O pai do FSM

Oded Grajew relembra como foram os primeiros passos para a criação do Fórum Social Mundial

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Oded Grajew relembra como foram os primeiros passos para a criação do Fórum Social Mundial

Por Glauco Faria

Quando teve a idéia de criar um evento que pudesse se contrapor ao Fórum Econômico de Davos, Oded Grajew. Sabia que o caminho não seria fácil. Afinal, o ano 2000 era um momento em que as forças progressistas e os movimentos sociais estavam em baixa. Na América Latina e em todo o mundo, o ideário neoliberal dominava o cenário político e chegou-se até a preconizar o “fim da história”.

Mas Grajew conseguiu parceiros que souberam potencializar a insatisfação que já havia dado sinais nas manifestações de Seattle, em 1999. Assim, nasceu o Fórum Social Mundial, em 2001, dando início a um processo de discussão e articulação de atores do campo progressista que derrubou o chamado “pensamento único’. Na entrevista a seguir, Grajew conta como foram os primeiros momentos de um processo que viria a modificar as estratégias de luta da esquerda mundial.

A idéia Já havia tentado anteriormente falar com as pessoas de Davos para introduzir as questões sociais, ambientais e de responsabilidade social no Fórum Econômico. Mas não tive retorno, eles respondiam que os problemas só poderiam ser resolvidos pela via do mercado. Estava muito angustiado com essa questão e pensei o que era possível fazer para mostrar que existia outra maneira de olhar a globalização.

Era fevereiro de 2000 e estava com a minha mulher em Paris, quando vi uma notícia na televisão que falava maravilhas de Davos. Foi então que pensei: “Bom, vamos tentar criar um contraponto. Já que há o Fórum Econômico Mundial, podemos criar o Fórum Social Mundial com aqueles ‘que acreditam que outro mundo é possível e que ainda há escolhas que podem ser feitas”. Pensando nisso, falei com a minha mulher e perguntei o que ela achava. Ela respondeu que fazia sentido.

O Chico Whitaker também estava em Paris naquela mesma época, já que tem família lá. Liguei e perguntei sua impressão, e ele gostou. Já conhecia o Bernard Cassen, do Le Monde Diplomatique e falei para o Chico “vamos testar ‘com outras pessoas”. Encontramos com Bernard e expliquei a idéia, um Fórum Social Mundial, na mesma época de Davos, que fosse propositiva, já que sabíamos que tínhamos outros conteúdos para mostrar que não só o protesto.

Porto Alegre Ele gostou muito da idéia e a certa altura perguntou onde seria. Surgiu lembrança de Porto Alegre, um mo delo de cidade que tinha outros tipos de políticas públicas, como o orça mento participativo, muito conhecido até em outros países. Cheguei no Brasil, falei com o Olívio [Dutra então governador do Rio Grande & Sul] e Raul [Pont, então prefeito d Porto Alegre] e expus a idéia a eles, ressaltando que era uma iniciativa da sociedade civil e não de governo, mas que pensávamos fazer em Porte Alegre. Lembrei-os que, quando eles viajam pelo mundo, muitas vezes tinham que explicar onde fica Porto Alegre, já que alguns acham que é no Uruguai, no Paraguai, e lhes assegurei que após o Fórum não precisariam mais explicar onde fica a cidade. Eles falaram que havia condições de fazer o evento.

Liguei para o Sergio Haddad [Abong], Cândido Grzybowski [Ibase], Chico Whitaker [Comissão Brasileira Justiça e Pazi, Antônio Martins e Carlos Tiburcio [ambos da Attac] e falei que queria trocar também idéias com a Justiça Global, com a Maria Luisa Mendoça, que eu conheci em São Francisco. Expliquei a eles a idéia, disse que já tinha falado com o governador e fomos até Porto Alegre ver as condições hoteleiras.

Dinheiro e infra- estrutura Precisávamos de dinheiro para operar e fomos falar com a fundação Ford, que hoje não tem nada a ver com a companhia automotiva, é ia- dependente, tanto que apoiaram vários movimentos sociais, anistiados… Bom, arrumamos 200 mil dólares. Instalamos o escritório, e começamos a discussão sobre como seria o formato do primeiro Fórum em 2001.

Quando fomos para Porto Alegre, vimos vários lugares e achamos a PUC. Concluímos que as condições e a disponibilidade da PUC eram fatores muito interessantes para realizarmos o Fórum. Mas, até pouco antes de começar, não sabíamos como seria. Tudo foi muito em cima da hora, porque tem a inscrição das oficinas, das palestras, conferências, debates e na reta final começou a chover gente se inscrevendo.

O Fórum O Fórum abriu com uma entrevista coletiva. O Fernando Henrique tinha dado uma declaração falando que era um absurdo o governo gaúcho apoiar. com dinheiro público gente que era “retrógrada” e que queria voltar no tempo, quebrar as máquinas. Só para rebater do ponto de vista ideológico disse: “olha, eu, se fosse um empresário, podia achar que o governo fez um dos investimentos mais rentáveis que o mundo já viu”: Lembro que calculei quanto se investiu em Porto Alegre, uma cidade vazia nessa época do ano, e fiz a conta de quanto isso ia resultar em emprego, serviços de hotéis, carros, táxis, restaurantes… O governo ia receber cinco vezes o que investiu- só em impostos. Pessoas viraram fãs do Fórum Social Mundial, porque era um grande benefício para a sociedade.

Debate com Soros O debate que fizemos com Davos foi interessante. Debati, por exemplo, com George Soros, fiz algumas perguntas para ele sobre economia, mundialização, PIB, circulação de moedas pelo mundo e ela foi respondendo. Mas quando comecei a fazer perguntas sobre a área social, sobre mortalidade infantil etc., ele não sabia nada e me disse: “preciso

O processo do Fórum O final foi muito marcante. Precisávamos definir o que aconteceria depois para onde o Fórum iria. Era pressão de tudo quanto era lado e a gente tinha que tomar uma decisão sobre o que fazer, se iríamos para outro lugar, se era ou não era mundial… A noite, já esgotados, fomos a um restaurante que tinha lá, uma pequena churrascaria, e discutimos até às três horas da manhã. Ali decidimos que a segunda edição continuaria em Porto Alegre e depois repensaríamos a mundialização.

Realização pessoal Quando a primeira edição terminou e o avião levantou vôo de Porto Alegre voltando a São Paulo, falei para a minha mulher: “tenho que agradecer a Deus a oportunidade que me deu de ter tido essa idéia”. Uma das coisas que mis me sensibilizou foi um relato do Miguel Rosseto. Aquele era um momento de baixa no movimento social e ele me disse que um amigo dele, velho militante político, que andava muito deprimido porque achava que tudo o que tinha feito na vida não havia dado em nada, confessou: “Depois do Fórum Mundial sei que posso morrer com mais tranqüilidade”. Isso me marcou muito.

Conquistas O Fórum quebrou a unanimidade que havia quanto ao modelo neoliberal. Isso não existe mais hoje e não foi obra do Fórum sozinho, mas ele teve um papel muito importante nisso. Também foram articuladas diversas parcerias internacionais, tos e vários atores sociais se juntararr em lutas comuns. E também houve demonstração de um noVo exercíci( político, considerando sempre qu nenhuma proposta é mais importante que a outra, nenhuma causa é mai importante que a outra. E um aprendizado e um exercício de participação e democracia.

Futuro do FSM Há riscos e oportunidades. Riscos se nos prendermos aos velhos modelos de processo político; hierarquizados, piramidais, de comando; e a oportunidade que temos de ampliar esse novo modelo processo político, de autogestão de participação, da diversidade. No fundo, o Fórum Social Mundial que mudar as regras cio jogo, não é? Por onde passa a mudança das regras do jogo? Em última instância, pelos parlamentos, por leis, legislações então é preciso haver uma relação estratégica entre esses atores.



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