FSM em processo: Os temas que mobilizaram Nairóbi

Na coluna de Moacir Gadotti, as notícias sobre os Fóruns Sociais, regionais e temáticos pelo mundo, além de discussões sobre o outro mundo possível. Por Moacir Gadotti  ...

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Na coluna de Moacir Gadotti, as notícias sobre os Fóruns Sociais, regionais e temáticos pelo mundo, além de discussões sobre o outro mundo possível.

Por Moacir Gadotti

 

Muitos foram os temas tratados nos 1.200 seminários, painéis e outras atividades ocorridas no Fórum Social Mundial de Nairóbi, em janeiro. Todos e todas que participaram do evento aprenderam muito. Saímos mais esperançosos e com mais energia para continuar a luta por um outro mundo possível, ou melhor, pelo direito de construir outros mundos possíveis.

Conhecemos, com mais clareza, a perspectiva africana de problemas globais como o endividamento, a pobreza, os conflitos armados, os direitos dos negros. A Aids mobilizou o Fórum. Houve grandes manifestações pedindo medicamentos gratuitos para combater a enfermidade que se tornou uma verdadeira pandemia.
O tema da água ganhou enorme destaque em Nairóbi: é um direito social e não pode ser objeto de lucro. Como em tudo, também o tema da água está dividido entre considerá-la como uma commodity e considerá-la como um bem público.

Destacou-se também no Fórum africano a importância dada à economia solidária. Organizações como a Rede Intercontinental de Promoção da Economia Social e Solidária (Ripess) e o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (Fbes) discutiram, por exemplo, o tema “comércio justo” esteve presente em diversas mesas. Muitas experiências nesse campo foram apresentadas, contando com a presença do economista Paul Singer, da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil.

Foi debatida uma Carta de Princípios da economia solidária que, como diz o texto, “constitui o fundamento de uma globalização humanizadora, de um desenvolvimento sustentável, socialmente justo e voltado para a satisfação racional das necessidades de cada um e de todos os cidadãos da Terra, seguindo um caminho intergeracional de desenvolvimento sustentável na qualidade de sua vida”.

A articulação dessas iniciativas da “economia do trabalho” foi um dos avanços mais significativos. Uma maior articulação entre empreendimentos solidários, ONGs, governos, redes e movimentos foi estabelecida. Uma política pública de economia solidária deverá resultar dessa articulação. O tema deverá ter ainda maior relevância nos próximos fóruns. Chegou-se também a propor um Fórum Social Mundial temático sobre economia solidária.

Outro tema muito discutido foi o perdão da dívida externa dos países pobres, considerada um verdadeiro câncer para os africanos. Numa grande marcha ao redor do Casarani (estádio onde foram realizadas atividades do FSM), muitos empunhavam bandeiras com os seguintes dizeres: “Debt is poverty! Debt is slavery!” (A dívida é pobreza! A dívida é escravidão). Ela é apontada como a principal causa da pobreza da região. Foram relembrados os históricos encontros de Havana que, desde 1985, ajudaram a criar uma consciência mundial em torno dessa questão, reforçando a luta de resistência contra o caráter injusto, fraudulento e impagável dos débitos.
Argumentavam os participantes que os países pobres não têm condições de pagá-la, e, ademais, está na base da violação sistemática dos direitos humanos – como o acesso à educação, à saúde, ao saneamento, à informação. Muitos propuseram que em 2007 se colocasse em marcha uma campanha mundial pelo cancelamento da dívida.

A cidadania digital e o meio ambiente tampouco foram esquecidos. Embora, neste último Fórum, os ambientalistas não tenham tido a presença que tiveram nos eventos realizados no Brasil, a luta pela sustentabilidade está inteiramente imbricada em todas as causas coletivas globais discutidas no FSM. O aquecimento global poderia ter tido maior destaque em Nairóbi.

O tema das transações e instituições financeiras internacionais está sempre na ordem do dia nos Fóruns, em vários debates. Para lidar com essa questão “não basta uma oficina de três horas”, como sustenta Antonio Martins, da Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio ao Cidadão (Attac-Brasil).

Um dos temas tratados no Fórum de Nairóbi foi o da educação. No próximo número, discutiremos a Plataforma Mundial aprovada pelos participantes do V Fórum Mundial de Educação, também realizado em Nairóbi.

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Agenda• Fórum Social Quebec – 23 a 26 de agosto de 2007 – Quebec, Canadá. Site:www.forumsocialquebec.org/2007
• Fórum Mundial de Educação Temático – 13 a 16 de setembro de 2007 – Alto Tietê, São Paulo. Site:www.forummundialeducacao.org
• Fórum Social EUA – de 27 de junho a 1º de julho de 2007 – Atlanta, Geórgia, Estados Unidos. Site:www.ussf2007.org
• Leia maiswww.forumsocialmundial.org.br

 



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