulgados, entre eles a Plataforma Mundial de Educação (PME). Trata-se de uma agenda comum, de construção coletiva, que pretende servir de guia de ação para as entidades e governos ligados ao Fórum. Isso se aplica tanto à formulação de políticas públicas quanto à linha de reivindicações e propostas pedagógicas de ONGs e outras organizações. “Esperamos que a PME possa ser usada pelas organizações internacionais para propor e cobrar do Poder Público”, acredita Salete Valesan.

“A carta aponta como. a educação ode ajudar a construir esse outro mundo possível”, sustenta Cida Perez. “Ela é uma declaração de princípios, mas também um pacto entre os participantes para que esses princípios sirvam como referência, um fio condutor para a elaboração de políticas públicas e para a -ação das entidades”, conclui.

“A PME é muito importante para se contrapor ao que vem do Banco Mundial”, resume Miguel Arroyo. “Mas tenho medo de que a plataforma seja muito marcada pela visão dos intelectuais da educação”, analisa. Para ele, caso isso aconteça, a proposta corre o risco de tentar colocar em nível’ mundial concepções de grupos específicos, deixando de lado as importantes contribuições feitas pelos movimentos sociais. “existem concepções como a de Paulo Freire, a pedagogia crítica, os educadores populares, todas progressistas, mas os movimentos sociais ultrapassam isso”, opina Arroyo. Nós, intelectuais, ternos uma concepção ilustrada, de promover o pensamento crítico, a cidadania, estamos ligados aos direitos políticos. Os movimentos sociais falam de
direitos humanos básicos, têm uma postura muito mais radical. A Plataforma hoje reflete essa ausência de reflexão dos intelectuais sobre os direitos econômicos”, pondera.

Em sua próxima edição, o FME enfrentará vários desafios, alguns ligados ao seu próprio processo internos, outros à nova realidade que irá conhecer. A ida a Nairobi trará novas questões e contribuições a um evento que caminha para se tomar cada vez mais mundial “Não somos uma internacional da educação, mas devemos aprofundar o processo de mundialização do Fórum, avançar na maior participação dos países árabes, dos países da Ásia e da própria África”, defende Moacir Gadetti. “Não é necessário que se reinvente a roda em cada parte do evento. A troca de experiências gera novas contribuições, representa um acúmulo do processo concorda Jose Clovis de Azevedo.

Esse acúmulo de experiências deverá se refletir diretamente em avanços nas formulações em terno da Plataforma Mundial de Educação “O FME pode se definir como um processo orgânico em tomo de uma Plataforma Mundial de Educação Conensos mínimos em torno dessa Plataforma se constituem em um dos grandes desafios da próxima edição do FME”, afirma Gadetti. Uma reunião do Conselho Internacional do FME será realizada para avançar no formato do evento, avaliando conquistas e desdobramentos do processo do FME ate agora. “Devemos fazer uma analise crítica do processo, de sua presença, incidência e de sua especificidade no campo educacional mundial”, esclarece Moacir Gadotti “Nos últimos anos, mesmo com os fóruns, não se conseguiu evitar o avanço da privatização e o aumento da presença do setor privado na educação. É preciso nos fortalecermos para esse combate e criar condições para reverter essa situação”, sustenta Romualdo Portela, professor da Faculdade de Educação da USP e conferencista em três edições do FME.

Mogi das Cruzes recebe FME regional em 2007 O Brasil terá mais uma edição regional do FME no próximo ano. Trata-se do Fórum Mundial de Educação do Alto Tietê, região de São Paulo que abrange os municípios de Biritiba Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Guararema, ltaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá, Salesópolis, e Suzano. As secretarias de Educação destes municípios estão organizando o evento juntamente com outras áreas, movimentos sociais, instituições de ensino e ONGs.

Cida Perez , atual secretária de Educação de Suzano, está participando do processo “Estamos agora realizando reuniões mensais das comissões temáticas”, conta. O tema central do evento, ainda não completamente definido, deverá ser “Diversidade como protagonista da educação”. O evento ocorrerá entre os dias 13 e 16 de setembro de 2007, na cidade de Mogi das Cruzes.



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