O ano em que levantamos a cabeça

Greve na Scania, em maio de 1978, foi o estopim do fortalecimento sindical e da redemocratização do Brasil Por Marcos Palhares   Ao comparecer à cerimônia de...

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Greve na Scania, em maio de 1978, foi o estopim do fortalecimento sindical e da redemocratização do Brasil

Por Marcos Palhares

 

Ao comparecer à cerimônia de 50 anos da Scania, em São Bernardo do Campo (SP), em julho do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conteve sua emoção: “Foi aqui, nesse pátio, que começamos a conquistar a redemocratização do nosso país. Aqui, no dia 12 de maio de 1978, um grupo de trabalhadores resolveu exercitar – depois de muitos anos, porque o regime militar não permitia – uma conquista universal que é o exercício da greve”.
Lula tem todo o direito de se emocionar, pois, como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, foi o pivô central dos eventos de 30 anos atrás. “Quando a greve estourou, o Lula assumiu. A habilidade política dele é que levou o fato a bons termos”, ressalta Possidônio Carvalho, um dos advogados do sindicato na época e autor de No ABC dos Peões (Editora Alpharrabio, 2005), compilação sobre as campanhas dos metalúrgicos.
“Para o observador de fora, podia até parecer um movimento espontâneo, mas não era. Se não houvesse uma liderança como a do Lula, possivelmente teria se perdido tudo”, sentencia Carvalho. De fato, assim que o atual presidente da República assumiu o Sindicato dos Metalúrgicos no ABC, em 1975, a luta da categoria ganhou outro patamar. O sindicato ganhou notoriedade quando passou a denunciar, de maneira sistemática, a rotatividade de mão-de-obra na categoria como forma de as empresas arrocharem salários.
Lula comandou a campanha para a recuperação dos 34,1% de perda salarial com a inflação nos anos de 1973 e 1974. A assembléia de 2 de setembro de 1977, com aproximadamente 2,8 mil trabalhadores e 80 mil panfletos distribuídos nas fábricas, sinalizou que os metalúrgicos poderiam dar um passo maior no ABC. Em 30 de março de 1978, quatro setores da Mercedes ensaiaram uma pequena paralisação, seguida, em 10 de maio, pelo pessoal da estamparia da Ford. Ambos os movimentos foram sufocados com demissões sumárias.
“Os dias foram tensos”, lembra Juno Rodrigues Silva, o Gijo, que trabalhava na Karmann Ghia e era um importante ativista sindical. “Eu e vários companheiros íamos atrás de quem furava a greve. De madrugada, vivíamos andando para todos os lados”, detalha Gijo, que hoje tem um restaurante em São Bernardo e mantém estreita amizade com Lula. Ele se recorda de detalhes do dia 12 de maio, quando o setor de ferramentaria da Scania puxou a paralisação total da fábrica.
“Foi um dos dias mais terríveis, o pau quebrou lá no Paço Municipal de São Bernardo. A polícia vinha para cima de nós, para prender, para bater. Mas isso nos tornou mais fortes: cada um de nós se tornou um Lula”, garante o ex-metalúrgico. Com esse espírito, os quase 120 mil metalúrgicos do ABC espalharam as greves para outras fábricas, inclusive de outros estados. “O movimento partiu dos metalúrgicos por causa da atividade política das comissões de fábrica. Apesar da repressão, havia uma movimentação muito grande, publicações clandestinas, ativismo sindical”, explica Possidônio Carvalho.
“A partir daquela greve, em 1978, as pessoas começaram a levantar a cabeça no Brasil”, completa o advogado. A opinião é compartilhada pelo atual presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, José Lopes Feijóo, que há três décadas trabalhava na Ford. “Foi um momento histórico, daqueles que marcam e mudam a história de um país. Do ponto de vista da luta pela democracia, a greve dos metalúrgicos contribuiu fortemente para a queda da ditadura militar”, enfatiza.
No âmbito sindical, 1978 marcou também o surgimento de um novo modelo de atuação, além de abrir caminhos para organizações mais eficientes. “Aquilo fez com que o sistema sindical brasileiro se modernizasse, deu base para o surgimento das centrais sindicais. Mas foi, acima de tudo, um momento em que os trabalhadores deixaram de ser meros espectadores e se tornaram atores da cena social e política do país”, reforça Feijóo.
A confirmação está no sorriso de Gijo, ao contemplar uma foto de Lula em um dos históricos discursos no estádio da Vila Euclides: “Conseguimos eleger um presidente da República nosso. Essa é a minha maior alegria”.



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