Toques Musicais

A visão de Julinho Bittencourt sobre música Por Por Julinho Bittencourt   ERA O LANÇAMENTO DO DISCO JOGOS DE ARMAR, DE TOM ZÉ. Lá estava o ROGÉRIO...

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A visão de Julinho Bittencourt sobre música

Por Por Julinho Bittencourt

 

ERA O LANÇAMENTO DO DISCO JOGOS DE ARMAR, DE TOM ZÉ. Lá estava o ROGÉRIO DUPRAT conversando discreto com algumas pessoas. Era pequenino e isso contrastava frontalmente com a sua sabedoria e principalmente com a sua obra. Aquele homem ali na frente, de carne e osso, era dono de um resultado artístico infinito. Desses que a gente não toca, mal enxerga e, à medida que ouve com o passar dos anos, entende cada vez menos como tantos sons, tanta criatividade, podem caber num ser humano só.
Alguns anos depois desse dia, nos chega a notícia da morte de Duprat, aos 74 anos, em decorrência de mal de Alzheimer e câncer na bexiga. Mais uma vez a incompreensão diante da natureza humana. Uma pessoa dessas não morre. Ela é. Está presente em todo o nosso entorno, basicamente em tudo o que aprendemos nos últimos 40 anos e passa ao largo dessas questões comezinhas como a vida e suas doenças. Suas cordas e metais nos ensinaram a viver com mais intensidade. Seus sons foram o ponto de partida do que concebemos um dia como futuro.
Rogério Duprat foi um dos fundadores do Festival Música Nova ao lado de Damiano Cozzella, Willy Corrêa de Oliveira, Gilberto Mendes e Régis Duprat. Foi o autor da orquestração de “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, no Festival da Record, de 1967. Na ocasião, o maestro ganhou o prêmio de melhor arranjo. As cordas tocavam as síncopes do belo samba de roda de um jeito muito original. A forma multicolorida com que Duprat usou os timbres é moderna e imitada até hoje. Usou texturas e montagens típicas dos sons eruditos para vestir com ritmo os sons populares.
Só estes dois feitos, o Música Nova e o “Domingo no Parque”, já justificariam toda uma vida. O maestro, no entanto, foi muito mais longe. Fez os arranjos dos quatro principais discos do grupo paulistano Os Mutantes. Içou uma original e bem humorada banda de rock para um outro patamar musical. Até hoje, o trio formado pelos irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista e Rita Lee deve, e muito, ao maestro seu nome nas enciclopédias de todo o mundo. Além disso, é o responsável por basicamente todos os sons e orquestrações inusitadas do disco manifesto Tropicália ou Panis et Circences, com os baianos Gil, Caetano, Gal e Tom Zé, além dos Mutantes, Nara Leão e os letristas Torquato Neto e Capinam. Na capa, o irreverente maestro aparece com um penico nas mãos, apoiado num prato, conceito chave da antropofagia que propunham os tropicalistas. O maestro e seus parceiros transformavam o resultado dos intestinos da cultura de massa em um banquete.
Todos os artistas citados acima, além do público que ouviu de alguma forma a obra de Duprat, devem quase tudo o que se concebe como estética inovadora a ele. O grande homem pequenino se foi em pleno outubro, primavera e semente de outras transformações. Artista de dimensões seculares, foi o arranjador do seu tempo. Enquanto Jobim e João Gilberto buscavam em maestros americanos, como Claus Ogerman, a universalização de suas obras, Duprat fez o avesso. Devolveu o Brasil para garotos sedentos pelos Beatles e Rolling Stones. Que o maestro descanse em paz, enquanto a sua obra continua a nos tirar, para o todo e sempre, do marasmo e do repouso eterno.
ESPÍRITO SANTO, acaba de chegar às lojas repleto de surpresas. Muito mais do que captar a partir das estrelas suas múltiplas ondas, em que o baixista, violonista, pianista, baterista (e muitos outros instrumentos que caírem em suas mãos) costuma trafegar em seus espaços repletos de talentos, o disco traz uma outra faceta: a do compositor. E se engana quem imagina que são temas feitos por conta do virtuosismo, de encomenda para encher a paciência do público com notas demais e provar como se pode tocar bem. Nada disso. São composições belíssimas, construídas em estado de graça, com muito lirismo, e executadas por um sem fim de amigos repletos também de talento e expressão.
O objetivo central da amplidão é alcançado com folga em sua imagem que capta lugares bucólicos como as praias de Santos de sua infância e adolescência. Vai pela São Paulo das noites que o formataram como grande artista que é, gigante nos sons e na estatura do corpo e coração. Retratos, enfim, de um Brasil repleto de ritmos e quadraturas ricas, sempre aberto a todos os sons do mundo. E como o próprio desfia em seu rosário, cabe aí paixão, baião, xote, catarse, roque de garagem, alegria, tristeza e por aí afora.
O disco segue com várias formações e possibilidades, brincando aqui e ali com os talentos quase sem limites dos participantes. É quase um sobrevôo mesmo, em que se pode ouvir aleatoriamente que não faz diferença. Tudo é lindo.
O TERCEIRO DISCO DA CANTORA MÁRCIA SALOMON, GEMINIANA, traz oculto em sua beleza e simplicidade várias histórias de parceiros e pessoas apaixonadas por seu ofício de sons e palavras. A principal delas começa no selo pelo qual grava, o Dabliú, de seu amigo José Carlos Costa Netto. Na outra ponta, a dedicatória do disco, para Roberto Menescal, amigo da cantora e produtor do seu disco de 1995, Mundos e Fundos. No centro de tudo, a bela e intensa voz da autora, que gravou também De Lalá para Cá, de 1997, em homenagem a Lamartine Babo.
Márcia busca seu canto onde a maioria das outras cantoras e intérpretes parecem ter esquecido de chegar. Tudo nela é suavidade e relaxamento. A tentação de comparar seu jeito de cantar com Nara Leão se desvanece quando tomamos mais contato com sua voz e interpretação. Tem um jeito único, que alia intensidade com leveza, força e firmeza com um bonito timbre, e algo inexplicável, que parece distração, descompromisso, mas na verdade é uma profunda naturalidade no cantar.
As canções que interpreta são, segundo conta, a trilha sonora de sua vida. Talvez seja um certo exagero para uma vida tão cheia de canções. Mas tudo faz sentido para uma cantora que, apesar do talento, tem apenas três discos em mais de 10 anos de carreira. Não há problema. Márcia Salomon está de volta com Geminiana. Um disco que faz a sua pequena discografia valer mais ainda a pena. E que nos deixa torcendo para que venham outros mais e melhores ainda.



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