A nobre arte do maracatu

Expressão cultural com forte presença entre os mais pobres, o maracatu de baque solto atrai seguidores em todo o estado de Pernambuco Por Breno Castro Alves  ...

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Expressão cultural com forte presença entre os mais pobres, o maracatu de baque solto atrai seguidores em todo o estado de Pernambuco

Por Breno Castro Alves

 

O primeiro elemento a ser vestido é o chocalho, quatro sinos de metal presos numa estrutura de um metro de madeira e, para não machucar o caboclo, recobertos com pelúcia e palha de bananeira, tudo pendurado nas costas. Pesa 15 kg. Por cima vai a gola, espécie de poncho grosso que ostenta algo como 30 mil lantejoulas multicoloridas e o mesmo número de miçangas em desenhos elaborados. Outros 5 kg.
A cabeça traz um chapéu de palha modificado, ampliado com uma estrutura de arame e taboca (espécie de bambu). São mais 5 kg. Nas mãos está a vara ou lança, misto de arma e brinquedo, que mede entre 1,80 e 2,20 metros e carrega centenas de metros de retalho de fita amarrados. O toque final é o delicado cravo branco carregado entre os dentes, totalizando mais de 30 kg de fantasia. Acrescente-se a isso tudo os 30 e poucos graus Celsius do carnaval pernambucano e se pode ter uma medida da força de um caboclo de lança, figura símbolo do maracatu rural.
Conhecido como maracatu de baque solto (ou de orquestra), essa manifestação popular de raízes híbridas ressignifica e funde elementos de origens diversas, como autos religiosos e a música de orquestra, com metais. Em relação a seu irmão, maracatu nação (ou de baque virado), não tem reis e rainhas, e os caboclos de lança são os que abrem espaço em meio à festa. Passa, desde o fim dos anos 90, por um período de valorização dentro da cultura pernambucana e brasileira. Hoje o caboclo de lança é um símbolo de seu estado, tão significativo quanto o dançarino de frevo e sua sombrinha.
A prática vem da Zona da Mata Norte de Pernambuco, região intermediária entre o litoral úmido e o sertão seco, dominada desde o ciclo do açúcar pela monocultura da cana. A relação entre maracatu rural e cana-de-açúcar é visceral, quase a totalidade dos foliões trabalha em sua colheita ou nos engenhos e usinas.
Dinheiro da feira na fantasia
Carpina. Paudalho. Nazaré da Mata. Aliança. Buenos Aires. Lagoa do Itaenga. As placas dos carros estacionados em frente à sede da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco deixam claro o alcance territorial da prática. Dentro do prédio acontece a primeira reunião após o carnaval, onde será feito o balanço do ano para os brinquedos (como se chamam os grupos de maracatu) e a eleição da nova diretoria da entidade.
Cerca de 100 homens, em sua maioria além dos 50 anos, se concentram em assembléia. Rostos vincados, coloridas camisas de botão, calça de pano liso, sapatos ou chinelos de dedo e chapéus de pano e palha. São os maracatuzeiros, diretores das nações e os grandes responsáveis por manter viva a prática.
Eles se ocupam da estrutura da festa, desde a confecção das elaboradíssimas fantasias até o fechamento de contratos com as prefeituras das cidades que os receberão. Diferentemente de outros carnavais, onde os participantes das escolas pagam pelas fantasias, aqui é o maracatuzeiro que paga uma comissão aos membros de seu brinquedo, cerca de R$ 20 ou R$ 30 a cada um.
Severino Benedito da Silva, o seu Benedito, dono do Beija-Flor de Aliança e “filho natural da agricultura”, tem 64 anos, é aposentado e trabalha no cemitério municipal da cidade como coveiro. Todo o dinheiro da aposentadoria é investido em sua nação com a consciência de que o retorno financeiro será nulo. Provavelmente estará endividado às vésperas do carnaval: uma fantasia de caboclo, como a descrita no começo desta matéria, não sai por menos de R$ 1.200 e alguns brinquedos chegam a ter mais de uma centena de componentes, incluindo dezenas e dezenas de caboclos.
A participação dos brinquedos em carnavais e festas pontuais ao longo do ano é condicionada ao pagamento de uma taxa, sua principal fonte de renda. Prefeituras, políticos, aliados de todo tipo e empresários são os principais contratantes, que pagam entre R$ 100 e R$ 350 por apresentação. Já os que participam do grupo especial da cidade do Recife recebem R$ 12 mil, explicitando o abismo entre capital e interior.

“O tempo da ignorância acabou”
A associação foi fundada em 1990 pelo hoje lendário Mestre Salustiano. À época eram 11 brinquedos, hoje são 102. Atualmente é Manuelzinho Salustiano, seu filho, que está à frente da entidade. Ele explica que a tradição remonta às senzalas, onde grupos de negros se reuniam para festejar em seus terreiros e, depois da festa privada, saiam pelos canaviais para encontrar oponentes e extravasar suas agressividades e frustrações.
E assim permaneceu por muito tempo. Os mais antigos afirmam que era comum caboclos de lança, os protetores da nação, brigarem até a morte quando grupos se cruzavam. Alguns até mesmo cobriam o badalo dos chocalhos com folhas, para emboscar rivais em silêncio.
Hoje o cenário é muito diferente e há décadas não se registra uma morte. “O tempo da ignorância acabou. Estamos aqui para mostrar nosso valor, não nossas brutalidades”, repreende Manuel Salustiano na assembléia que reelegeu sua chapa, única na disputa. Durante o carnaval de 2008, dois caboclos de um brinquedo da região do Recife agrediram com suas lanças um folião desarmado. E agora devem comparecer a uma reunião da associação para se defender e se desculpar, condição para que seu brinquedo receba o dinheiro do carnaval.
“A associação foi criada por meu pai para conscientizar a prática do maracatu de baque solto. A rivalidade é forte sim, mas a disputa agora está nas cores de nossas roupas e na animação de nossa festa”, garante Salustiano.
A professora Isabel Guillen, historiadora e pesquisadora de cultura popular da Universidade Federal de Pernambuco, afirma não haver qualquer evidência precisa sobre o surgimento dessa forma de expressão. Avalia que ela deve ter nascido na virada do século XIX para o XX, mas não descarta a hipótese colocada por Manuel Salustiano. “É comum que surjam mitos de criação para essas práticas, para dar um sentido ao ato e gerar identificação entre os membros”, diz, sem excluir a possibilidade de gênese nas senzalas.

Nação, família, pertencer
Sentado na calçada de sua casa em uma das poucas ruas da rural Upatininga (PE), Severino Ferreira de Melo, o seu Do Ramo, não passa 15 minutos sem cumprimentar alguém que faz parte do Pavão Misterioso, o brinquedo que ele coordena. Até que José Luis da Silva, 33 anos, 11 como caboclo de pena do Pavão, se aproxima para conversar. Rapidamente mais caboclos de lança se juntam ao grupo. “Troquei as outras festas do ano para estar junto com minha nação no carnaval. E ainda trouxe meus parentes”, diz, apontando para um sobrinho caboclo de lança.
José Luis tomou essa decisão pelo sentimento que pertencer a um grupo acolhedor proporciona. “Seu Do Ramo foi lá em casa e pediu permissão para o meu pai para que eu viesse para a Beija-Flor. Já me ofereceram muito dinheiro para eu ir para outros brinquedos, mas eu não vou, isso aqui é família, é religião, é fé. Maracatu é coisa séria”, diz aquele que é considerado um dos melhores caboclos de pena da região.
Os envolvidos com o maracatu realmente o levam a sério. A professora Guillen justifica apontando que a inversão de hierarquia existente no carnaval, onde os pobres são o centro das atenções, é um importante elemento de auto-afirmação, dignidade e auto-estima dessa população. Barachinha, experiente mestre da Estrela Brilhante de Nazaré da Mata e autor da frase-título desta matéria, confirma a teoria e conclui: “é no carnaval onde o cortador de cana é o chefe, o capitão, o rei”.



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