Que o homem renasça em si mesmo

Há dez anos falecia a escritora Margueritte Duras que vislumbrou na morte do velho mundo o surgimento de um novo homem. Por Por Maurício Ayer   -Marguerite!...

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Há dez anos falecia a escritora Margueritte Duras que vislumbrou na morte do velho mundo o surgimento de um novo homem.

Por Por Maurício Ayer

 

-Marguerite! Marguerite! – estão numa sala de aula, esperam, mas Marguerite Duras não aparece. Alguém sai para chamá-la, volta dizendo que ela está no corredor, mas preferiu não entrar. A cena, extraída de um filme de Godard (Salve quem puder (a vida), de 1979), diz muito de Marguerite. Ela nunca está onde querem que esteja. Figurando entre os escritores mais citados da literatura francesa do século XX, nunca conseguiram enquadrá-la em nenhum movimento literário; foi um ícone da esquerda libertária – associada ora a feministas, ora a comunistas –, mas ela mesma não era militante de nenhuma causa. É como se, situando-se sempre nas margens, se sentisse incomodada quando a margem também se institucionalizava. E assim viveu em linhas de fuga, saindo de cena, mesmo (e até principalmente) quando a cena era montada para ela.

Uma barragem contra o Pacífico
Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, próximo a Saigon (atual Ho Chi Minh), na Indochina francesa (atual Vietnã), filha de professores franceses. Seu pai morre quando ela tem quatro anos, deixando a viúva, dois meninos e a caçula Marguerite. A família passa por grandes dificuldades e a mãe tem que se desdobrar. Dá aulas de francês e em dez anos economiza o suficiente para adquirir uma concessão de terras. Não sabia que tinha comprado a tragédia de sua vida.
A história é recriada no terceiro romance de Duras, Uma barragem contra o Pacífico (Arx, 2003), de 1950. A família semeia arrozais. Mas na estação das cheias o mar da China avança e o sal queima toda a plantação. A mãe ignorava que era preciso pagar bem mais que o preço da concessão, para ter uma terra cultivável tinha que bancar também a corrupção da burocracia colonial francesa. Ela enlouquece e resolve construir barragens para conter o mar. Evidentemente, elas ruem à primeira maré mais forte.
Marguerite guardará para o resto de sua vida as marcas dessa experiência, que ela chama de “injustiça fundamental”. Quantas famílias já tinham sido arruinadas naquelas terras? Mais que isso, a colônia é retratada como um ciclo de morte e miséria. Assim se forma o espírito subversivo e selvagem de Marguerite, contrário a toda institucionalização, e nasce sua certeza de que o mundo está doente, moribundo. De situações extremas de injustiça e morte, de suas paixões e depressões, ela descobre a terrível necessidade de escrever. Aos 18 anos vai a Paris estudar Matemática, como queria sua mãe, mas já sabia que seria escritora. Estamos no início dos anos 1930, às vésperas de um tempo que a marcará tão profundamente quanto sua infância indochinesa: a Segunda Guerra Mundial.

A dor
Em 1985, a revista feminista Sorcières (“bruxas”) pede a Marguerite um escrito inédito. Vasculha os armários e encontra um velho caderno que sequer lembrava de ter escrito. Lê e pasma. Era um relato de 40 anos antes, um dos mais impressionantes escritos sobre a Guerra, que ela publica com o título A dor (Nova Fronteira, 1986).
Na Paris ocupada pelos nazistas, Marguerite e seu marido, Robert Antelme, participavam da Resistência, no grupo de François Mitterand. Mitterand e Robert são emboscados pela SS, o primeiro escapa, mas Robert é preso e extraditado. O relato devastador de Marguerite narra a agonia da espera. O avanço das tropas aliadas sobre a Alemanha revela ao mundo a atrocidade dos campos de concentração. Seu marido, esquelético e semimorto, seria encontrado por Mitterand, numa expedição oficial de reconhecimento ao campo de Dachau.
Passada a guerra, Marguerite, Robert (agora seu ex-marido) e seu novo amante, Dyonis Mascolo filiam-se ao Partido Comunista Francês. Alguns anos depois ela mesma provocaria sua expulsão, não por descrer da revolução comunista e do marxismo, mas por não aceitar o moralismo e o cerceamento de sua vida íntima e de sua liberdade intelectual. Sobre isso, ela diz: “Fui stalinista, do PCF. Mas desde o início fomos tratados como subversivos. Na ata de expulsão escreveram ‘ela vive com dois homens’”.

Hiroxima meu amor
Nos anos 1950, Marguerite consolida sua carreira de escritora com vários romances, que também são adaptados em filmes. Sua entrada definitiva no mundo do cinema será em 1959, a convite de Alain Resnais, quando escreve o roteiro de Hiroxima meu amor, um marco da dramaturgia cinematográfica. Marguerite consegue transitar entre a intimidade da mulher, mesclando erotismo e desvario, e a tragédia de Hiroxima. Como se as guerras íntimas (da loucura e do amor) e as guerras mundiais pudessem ensinar algo umas sobre as outras, bem antes que os anos 60 viessem cantar a cultura da paz, do amor e da liberdade contra a guerra.
Marguerite vive os eventos de Maio de 68 como uma culminação. Os confrontos de estudantes, operários e intelectuais com a polícia francesa são para ela o próprio espírito do “comunismo”. “O amor corria pelas ruas”, sem qualquer doutrinação. Era a prova de que o mundo estava morrendo e era preciso destruí-lo de vez, mesmo sem saber aonde rumar. Ela migra para o cinema, torna-se diretora. Seu maior clássico, India Song (1975), sobrepõe a história de um amor louco e a história do horror numa Índia de entre as guerras, onde “a lepra e a miséria se mesclam na umidade pestilenta da monção de verão”. Segundo ela mesma, é também “um filme sobre o fim do mundo”, mas não de qualquer mundo: é o fim da Europa, da cultura “ocidental” dominadora.
O amante e A chuva de verão
Se o “sistema” absorvera Marguerite como ícone libertária – e ela tinha o seu appeal midiático –, em 1984 ela se torna uma celebridade mundial. O amante (Nova Fronteira) vende milhões de exemplares em todo o mundo. Jean-Jacques Annaud o adapta para o cinema, outro megassucesso. Contra as expectativas de muitos que cultivam a etiqueta de “marginal”, Marguerite não se incomoda com o sucesso. Ao contrário, diverte-se, mas condena o filme, que reduz seu livro apenas ao que ele tem de best-seller: a história da menina francesa que, na Indochina dos anos 20, seduz um chinês dez anos mais velho e se torna a sua amante. Um último ingrediente: o livro é explicitamente autobiográfico.
Marguerite não admite essa apropriação redutora dos centros sobre as margens. Já no filme Diálogo de Roma (1982), ela apontava o vazio e a arrogância dos impérios (políticos, bélicos, culturais…): “Não creio que Roma pensasse. Ela enunciava seu poder. (…) Era em outras regiões que se pensava”. Dá para entender a atualidade de Marguerite: não estava construindo “um outro mundo possível”, mas anunciava a destruição deste mundo como “a única política possível”, e vislumbrava o surgimento de um novo mundo, um novo homem: “Falo de esvaziar o homem: que ele esqueça tudo. Para poder recomeçar. Que ele renasça em si mesmo”.
Seu último romance, A chuva de verão (Nova Fronteira, 1990), poderia ser uma parábola. O menino Ernesto, por um dom fantástico, consegue abarcar a totalidade do conhecimento. As pessoas o procuram e ele, que tudo sabe, profere: neste mundo nada “vale a pena”. E todos choram e cantam com ele. Já não vivem o fim como tragédia. Pois o que renasce com o anúncio da morte do mundo é a grande comunidade humana.
Há dez anos, em março de 1996, Marguerite Duras morria de câncer, em Paris. F

Serviço
De 11 a 17 de dezembro próximo, o clássico de Cannes India Song ficará em cartaz na Sala Maria Antônia de cinema, que inaugura um novo circuito de cinema digital, o CPCine. O evento, em homenagem aos 10 anos da morte de Marguerite Duras, inclui também a exibição do documentário de montagem Marguerite Duras tal qual ela mesma, de Dominique Auvray (colaboradora que fez a montagem de vários filmes de Marguerite).



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