Noite de dançarino

Sete dias rio abaixo ou doze rio acima, era quanto durava a viagem de vapor – que alguns chamavam de “gaiola” – no rio São Francisco, entre Pirapora, no norte de Minas, e Juazeiro,...

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Sete dias rio abaixo ou doze rio acima, era quanto durava a viagem de vapor – que alguns chamavam de “gaiola” – no rio São Francisco, entre Pirapora, no norte de Minas, e Juazeiro, no norte da Bahia, em frente a Petrolina, que fica em Pernambuco.

Por Por Mouzar Benedito

 

Sete dias rio abaixo ou doze rio acima, era quanto durava a viagem de vapor – que alguns chamavam de “gaiola” – no rio São Francisco, entre Pirapora, no norte de Minas, e Juazeiro, no norte da Bahia, em frente a Petrolina, que fica em Pernambuco.
Eu fiz essa viagem algumas vezes. Todo final de ano, tirava férias do trabalho – na época que também eram férias da faculdade – e ia para o Nordeste, chegando às vezes a algum lugar turístico, mas preferindo sempre afundar nos lugares onde turista não chegava. E sempre tinha companheiros pra fazer viagens desse tipo, na maioria das vezes colegas (moças inclusive) do curso de Geografia da Universidade de São Paulo, onde eu também estudava. Com a certeza de que para sermos geógrafos precisávamos conhecer a realidade brasileira de verdade, não só pelos livros, lá íamos nós, de ônibus, carona, trem ou o que fosse. Quando ia ter bastante tempo pra viajar, optava pelo vapor do São Francisco, sempre rio abaixo, a partir de Pirapora.
Uma dessas viagens foi no início da década de 1970. O vapor sairia no dia 26 de dezembro, mas no dia 24 já estávamos em Pirapora, um bando de amigos. O pessoal que tinha mais dinheiro ou que preferia gastar o que tinha com hospedagem (nós preferíamos gastar com cachaça e gandaia) foi pra um hotel razoável e ficou por lá. Ricardinho, Marinho e eu ficamos numa espelunca e acabamos indo pra zona de prostituição tomar umas cervejas antes de dormir, depois de deixar no hotel as meninas e os colegas que estavam hospedados lá.
Foi uma noite que “baixou o santo” em mim, virei um dançarino de primeira. Depois de uma pinga e umas cervejas, tirei uma mulher pra dançar e eu mesmo me surpreendi com a competência que eu exibia como dançarino. Deixei a mulher na mesa onde estava, mas uma colega dela não me deixou voltar, exigiu a próxima dança. E depois dancei com outra, e com outra… Varei a noite dançando com as prostitutas, com todo o respeito. Gozado é que em outras ocasiões, quando ia dançar com moças que não eram prostitutas, eu só ficava com idéias sacanas, encoxando as meninas.
As mulheres tinham gostado, não houve aquele clima de solidão e tristeza que se abate sobre as pessoas deserdadas nas noites de Natal.
Voltei para o hoteleco pensando nisso e no meu passado de “dançarino”. Desde criança encarava a dança de maneira safada. Quando fui aprender a dançar, era tempo de bolero e chachachá. O chachachá era uma dança mais rapidinha em que a gente dava uns passos pra trás, dava uma paradinha repentina, dava passos pra frente e uma paradinha… A nossa sacanagem (não era só minha) de adolescentes consistia em parar na hora errada. A parceira não estava esperando e vinha pra cima da gente, que maliciosamente colocava uma perna entre as pernas dela. Ficávamos doidões. Quando o conjunto começava a tocar outro ritmo era uma gritaria da molecada: “chachachá… chachachá…”. Pois é, com as prostitutas, dancei boleros e não pedi chachachá. Mas na zona tocaram chachachá também e eu dancei. Sem paradinha na hora errada.



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