Expatriamento

A reunião de expatriados corre o perene perigo de fundar estranhas seitas dedicadas a render culto a uma identidade perdida que nunca existiu. Nestes 21 anos de residência nos...

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A reunião de expatriados corre o perene perigo de fundar estranhas seitas dedicadas a render culto a uma identidade perdida que nunca existiu. Nestes 21 anos de residência nos Estados Unidos, embora eu sempre tenha cultivado amizades brasileiras, tornei-me cético e cínico quanto ao poder simbólico, ou mesmo imaginário, desses rituais de recuperação retrospectiva da identidade. Exilada no México durante as duas últimas ditaduras em seu país (1966-73 e 1976-83), a escritora argentina Tununa Mercado nota, num belo livro intitulado En estado de memoria (publicado no Brasil em tradução minha), que os argentinos que mais se queixavam da obsessão carnívora da cozinha argentina foram aqueles que, uma vez no México, entraram em depressão pela falta do bife de chorizo e do doce de leite. De volta, já na redemocratização, eles passaram a arrastar-se na saudade do chile chipotle mexicano que, no exílio, suportavam como um mal necessário e que agora —  ¡carajo! — era impossível encontrar em Buenos Aires. Se não se cuidar, o expatriado vira um mero projétil nesse monótono ping-pong do imaginário.

No caso do brasileiro, a coleção de símbolos coletados pelo expatriado exerce um poder considerável. Os membros dessa curiosa nacionalidade, que não possuem um biotipo ou um padrão étnico definidos,  reconhecem-se com facilidade estonteante no exterior, antes da emissão de qualquer signo verbal. A “identidade nacional” é uma construção imaginária — muitos já notaram essa obviedade. Mas entre estes, poucos atentaram para quão operante ela segue sendo, ainda que imaginária. A brasileira, especialmente, é de atração poderosíssima, dentro e fora de suas fronteiras.

Não me lembro de ter sofrido, em duas décadas de EUA, qualquer ato de xenofobia, fato menos atribuível à minha condição de brasileiro do que às de branco, universitário e falante de inglês desde a pré-adolescência. Se nunca fui confrontado com xenofobia, no entanto, a estereotipia nacional tem sido companheira constante. Ninguém estranharia que um holandês se dedicasse a estudar literatura alemã, mas a frase “você, brasileiro, escreve livros sobre literatura argentina?” já me foi lançada em mais tons do que eu seria capaz de reproduzir. Recentemente, um antropólogo americano que visitava minha instituição não conseguiu se conformar que eu, “um brasileiro”, me comunicasse sem sotaque em outras línguas e me dedicasse, por exemplo, a escrever sobre filósofos europeus e não a estudar a capoeira. A compartimentalização da que foi vítima o colega — que estuda, diga-se, o Brasil — é fruto da notável atração que exercem certas fábulas identitárias brasileiras e seria impensável, por exemplo, para um canadense ou um sueco.

Mais que os hispano-americanos, os brasileiros cultivamos uma imagem nacional que não se subsume sob qualquer outra categoria — poucos brasileiros se identificariam como “latinos” ou “sul-americanos”, por exemplo, antes de apresentar-se com uma referência à sua nacionalidade. Não é assim necessariamente com um salvadorenho ou um peruano. Ao contrário dos mexicanos, os brasileiros vivemos com datas e símbolos oficiais pátrios completamente desprovidos de conteúdo: carente de heróis, de guerras de independência, de figuras populares vitoriosas e de revoluções bem-sucedidas, o Brasil tem uma relação cínica com a memorabilia oficial da identidade pátria. Não conheço brasileiro — civil, pelo menos — para quem o 7 de setembro tenha qualquer densidade simbólica que vá além do feriado escolar ou laboral. A força da “identidade nacional” brasileira passa por outro lugar.

Aos olhos de um brasileiro, a relação dos sujeitos com a simbologia oficial no México parece uma bizarra história em quadrinhos onde todos representam uma espécie de teatro da credulidade, inimaginável para nós. Ali, no entanto, a crença — e quem sabe também o fundamento histórico da crença — é real, realíssimo. Neste sentido o México se parece muito mais, sem dúvida, com os Estados Unidos que com o Brasil. Sempre assaltou-me a sensação de que, mesmo entre poloneses monoglotas, eu sinto mais comunhão e identificação que no México — apesar de eu ser fluente em espanhol e analfabeto em polonês. Isso não me impede de admirar a notável cultura mexicana. Mas o nosso senso de nacionalidade passa por um registro essencialmente diferente do deles; o  nosso é um registro irônico, de autodeboche e autocrítica. A mais essencial comunhão da brasilidade consiste na conversa sobre quão esculhambado é o Brasil.

Exceto para o brasileiro nostálgico. Ah, expatriado com saudade não brinca de ser brasileiro, não! Mesmo formado com Iron Maiden ou com a vanguarda paulistana, ele não se furtará a demonstrar que sabe os passos do samba. Ainda que membro, em terras brasileiras, da minoria que odeia futebol, ele se vestirá de verde e amarelo nas Copas do Mundo. Conhecedor da violência urbana carioca ou paulistana, ele se revoltará contra editoriais, reportagens ou filmes estrangeiros que a retratem.  E assim por diante. É o brasileiro que torna-se (imaginariamente) brasileiro no exterior.

Mas a emigração também produz outra forma de expatriado, o “bem-adaptado” que já não “entende” como é possível viver com um salário brasileiro, “esquece” palavras em português e vocifera receitas econômicas fáceis, que funcionaram, garante-nos, em outros lugares. Esse personagem vai tecendo uma identidade híbrida, baseada num pastiche de valores aproveitados da terra adotiva e numa brutal simplificação metonímica de traços do país de origem. É o brasileiro que, no exterior, deixa de ser (imaginariamente) brasileiro.

Ninguém escapa a essa dialética, mas estar consciente dela é um primeiro passo para manter relações menos especulares, automáticas, raivosas ou ideológicas com um desarraigo que é — a partir do momento do expatriamento — irredutível e irrevogável. Sim, aplica-se ao expatriado, mais que a qualquer um, o dito heracliteano sobre a impossibilidade de banhar-se duas vezes no mesmo rio. Mesmo que você volte,  a coxinha com guaraná jamais terá o mesmo gosto. Constatar, inclusive, que ela não tem o gosto fantasiado no exílio é parte fundamental do aprendizado de ser brasileiro — numa época, afinal, em que nem nós estamos completamente aqui nem vocês estão totalmente .

PS: Este texto foi publicado em 2007 na Revista Germina. Trago-o para cá não só para dar aos novos leitores a chance de conhecê-lo e para tê-lo a salvo no servidor da Fórum, mas também para notar uma curiosa diferença. Talvez a mais essencial comunhão da brasilidade, hoje, quatro meros anos depois, já não seja a conversa sobre a esculhambação que supostamente nos caracteriza, mas um perigoso ufanismo de nova potência.



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1 comment

  1. Vitor Responder

    Estando fora a mais de 15 anos, compartilho com as idéias do texto. Mas adiciono um ponto a mais: a distancia e a falta de experiência realmente afeta nossa capacidade de racionalizar o que passa e o que e o Brasil. Ao mesmo tempo que nunca realmente comprendemos a realidade americana. Ficamos meio alienados a tudo.


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