Fazendo a revolução na Bahia

Penúltimas Palavras, crônica por Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Não é à toa que quase todos os janeiros eu acabava na Bahia. Todo ano, no final...

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Penúltimas Palavras, crônica por Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Não é à toa que quase todos os janeiros eu acabava na Bahia. Todo ano, no final de dezembro, eu saía de férias (quando não tinha direito a isso, pedia demissão, era fácil arrumar outro emprego quando voltava), ia na maioria das vezes rumo ao Nordeste e acabava em Salvador, nos últimos oito ou dez dias antes de voltar pra São Paulo. Minhas viagens ao Ceará, ao Maranhão, a Pernambuco e outros lugares acabaram sempre em Salvador, embora às vezes tivesse outros planos. É que a Bahia era acolhedora demais. O turismo predador piorou bastante Salvador, que ainda é uma cidade muito boa e gostosa, mas já foi muito melhor. O povo baiano recebia todo mundo de braços abertos, dinheiro era coisa quase secundária, a gente se enturmava com as pessoas de lá e quem podia pagava as cervejas, cachaças e afins.
Eu chegava lá quase sempre duro, pois Salvador pra mim era o fim das viagens. Mesmo quando saía de São Paulo com uma boa grana, gastava quase tudo antes desse final apoteótico. Mas nem por isso passei necessidade. Comia e bebia, dormia em repúblicas que nos recebiam como velhos amigos mesmo que nunca nos tivessem visto. E muitos que nasceram fora da Bahia foram para lá e viraram baianos pra valer, com a mesma cordialidade. Um desses era o Zé.
Os paulistas e cariocas o conheciam por Zé Baiano, porque ele morava em Salvador, mas os baianos o chamavam de Zé Carioca, porque ele nasceu no Rio. Só que mudou novo para a Bahia e era “baiano” mesmo, no modo de viver. Sua casa vivia cheia de gente. Recebia pessoas que nunca viu para passar dias e até semanas.
Era militante de uma organização de esquerda ligada à Quarta Internacional, e recebia também um monte de estrangeiros que pintavam na Bahia a passeio ou com alguma missão. Numa dessas, apareceu lá um suíço mandado pela organização para “ajudar a fazer a revolução no Brasil”. O tal suíço ficou morando na casa dele. Tinha casa, comida e roupa lavada, e ficava o dia todo, todos os dias, “fazendo a revolução” nas praias e nos bares. Não punha um tostão em casa. Mas o Zé Baiano não ligava. Uns dois anos depois, nem os baianos agüentavam mais o “revolucionário” que não mexia uma palha, chegaram a falar com o Zé para pôr o sujeito pra fora da casa, mas ele não admitia de forma alguma essa possibilidade. Nunca cometeria uma descortesia dessas.
Até que num fim de tarde o suíço o chamou solenemente, quando ele chegava do trabalho, e disse que queria lhe comunicar uma coisa. Não pediu nada, foi só informando, anunciando:
– Um outro companheiro da organização vem ajudar a fazer a revolução aqui. Então, vai ficar morando aqui também…
Aí o Zé Baiano refugou pela primeira vez. Sustentar um sujeito lá, tudo bem, mas dois…
– Ele é mais revolucionário do que eu… Faz parte da cúpula da organização – insistiu o suíço.
O Zé continuou falando que não dava pro cara morar lá, o sujeito ficou indignado, dizendo-se traído, e falou que se um companheiro mais revolucionário do que ele não podia morar naquela casa, ele também não moraria. Fez as malas e saiu, achando que o Zé Baiano imploraria pra ele ficar e trazer o outro suíço, mas dançou, teve que procurar outra moradia. E como já era manjado pelos baianos todos, não recebeu convite de ninguém, teve que ir pra uma pensão. Pouco tempo depois já não era mais visto em Salvador, talvez por não ter arrumado outro Zé Baiano para se encostar.

 



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