Representantes de grupo terrorista

Passeando por Olinda, numa manhã, Luizinho, Mário, Pretinho e eu vimos duas loiras grandonas, bonitonas, mas ficou por isso mesmo. Havíamos marcado um na hora do almoço no Bar Savoy, avenida Guararapes, centro de...

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Passeando por Olinda, numa manhã, Luizinho, Mário, Pretinho e eu vimos duas loiras grandonas, bonitonas, mas ficou por isso mesmo. Havíamos marcado um na hora do almoço no Bar Savoy, avenida Guararapes, centro de Recife, e por volta de 13h estávamos lá, bebendo cerveja e comendo agulha frita.

Por Mouzar Benedito

 

Passeando por Olinda, numa manhã, Luizinho, Mário, Pretinho e eu vimos duas loiras grandonas, bonitonas, mas ficou por isso mesmo. Havíamos marcado um na hora do almoço no Bar Savoy, avenida Guararapes, centro de Recife, e por volta de 13h estávamos lá, bebendo cerveja e comendo agulha frita. Agulha é um peixinho muito gostoso como tira-gosto. Com a gente, estavam algumas francesas que conhecemos em Recife e que namorávamos coletivamente.
Depois de umas dez cervejas, apareceram lá as duas loiras grandonas que vimos em Olinda. Chamamos para nossa mesa. Uma era suíça e a outra holandesa. Não falavam nada de português, nem de francês. Mas a Sophie falava alemão e elas também, então deu para conversar com as gringas, tendo a Sophie como intérprete. Começamos com aquelas brincadeiras bestas de brasileiros, falando bobagens e coisas sem sentido para elas. A Sophie, que como francesa não entendia também nossas gozações, rebolava para traduzir tudo. Luizinho começou a sacanear falando todos os slogans propagandísticos do regime militar: “ninguém segura este país”, “o Brasil é feito por nós” e outras besteiras. A Sophie pensava, não via nenhum sentido naquilo, mas fazia a versão para o alemão e as duas faziam cara de completo desentendimento, mas ele continuava.
Mais algumas cervejas, a suíça e a holandesa mostravam muito interesse, querendo saber mais de nós. Éramos três barbudos e um negro com todo o tempo para viajar preguiçosamente, desde que não gastássemos muito. Os barbudos: eu havia acabado de ser demitido do Sesc, o Luizinho, recém-curado de uma hepatite, não estava trabalhando, e o Mário era professor no início das férias de fim de ano. O negro era o Hélio, mais conhecido como Pretinho, não tinha emprego fixo, vivia de bicos. Um grupo esquisito para os padrões nordestinos, especialmente os três barbudos, com barbas fartas mesmo, tipo praticamente inexistente na região.
Quando soube onde as duas loironas estavam hospedadas (embora não fossem dormir lá essa noite, pois embarcaram na nossa festa e iriam passar a noite toda com a gente), decidi fazer mais uma brincadeira. O hotel em que estavam era perto da Ponte da Torre, que segundo os jornais seria implodida na manhã de domingo, dali a três dias. Como elas não sabiam nada de português, não haviam lido os jornais e com certeza não sabiam da implosão. Nessa época, o grupo terrorista Baader-Meinhoff explodia bombas por toda a Alemanha e era temido naquele país. Aproveitando nossa condição de barbudos e um negro, todos com caras anárquicas (e cá entre nós, mentalidade também), eu disse a elas que éramos de um grupo terrorista brasileiro que tinha ligações com o Baader-Meinhoff. E segredei o motivo por que estávamos em Recife:
– Domingo de manhã vamos derrubar aquela ponte em frente ao hotel onde vocês estão.
Fizeram cara de espanto e incredulidade. Reafirmei, com o Luizinho fingindo que não poderíamos contar pra ninguém e pedindo segredo total a elas.
Viajamos no sábado para João Pessoa e no domingo à tarde soubemos que a implosão, feita às 9h da manhã, havia fracassado. A ponte, construída há séculos, resistiu. Ficamos rindo, imaginando que as duas gringas deviam ter acordado com a explosão, saído à janela e visto a ponte fumegando, cheia de polícia em volta, e teriam pensado que terroristas subdesenvolvidos não prestavam nem pra explodir uma ponte.



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