O Fórum da paz

Na terceira edição realizada em Porto Alegre, o foco foi a mobilização contra a iminente invasão dos norte-americanos no Iraque Por   Paz. Esta foi a palavra...

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Na terceira edição realizada em Porto Alegre, o foco foi a mobilização contra a iminente invasão dos norte-americanos no Iraque

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Paz. Esta foi a palavra que dominou as discussões em Porto Alegre no ano de 2003. Naquela ocasião os EUA já arquitetavam a invasão do Iraque, que viria a se concretizar pouco menos de dois meses depois, no dia 20 de março, çom uma série de bombardeios contra a capital iraquiana, Bagdá.

A situação do Oriente Médio era:‘ pauta do ‘momento. Não apenas pelo drama iraquiano, mas também por conta do conflito entre palestinos e israelenses. E o Fórum protagonizou um momento simbólico em relação a esta questão. Diante de 20 mil pessoas que aguardavam a palestra do lingüista Noam Chomsky, foi lida a Carta da Paz, que pedia, entre outras coisas, a ação imediata da ONU e da comunidade internacional para a criação de um Estado palestino independente. O documento foi assinado por três palestrantes palestinos e três israelenses, tendo sido organizado pelos Amigos da Paz Agora (membros da comunidade judaica) e pelo Instituto Jerusalém (membros da comunidade palestina).

Uma das estrelas daquele evento foi o paquistanês Tariq Ali. Filho de comunistas, liderou uma série de manifestações contrárias à ditadura do Paquistão, quando ainda estudava na universidade. Hoje, ele é o principal editor da New Left Review, uma das publicações de esquerda mais importantes do século XX. Um dia depois de sua conferência “Contra a militarização e a guerra”, Ali falou à Fórum a respeito do mundo
árabe e, profeticamente, esclareceu as reais intenções da invasão do Ira- que pretendida por George W Bush àquela época.

O povo não merece a guerra Saddam não é exatamente um ditador popular, mas tendo o líder que tiver; nenhum país quer ser bombardeado pelos EUA. Imagine-se que, no Brasil, quando havia a ditadura — que era terrível, muito pior que a do Saddam e apoiada pelos EUA — outro país decidisse bombardear e ocupar o país, destruindo as cidades. Mesmo os brasileiros contrários ao ditador não gostariam de ver o Brasil destruído. E o mesmo no Iraque: o povo não quer ver essa guerra. Já sofreu bastante. As sanções impostas pelo Ocidente levaram à morte meio milhão de crianças.

Fim das ditaduras Na minha opinião, a melhor maneira de acabar com as ditaduras é fortalecer o povo. Quando os EUA gostam de um ditador, podem deixá-lo no poder por trinta anos, corno [Haji Mohamihad] Suharro, na Indonésia, que matou mais de 1 milhão de pessoas dentro do próprio país. E os americanos mantiveram o apoio até que o próprio povo o tirou do poder. Quando [Augusto] Pinochet tomou o poder no Chile, alguém pedia aos cubanos para intervir lá? Não, porque não nos comportamos desse jeito. A única forma de remover um ditador é pelo próprio povo.

Futuro do Golfo É uma grande tragédia o que está para acontecer, mas os EUA não vêem dessa forma, e sim como uma oportunidade de re – mapear o mundo. Depois do ataque ao Iraque, irão tentar mudar o regime, do Irã e, depois, de outros países do mundo árabe. Mas a guerra não é exclusivamente por causa do petróleo. É também geopolítica, para demonstrar o poder militar norte-americano, para dizer que os EUA podem mudar regimes onde quiserem e fazer o mundo aceitar que isso é um direito deles. “Faremos o que quisermos e vocês não têm poder algum sobre isso.” Temos de ver esse processo de ocupação do Iraque por dois lados, o petróleo e a geopolítica.

Os EUA e seus aliados Há alguns países que têm políticas econômicas neoliberais, como os Estados do Golfo Pérsico e o Egito. Mas há países que não aceitam esse modelo, como a Síria, o Iraque e, em certa medida, o Irã. Resistem e mantêm o controle de seu próprio petróleo, não permitindo que companhias ocidentais o tomem. Preservam algum grau de nacionalismo contra os Estados Unidos. Esse é o grande motivo que os leva a quere – tem destruir seus regimes.

Os Estados Unidos estão felizes com alguns governos árabes porque os controlam há muito tempo. A Arábia Saudita, por exemplo, tem regime muito pior que o iraquiano. Não é permitido às mulheres dirigirem carros, viajarem sozinhas. Elas podem se locomover dentro da cidade, mas para sair precisam de autorização do pai, do marido ou até do filho. Eles vivem num mundo louco. Mas acho que as coisas vão mudar na Arábia Saudita, o regime está ficando bastante instável. Há anos que digo isso, é preciso haver uma onda de revoluções democráticas no mundo árabe para substituir a sociedade corrupta por governos mais amplos. Mas os EUA não que tem governos democráticos nessa rte do mundo. Por quê? E se um governo democrático resolver que quer controlar seu próprio petróleo? Vão intervir de novo? É o dilema. Os interesses econômicos dos EUA se indispõem com a democracia.

Democracia no Oriente A democracia teria de ser adaptacla, mas ela é possível sim. Acredito que há um instinto em todas as pessoas de participar de alguma formada vida de suas comunida4es, de seus países. Temos de encontrar a mèjhor orma de fazer isso. Não precisa ser o modelo britânico ou o americano, mas um modelo próprio para expressar melhor a democra-’ éia, especialmente para aqueles que viveiri oü viveram sob ditadura militar, como Paquistão, Brasil e a maior parte da América Latina. Temos de perceber que a democracia é muito importante; quando não se tem, a sociedade realmente sofre. O método para chegar a ela não é universal, mas a democracia em si é universal e temos de lutar por ela. E possível ter democracia em níveis muito mais elevados que no Ocidente se algum governo estiver preparado para tomar a iniciativa.

Sociedade civil Os movimentos sociais são muito fracos no Oriente Médio porque o Estado não permite que se desenvolvam. Há apenas algumas ONGs, mas há problemas com essas organizações nessa parte do mundo, porque substituem a política fazendo pequenas coisas. Os intelectuais, tanto liberais quanto esquerdistas, são incorpordos e trabalham para essas pequenas organizações. Os salários são pagos por fundos de ONGs de países ocidentais. Mesmo no Líbano, que é um dos países mais democráticos da região, isso ocorre, é fenômeno muito comum. Eu conheço bem a situação do Paquistâo. Muita gente que era engajada politicamente hoje faz parte de ONGs. E uma das exigências para isso é que você não tome posições políticas.

Ameaça real Há um longo caminho para que o império norte-americano cia. Pode levar um século todo, por ser muito poderoso e militarmente incomparável. Por isso, é extremamente importante construir relações com os norte-americanos que estão resistindo a essa guerra. Sem apoio do povo norte-americano estamos perdidos. E isso deve ser construído e desenvolvido, até porque o que acontece em outras partes do mundo também afeta os EUA. E uma Juta de longo prazo, em que não haverá imediatamente ‘nenhuma vitória militar. E até possível ter vitórias políticas contra os EUA, mas, militarmente, a única vez em que foram derrotados foi em 1975 pelos vietnamitas. E veja como acabaram punidos depois de derrotá-los, já que foram mantidas sanções econômicas, sem falar na recusa em lhes dar as reparações merecidas. E os norte-americanos usaram armas químicas. E por isso que argumento que a maior ameaça para a estabilidade do mu’ndo não vem de Saddam Hussein QU de qualquer ditador do Oriente Médio, mas dos EUA.

Entrevista concedida a Anselmo Massad e Nicolau Soares (Fórum n.° 9)



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