Zé do Caixão Ressuscitado

Em entrevista exclusiva, o diretor José Mojica Marins fala sobre a volta de seu personagem mais famoso em filme inédito, previsto para estrear no segundo semestre de 2007, e revela fatos desconhecidos de sua...

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Em entrevista exclusiva, o diretor José Mojica Marins fala sobre a volta de seu personagem mais famoso em filme inédito, previsto para estrear no segundo semestre de 2007, e revela fatos desconhecidos de sua trajetória

Por Daniela Senador

 

Aos 70 anos, José Mojica Marins, um dos mais fecundos cineastas brasileiros, enfim comemora o retorno às telas do personagem que o consagrou: Zé do Caixão. Pela primeira vez em meio século de carreira, o diretor, com a parceria das produtoras Olhos de Cão e Gullane Filmes, obteve verba governamental para filmar. Isso possibilitou a materialização de um antigo projeto, Encarnação do Demônio, que encerra a trilogia iniciada com os polêmicos À meia-noite levarei sua alma (1964) e Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967). Revalorizado no Brasil no início dos anos 1990, após se tornar Coffin Joe nos Estados Unidos, desta vez Zé do Caixão pretende buscar a mulher perfeita assombrando a cidade de São Paulo. O lançamento está previsto para o segundo semestre de 2007 e o filme já está em fase de montagem.
Despido de cartola e capa preta, em uma sala modesta de sua associação (a Associação Beneficente e Cultural Zé do Caixão) no bairro de Santa Cecília, Mojica falou à Fórum da expectativa em torno do novo filme. Entre um cigarro e outro, confessou os motivos que o levaram a criar um anticristo face à moralidade da Igreja Católica. E também por que não conseguiu concluir os estudos, razão pela qual foi muitas vezes estigmatizado pela crítica e por colegas de trabalho. Relembrou também a implacável perseguição da censura e as prisões durante a ditadura.

Fórum – Com meio século de carreira, esta é a primeira vez que você consegue verba governamental para filmar. Por que as tentativas anteriores foram frustradas?
José Mojica Marins – Se o Lula não me desse 1 milhão de reais, ninguém ia se interessar em financiar o filme. Desde o início da carreira, primeiro colocava o meu dinheiro nas produções, depois corria atrás de verba governamental. Mas, se havia 20 selecionados, eu era o vigésimo primeiro. Sempre ficava por um triz.

Fórum – Qual o motivo dessa recusa se a maioria de seus filmes obteve êxito de bilheteria?
Mojica – São perguntas que faço até hoje e não encontro resposta satisfatória. Não sei se os governantes eram sádicos e gostavam de me ver sofrer, ou masoquistas, porque perdiam dinheiro em muitas produções que eram fracassos de público.

Fórum – Embora só esteja sendo realizado neste ano, o projeto do filme Encarnação do Demônio comemora quatro décadas. Quando foi escrito o primeiro roteiro e qual era o argumento?
Mojica – O primeiro roteiro foi escrito em 1966, quando terminei a fita Esta noite encarnarei no teu cadáver. No início, o corcunda, desesperado, vasculha o lago e acha o corpo de Zé do Caixão. Numa padiola, arrasta o mestre pela floresta até encontrar uma casa de gente católica. Lá moravam duas irmãs: a mais velha é autoritária e a mais nova, tímida e sensível. Estão todos reunidos em frente à lareira, quando o velho lê uns dizeres da Bíblia. Zé do Caixão pega um espeto de churrasco e enfia no coração do velho. A filha mais nova se desespera, enquanto a mais velha diz: “Você fez o que tinha de fazer. É o homem da minha vida”. Zé pede que ela faça a cova do pai e, em seguida, sua própria cova. Mete uma bala nela e, então, acontece o ato sexual. Depois, Zé do Caixão vem experimentar a grande metrópole.

Fórum – O argumento atual será o mesmo?
Mojica – Não. Fizemos algumas mudanças porque agora estou com 70 anos. O filme começará com Zé do Caixão preso. Depois de 30 anos ele sai da penitenciária, vai para a avenida São João, festeja com o corcunda, toma seu caneco de vinho numa cantina e segue para seu esconderijo subterrâneo numa favela. Além disso, no primeiro roteiro era uma casa de católicos. Agora entram crentes, porque hoje todo mundo é crente.

Fórum – O fato de você dispor de mais dinheiro agora vai tornar Encarnação do Demônio diferente dos outros dois filmes da trilogia?
Mojica – Não, ao contrário. Se fosse em 1966, o filme não passaria de R$ 200 mil. No entanto, agora temos de gastar mais do que temos para conseguir fazer essa fita parecida com as outras. Estamos refazendo alguns cenários e buscando sósias de personagens de À meia-noite e Esta noite.

Fórum – As filmagens estão sendo feitas apenas em estúdio, como nos dois filmes anteriores, ou dessa vez haverá também locações?
Mojica – Escolhemos filmar em várias locações. Há tomadas em bares da avenida São João, na Igreja da Graça, no bairro do Ipiranga, na Estação da Luz e algumas até em favelas. Mas muita coisa não dá para fazer em favela porque o povão vai ficar revoltado. Filmar em estúdio é fácil demais. Há cenas que serão filmadas em esgotos, cheios de ratos, baratas, vou ter de mergulhar nisso tudo. No passado, isso seria normal, mas agora, com 70 anos, é muito mais difícil.

Fórum – Qual era a principal dificuldade para a realização do filme nos anos 1960?
Mojica – Os outros diretores conseguiam produtores que davam liberdade para eles filmarem o que quisessem, eu nunca consegui. Aceitava qualquer contrato para sobreviver, porque só sabia fazer cinema. Além disso, tinha um compromisso moral com o produtor Augusto de Cervantes de só fazer Encarnação com ele e honrei a palavra. Eu dava a desculpa para os outros que tinha contrato assinado, mas não havia contrato nenhum. Nós tínhamos uma amizade muito grande. Depois que ele chegou da Espanha, passou a ser meu guarda-costas, meu sócio e também meu patrão.

Fórum – Se os dois primeiros filmes com Zé do Caixão foram sucessos de bilheteria, por que Cervantes e os demais produtores não se interessaram pela continuação da trilogia?
Mojica – O Augusto não acreditou no sucesso de À meia-noite e, quando a fita estourou, ele correu atrás de mim para fazermos o Esta noite. No entanto, eu também nunca entendi o porquê do desinteresse por Encarnação. Cheguei a pensar, inclusive, que os outros produtores me contratavam quando eu estava desempregado por inveja, para eu fazer certo tipo de fita e acabar com a imagem de Zé do Caixão. Acho que, além da perseguição da censura e da Igreja, havia a dos próprios colegas de trabalho.

Fórum – E foi essa dependência dos produtores que o levou a realizar pornochanchadas e filmes de sexo explícito nos anos 1980?
Mojica – Estava sem emprego e surgiu a chance de trabalhar com o produtor Mário Lima, mas, ainda assim, mantive a palavra de filmar Encarnação somente com o Augusto. Acabei fazendo A quinta dimensão do sexo (1984). Diziam que eu não entendia nada de sexo explícito, só de bangue-bangue e policial. Quando o Mário conseguiu mais uns trocos, pediu uma nova fita de sexo, mas, diferente dos outros, me deu liberdade para filmar. Fiz publicidade no Notícias Populares solicitando um cachorro e mulheres bem feias para protagonistas. A minha idéia era acabar com a fita de sexo, deixando todo mundo enojado. Mas a quantidade de tarados que se excitaram com 24 horas de sexo explícito (1985) foi grande e a fita chegou a ser exibida até em cinemão como o Marabá [cinema da região central de São Paulo]. Com a morte do Augusto, Encarnação seria novamente adiado. Achei que jamais faria a fita.
Fórum – Valeu a pena esperar tanto tempo?
Mojica – Valeu, porque será inédito fazer a continuação de uma trilogia 40 anos depois.

Fórum – Você e o personagem se destacam com freqüência em jornais de cunho popular que apelam para o sensacionalismo. Essa prática prejudica a imagem de ambos perante os intelectuais?
Mojica – Ao contrário, faz com que muitos intelectuais saibam que uso a malícia e a esperteza, porque os jornais pequenos me levam para revistas e jornais de grande circulação. Se puder falar o que me interessa, não ligo para a natureza do jornal. Mas se for para falar besteiras de uma cultura que não tenho, prefiro pular fora. Neste caso, não me interessa nem o jornaleco nem o jornalzão. Fórum – Na sua visão, a censura implicava com seus filmes por causa da estética ou dos temas abordados?
Mojica – Por causa dos temas. Eu defendia o direito de pensar. Muitos foram atrevidos, como eu, mas a maioria dos diretores preferiu se esconder. Com isso, eu deixava os censores mais nervosos. Era uma época em que você tinha de se curvar e beijar os pés dos caras, senão, nada acontecia.

Fórum – A censura implicou bastante com a afronta de Zé do Caixão à Igreja. Como surgiu a idéia de criar um personagem que é contra o catolicismo?
Mojica – Quando era criança, um padre me chamou de débil mental por causa de uma fitinha que exibi no cinema do meu pai e me pediu para desistir da profissão. Hoje não sou católico praticante, mas na época era. Ia em todas as procissões de Sexta-Feira Santa. Sempre acreditei em Deus e na Virgem Maria. Mas, em 1963, quando rodava À meia-noite, cheguei atrasado numa dessas procissões, entrei na igreja, pedi perdão, mas o padre não me desculpou. Indignado com tudo isso, resolvi criar um ateu.

Fórum – As interdições constantes pela censura tornaram-se entraves para a obtenção de financiamento (estatal e particular) para suas produções?
Mojica – A censura era uma das desculpas alegadas pela Embrafilme e pelos produtores: “Não podemos jogar dinheiro numa fita sua porque ela será censurada e ficará na gaveta”. Eu até me submetia a abaixar a cabeça para não deixar meus filhos morrerem de fome, mas nem assim os produtores topavam.

Fórum – Quantas vezes você foi preso?
Mojica – Quatro, e todas foram injustas. A primeira foi no início dos anos 1950 quando fui filmar com a minha equipe em Mongaguá. Estava com dor de dente e usando guaiacol. A polícia me pegou achando que eu estava cheirando droga. Na cadeia, passei momentos de tortura violentos: puseram eletricidade no meu ânus, no pênis, na boca. Só fui liberto graças a uma reportagem do Última Hora-SP. O delegado lavou as mãos com medo da imprensa. A segunda vez foi em 1975, quando tinha meu estúdio na Ladeira Porto Geral. Deixei uns caras tomando conta e eles fizeram do lugar um antro de fumo e prostituição sem eu saber. Quando pus o pé no estúdio, fui levado para a cadeia. Fiquei 12 horas detido numa cela isolada. O delegado era companheiro de touradas do meu pai e me liberou. Mas tive de dedar os caras. A terceira vez também foi meu pai quem me salvou. O Dops precisava colocar gente junto com bandidos para uma menina identificar os culpados de um roubo. Acabaram me pondo lá para fazer número. E não é que a menina me acusou?

Fórum – A quarta prisão foi por causa do conteúdo do filme O despertar da besta/Ritual dos Sádicos?
Mojica – Foi. Os policiais não sabiam como me incriminar, então levaram uma garota de programa e quase um quilo de cocaína para o meu estúdio na Mooca. Quando cheguei lá, havia 20 carros de polícia, parecia que eu era o maior bandido da Terra. Na delegacia, insistiram para eu dizer que o filme era político. Os carcereiros me fizeram uma espécie de tortura mental. Diziam que estavam surrando minha mãe para me chantagear.

Fórum – Somente depois de lançar o personagem Zé do Caixão você foi incorporado ao movimento chamado de Cinema Marginal. Você considera o seu cinema marginal?
Mojica – Sempre me considerei sozinho, porque ninguém nunca conseguiu discutir a minha linguagem. O rótulo marginal servia para demarcar a briga do grupo do Cinema Novo com o da Boca. O Cinema Novo se propunha a ser um cinema intelectual, político e individualista. Queria fazer um cinema de denúncia muito frescurado, que ninguém entendia nada. Já o Cinema Marginal estava do lado do comércio. Era o verdadeiro cinema de denúncia porque ia direto ao tema e sempre com um visual interessante.

Fórum – Como você reagia quando algumas pessoas diziam que você não tinha cultura?
Mojica – Isso me magoava. Todos me cobravam um diploma. Mas diploma não ia adiantar porque cinema é arte. Nunca fui contra o estudo, só dizia que não tinha tempo para estudar teoria de cinema. Luís Sérgio Person, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla disseram para eu não ficar bitolado em livro nenhum.
Quando entrei na escola, insistia com os colegas que o cinema, o teatro e a televisão eram veículos de comunicação cultural. Entrei em três ou quatro ginásios e sempre enfatizavam: “Você não deve fazer cinema”. Eu queria estudar, mas sair da escola me deu mais liberdade para prosseguir na carreira. Na época, quem fazia cinema era taxado de imoral, cafajeste. Para a mulher, ser artista era ser prostituta. A nossa cultura estava muitíssimo atrasada. Por isso não estudei e resolvi aprender todos os assuntos lendo história em quadrinhos.

Fórum – Você nunca se interessou por política, tampouco por filmes políticos. Por que resolveu se candidatar a cargos públicos?
Mojica – Fui candidato a primeira vez por ser fã do Jango, mas nem pensava em me eleger. Já na segunda, fui convidado, caso contrário não me candidataria. A minha revolta é os cariocas levarem todo o nosso dinheiro do campo da cultura e da comunicação. Eu achava que, se fosse eleito, ia poder destinar mais verba para São Paulo. Aconselho aos que pretendem se eleger não entrarem em partido pequeno, porque, se o partido não tem força, você dança. Foi o que aconteceu comigo.

Fórum – Você achou bom ou ruim não ter sido eleito?
Mojica – Se eu tivesse sido eleito, não estaria filmando Encarnação porque político não tem direito a verba governamental. E será que eu estaria satisfeito? Não estaria, porque eu não iria roubar, já que estaria lá para combater a corrupção. E será que eu teria sucesso se todo mundo é corrupto? Cinema é trabalho de equipe e política também. Não adianta trabalhar sozinho.



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