Kibera, selva de lutas e sonhos

A realidade de uma das maiores favelas africanas dá a dimensão dos inúmeros desafios que preciam ser enfrentados no continente para se alcançar a justiça social. Por Luciano Máximo  ...

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A realidade de uma das maiores favelas africanas dá a dimensão dos inúmeros desafios que preciam ser enfrentados no continente para se alcançar a justiça social.

Por Luciano Máximo

 

Kibera. Uma das maiores favelas da África foi o ponto de partida do VII Fórum Social Mundial. Ali se deu a saída da marcha que terminou no Parque Uhuru, onde aconteceu a abertura do evento. Para dezenas de milhares de ativistas, foi o primeiro contato com a crua realidade africana. Uma área com 225 hectares e uma população acima de 800 mil pessoas em condições degradantes. Nesse lugar, na região Oeste de Nairóbi, os participantes do Fórum experimentaram a pulsação da miséria, do sofrimento e das injustiças sociais que assolam boa parte do continente.
Original do núbio, um dialeto do Nordeste africano, “kibera” significa “selva densa”. Mas a flora da favela não agrada aos olhos. Trata-se de uma selva escura. No lugar de árvores frondosas, um amontoado sem fim de casas de pau-a-pique cobertas por telhados enferrujados. As palafitas são distribuídas em vielas estreitas e sujas, formando guetos labirínticos. Em vez de rios corpulentos, esgoto a céu aberto e córregos fétidos, na maioria das vezes usados como fonte de água para os habitantes locais.
Mas esta é só a selva vista de longe. A impressão não é tão viva nas telas de cinema – Kibera serviu de cenário para o filme O Jardineiro Fiel, do diretor Fernando Meirelles, o mesmo de Cidade de Deus. Quando o foco da câmera dá lugar ao olhar social e se aproxima, descobre-se que seres humanos são os protagonistas de um drama sem cortes. Um grupo de militantes sociais e jornalistas brasileiros e de vários países interagiram com essa realidade. Durante as atividades do Fórum, eles participaram de uma visita a Kibera, promovida pela organização não-governamental Coalizão Internacional de Habitação.
Acompanhados por militantes quenianos e moradores da favela, o grupo percorreu as vielas e conversou com moradores. Foram cercados por crianças curiosas a cada passo. A canadense Akua Benjamin, integrante do Fórum Social de Toronto, trabalha pela melhoria das condições de moradia em seu país. Ficou chocada. “Já visitei muitas favelas, mas nada como Kibera. As condições em que as pessoas vivem aqui é impensável”, relata.
Nenhum habitante da favela é dono de sua própria casa. As terras, todas estatais, foram ocupadas ao longo dos últimos 75 anos por quenianos de tribos minoritárias ou excluídos do mercado de trabalho. Mesmo assim, o governo colocou lotes à venda e permitiu que eles fossem usados comercialmente. Muitos financiamentos internacionais para a construção de casas populares foram perdidos por causa da corrupção. Sem a posse legal da terra, os moradores vivem sob constante risco de remoção caso não paguem aluguel em dia ou uma empreiteira decida começar uma obra. Muitas famílias se juntam num mesmo barraco para dividir a conta do aluguel, que custa em média 500 shillings quenianos (R$ 20) por mês, o mesmo valor que a organização queria cobrar pelo credenciamento de cada queniano. Mesmo assim, pequenas palafitas tornam-se residência para mais de dez pessoas. Isso se repete em outras 170 favelas espalhadas por Nairóbi, afetando mais de 1,5 milhão de pessoas, metade da população da cidade.
Para Stephen Mukuogo, líder comunitário da favela e um dos guias da comitiva, conquistar a posse legal da propriedade vem em primeiro lugar. “O governo tem que dar a terra ao povo, é um direito. Como proprietários, teríamos melhores condições de organização e de diálogo. Isso ajudaria a buscar financiamentos e parcerias”, disse.
Segundo ele, novas articulações estão surgindo dentro da favela. “As pessoas estão acordando, debatendo e se organizando em associações, pensando em criar novas condições de vida pela própria capacidade de cada um.” Em uma atividade improvisada, moradores e visitantes compartilharam experiências. “É o processo do Fórum Social Mundial acontecendo aqui e agora”, comentou Michael Cane, da Coalizão Internacional de Habitação, um dos organizadores da visita. Márcio Porto, representante da União por Moradia Popular, movimento presente em 17 estados brasileiros, sugeriu a política de autogestão para impulsionar a participação da população da favela em projetos. “É uma experiência uruguaia bem-sucedida que estamos implementando em ocupações no Brasil. A produção social do habitat começa com participação social. É um meio de garantir direito a políticas públicas básicas a partir da construção da nossa própria casa.”
Com o estatuto da mais nova associação de moradores de Kibera em mãos, Daniel Osakan, de 23 anos, anunciou que os mais de 100 membros estão dispostos a articular com as organizações do Fórum. “Vamos reivindicar nossos direitos e estamos abertos para aprender e para receber ajuda”, declarou. O jovem líder comunitário conversou com os estrangeiros dentro de sua casa: uma cabana feita de barro e madeira de pouco menos de 10 m2, onde vive com a mãe, quatro irmãos e um filho pequeno. Desempregado, ele só consegue trabalho temporário e conta com a ajuda dos irmãos para pagar o aluguel, comprar comida e manter o filho na escola. Retrato da situação da comunidade, excluída do mercado de trabalho. Boa parte tem nível educacional baixo, falam somente o swahili e não possuem qualificação profissional. Muitos moradores arrumam emprego no Toi Market, uma imensa feira livre ao longo da linha de trem que passa pelo centro da comunidade.
Daniel Osakan também alerta para a questão da educação infantil em Kibera. Ele informou que muitas crianças não freqüentam instituições de ensino. Não há vagas para todas elas nas escolas públicas. Por causa do preço, nem sempre os pais conseguem mantê-las nas particulares, facilmente confundidas com outros barracos. “Precisamos cuidar do futuro das crianças”, disse, ao apresentar o filho de seis anos.
Com o pensamento no bem-estar do menino, Daniel se tornou um líder na selva de Kibera. Ele sabe que quem acredita na luta por justiça social precisa agir no presente, buscando alternativas que possam ser conquistas futuras. “Tenho esperança, me esforço, trabalho, para que meu filho cresça numa Kibera diferente, melhor.” Para o grupo de estrangeiros que visitou a favela, a mensagem do africano vai continuar ecoando pela selva de Kibera e do Fórum Social Mundial até que as transformações que ele deseja para o filho sejam possíveis.



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