A tática da criminalização

A revista Veja tem como um dos seus alvos constantes os movimentos sociais, em especial o MST. E isso não é à toa Por Glauco Faria...

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A revista Veja tem como um dos seus alvos constantes os movimentos sociais, em especial o MST. E isso não é à toa

Por Glauco Faria

 

“A existência de movimentos sociais e estudantis é inevitável em nações democráticas, como o Brasil, ainda que a meta final desses grupos seja eliminar a democracia e instaurar uma ditadura socialista.” Esse é o trecho de uma matéria da revista Veja, edição 2.010, de 30 de maio de 2007. O texto em questão, intitulado “A lei, ora a lei…” subscreve que “manifestantes desafiam a Justiça e promovem um festival de badernas no país”.

A publicação da editora Abril consegue fazer uma incrível conexão entre um protesto na avenida Paulista, em São Paulo, contra a Emenda 3; estudantes classificados como “desmiolados” que ocupavam a reitoria da Universidade de São Paulo (USP); um ato da Via Campesina do Pará e – pasmem – uma ação de traficantes no morro do Alemão. E diz o texto: “Não faz diferença se o desrespeito à ordem jurídica é obra de estudantes mimados, sindicalistas inescrupulosos ou traficantes de drogas. É essencial que o estado dê uma resposta fulminante a todas essas ameaças”. Ou seja, a tese de que a revista promove a criminalização dos movimentos sociais não é nenhuma síndrome de perseguição, mas algo palpável, que está sempre presente em suas páginas. Em resumo, ações desses movimentos é “caso de polícia”, como diriam os arautos da ditadura ou os udenistas em tempos mais remotos.

A postura de Veja não tem passado em branco, pelo menos para os olhos de uma parcela significativa da sociedade e do meio acadêmico. Nas universidades, diversos estudos têm sido feitos para analisar e tentar compreender o porquê da tal fixação contra os movimentos de base popular. Ou, nos termos de alguns pesquisadores, uma verdadeira “satanização”.

“A ‘satanização’ não é criação da revista, segue um padrão internacional, o do ‘modelo de propaganda’, mostrado por Noam Chomsky. Todos aqueles que de alguma forma contestam o regime são ‘satãs’ em potencial”, aponta Carla Luciana Souza da Silva, que teve como tese de doutorado em História, na Universidade Federal Fluminense, o trabalho Veja: o Indispensável Partido Neoliberal. “É uma forma de negar ao leitor a possibilidade de que o mesmo conheça o programa desses movimentos. Ficam apenas com a (des)informação, mas com uma carga pesada de ideologia”, resume.

Ela acredita que o dano causado pela revista, quando age dessa forma, equivale à ação de uma agremiação política. “A revista tem uma aparência de neutralidade, de imparcialidade, o que é característica própria a qualquer veículo de comunicação. Esses elementos, que chamo de padrão liberal de imprensa, permitem que a revista seja lida e aceita por uma parcela da população que é reticente a partidos políticos, pessoas que dizem ser apolíticas ou descrentes com o sistema político. No entanto, consomem os produtos dos meios de comunicação, que são formas concretas de ação política, seja dos donos das revistas, seja daqueles que a sustentam”, explica. “A revista, nesse sentido tem uma ação pedagógica, de convencimento, de ensinar aos seus leitores aquilo que ela propõe como sendo a verdade. Ela se espalha em lugares inacessíveis aos partidos: consultórios, escritórios, bibliotecas públicas. A justificativa para isso é levar informação, mas o que leva efetivamente é opinião, que se transforma em ação política dos seus leitores.”

MST, o alvo predileto

No campo dos movimentos sociais, a revista da Abril tem um alvo preferencial: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Não somente por ser um dos principais do gênero no mundo, mas os ataques constantes parecem querer fazer acreditar que sua causa, a reforma agrária, não deva ser prioridade em um país como o Brasil.

O curioso é que nem sempre foi assim. O mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) Araré de Carvalho Júnior, autor da tese A representação do MST na revista Veja: uma análise dos meios de comunicação de massa através do conceito de indústria cultural, defende que a publicação mudou de forma gradativa sua posição em relação aos sem-terra, conforme determinadas circunstâncias.

Ele exemplifica citando uma edição de 1996, que apresentava reportagem intitulada “Sangue em Eldorado” (24/04/1996). “Nesse primeiro momento, o movimento é visto por Veja como legítimo, ele seria resultado da falta de uma política agrária e de uma incompetência governamental. Nessas primeiras reportagens, a revista diz que as pretensões do movimento são legítimas assim como suas bandeiras”, afirma. Um trecho da matéria confirma a disposição do semanário: “Os homens e as mulheres atacados na floresta, que deixaram sangue e pedaços de cérebro espalhados pelo chão e pela relva, são esses brasileiros chamados sem-terra, cidadãos que andam descalços, têm as roupas sujas de barro e só costumam ser notícia sob forma de cadáver”.

No entanto, mesmo com a relativa simpatia, a publicação advertia que o movimento deveria respeitar determinados limites, supostamente impostos pelo Estado Democrático de Direito. Então surge uma segunda etapa na relação com o movimento. “A bandeira de luta, a reforma agrária, é deixada de lado pela revista, focando suas reportagens em atritos entre líderes do Movimento (João Pedro Stédile vs. José Rainha), dando destaques às incongruências de discurso do movimento e mostrando um possível cisma interno”.

Para Eduardo Ferreira de Souza, autor do livro Do Silêncio à Satanização: o Discurso de Veja e o MST, isso não foi uma mudança gratuita ou desconectada de fatores não propriamente editoriais. “Houve uma tentativa de cooptação no início do governo FHC em relação aos sem-terra. Quando viram que isso não seria possível, mudaram o tom e tentaram mostrar que havia divisões dentro do movimento”, explica. Mas, segundo ele, a tática não se limitou a isso. “Tentaram isolar o movimento, jogaram o MST contra o PT, falaram que os sem-terra eram um movimento basicamente da Igreja Católica, centrado no Rio Grande do Sul.”

Aos poucos, não apenas o MST como a causa da reforma agrária eram questionados, já que, de acordo com a publicação da Abril, o governo FHC vinha atuando de forma séria na área. E os sem-terra passam ser qualificados como “sem causa”. “O ápice dessa tendência se concretiza com a matéria de capa ‘A tática da baderna’  (10/05/2000). Aqui a palavra ‘baderna‘ coloca em xeque a estabilidade das instituições democráticas brasileiras, como a lei, a ordem e a justiça”, explica Araré de Carvalho Júnior.

A revista justifica, nessa edição, por que os sem-terra deveriam deixar de adotar a tática das ocupações. A publicação defende: “O secretário da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, apresentou com clareza as razões pelas quais as desordens dos sem-terra deveriam ser enfrentadas com o vigor necessário. Segundo Nunes, os membros do MST estão atuando de modo criminoso contra a democracia vigente no país.” (Veja, 10/05/2000, p.46). E prossegue. “O MST empunha uma bandeira justa, a reforma agrária. Nessa trajetória, muitas vezes seus membros são vítimas de agressões. (…) Mas seu principal argumento de atuação perde força na medida em que o movimento já recebeu do governo 22 milhões de hectares de terra, área equivalente a cinco dinamarcas.” (p.51).

O crescimento do agronegócio acaba por estabelecer uma outra dicotomia. O MST agora é inimigo de um dito “progresso” e defende o atraso em um setor que ajuda no desenvolvimento do país. “A agricultura não é mais terreno para pequenos agricultores, nem para agricultura familiar; ela é espaço de grandes negócios, mecanização intensiva e larga escala de produção. Sendo assim, a revista começa a mostrar que a reforma agrária no Brasil perdeu o timing, ou seja, se não foi feita quando deveria ter sido feita, não se deve fazer mais, pois o modelo da pequena propriedade em nada colabora para o crescimento do campo nacional”, aponta Carvalho Júnior.

Mudou, sem sair do lugar

Embora tenha havido uma mudança em relação ao MST e aos movimentos socais de forma geral, não se pode concluir que isso tenha sido um rearranjo de cunho ideológico. Para Carvalho Júnior, “Quando era interessante comercialmente ver o MST como um movimento legítimo, a revista o fez, isso devido aos grandes índices de popularidade que o movimento desfrutava no começo do ano de 1997, inclusive entre os assinantes de Veja. A tática se altera de acordo com a mudança de estratégia do governo e das elites fundiárias”.

Para Eduardo Ferreira de Souza, o semanário tem uma preocupação em agradar determinado segmento social, uma parcela da classe média, que possui uma linha de pensamento similar à da publicação. “A cúpula editorial publica aquilo que uma classe média alienada tem interesse de ler. O discurso que trata os integrantes de movimentos sociais como ‘gente que não quer trabalhar’ é algo comum entre essas pessoas. É o mesmo segmento que apoiou o Golpe de 1964”, assegura. “Ela até exagera, mas não tem vergonha de exagerar. Na prática, retrata o preconceito dessas pessoas como se estivessem conversando em um bar de Perdizes [bairro de classe média-alta da capital paulista]”.

Mas seria injusto dizer que esse tratamento preconceituoso é exclusividade do semanário dos Civita. Outros veículos da grande imprensa reproduzem o mesmo ideário, também usando métodos não-jornalísticos, mas de forma mais sutil. Para Carla Luciana Souza da Silva, isso exige uma outra forma de pensar e agir por parte daqueles que são os mais atingidos. “Os movimentos sociais jamais devem colocar como objetivo ser pautados pela revista, ser entrevistados por ela ou algo do gênero. Devem, isso sim, ter seus próprios meios de comunicação que atinjam a seu público específico, os construtores das lutas sociais”, defende, propondo uma alternativa. “A grande mídia busca pautar a agenda social, mas aos movimentos sociais cabe propor sua própria agenda, de acordo com suas estratégias específicas de luta, e isso abrange a sua comunicação.”

 



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