Os movimentos erráticos do Império

Desde o fim da guerra entre Irã e Iraque, há 20 anos, os EUA têm modificado suas posições no Oriente Médio de acordo com a conveniência. E isso não contribuiu em nada para a...

294 0

Desde o fim da guerra entre Irã e Iraque, há 20 anos, os EUA têm modificado suas posições no Oriente Médio de acordo com a conveniência. E isso não contribuiu em nada para a estabilidade da região

Por Anselmo Massad

 

Bahrein, o primeiro país a descobrir reservas de petróleo no Oriente Médio, teve seu porto convertido em um cemitério de navios petroleiros atingidos por caças, com carcaças abertas que despejavam milhares de toneladas de óleo no mar. Há 20 anos, em agosto de 1988, terminava uma guerra sem vencedores. O Iraque de Saddam Hussein e o Irã do aiatolá Khomeini travaram uma disputa militar sangrenta e cheia de contornos religiosos e étnicos por território, petróleo e projetos políticos de liderança no Oriente Médio. A posição dos EUA e das outras potências oscilou, ora para um lado, ora para outro. Ainda era a Guerra Fria.
Passaram-se três anos, houve a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. O golfo Pérsico voltava ao centro do noticiário global com a aprovação por unanimidade no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) de uma intervenção militar no Iraque. O mesmo Saddam Hussein invadira o Kuwait em dezembro 1990 e mobilizou contra si a primeira ação militar conjunta entre países depois da Guerra Fria. O então presidente dos Estados Unidos, George Bush (pai) saudou a “nova ordem mundial”, em que as potências agiam multilateralmente, embora sob a égide de Washington. A ONU se fortalecia.
Após a rápida e fragorosa derrota, o líder do país situado entre os rios Tigre e Eufrates permaneceu no poder. Sanções econômicas e políticas foram impostas e programas humanitários como o Petróleo por Alimentos eram marcados por denúncias de corrupção no coração da mesma ONU. A organização encontraria sua maior crise envolvendo uma nova tentativa de intervenção militar contra Saddam. Há cinco anos, George W. Bush (filho) ordenou um ataque de dois caças na madrugada do dia 20 de março de 2003 em Bagdá. O alvo era um dos palácios onde, segundo informantes, estaria o ditador iraquiano e dois de seus filhos. O objetivo da operação era oferecer uma resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001 e, de certo modo, “terminar o trabalho” iniciado na primeira Guerra do Golfo.
Saddam foi preso em 13 de dezembro daquele ano, sozinho, ao sul de sua cidade natal, Tikrit. As tropas estadunidenses permanecem no Iraque, mesmo depois de 4 mil soldados mortos, segundo estimativa da Coalizão de Contagem de Baixas no Iraque (Icasualties.org) confirmada pelo departamento de Defesa dos EUA. O cálculo de vítimas fatais iraquianas varia de 40 mil, segundo a mesma fonte, a mais de 90 mil.
Centro das atenções Desde a guerra entre Irã e Iraque, Saddam Hussein conseguiu permanecer como alvo em um período de profundas mudanças globais. “Para entender por que o Iraque esteve nesse tempo todo nessa posição é preciso entender cada um dos três momentos”, avisa Reginaldo Nasser, coordenador do Centro de Estudos de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para ele, as motivações de Saddam nos dois primeiros conflitos precisam ser compreendidas dentro da tradição do nacionalismo árabe, inaugurado por Gamal Abdul Nasser, apontado como uma das principais referências políticas de Saddam, ao lado de Josef Stálin. O pan-arabismo surgiu como contraponto às seguidas incursões de forças externas na região – otomanos até 1918 e ingleses e franceses até meados do século XX – e buscava a união das nações árabes do Oriente Médio.
A tentativa de captar para si a posição de grande líder árabe que desafia as forças externas começou logo que Sad¬dam assumiu o posto de liderança máxima do Iraque, em junho de 1979, no lugar de seu primo Hassan Al-Bakr, de cujo governo Saddam foi secretário-executivo por 11 anos. Uma das primeiras medidas foi a organização da Cúpula da Frente de Confrontação em Bagdá, uma reunião de lideranças dos países para se opor a Israel e se posicionar contra a teocracia inaugurada no Irã em janeiro daquele ano com a revolução dos aiatolás (ver quadro).
A libertação de minorias árabes ao sul do Irã foi um dos motivos oficiais alegados por Saddam para iniciar uma invasão ao país em 22 de setembro de 1980. O medo do Ocidente em relação ao radicalismo do aiatolá Khomeini explica as vendas de armas dos Estados Unidos para o Iraque, incluindo químicas e biológicas, como relata Robert Fisk em seu livro A Grande Guerra pela Civilização (Planeta, 2007), um dos mais completos relatos da história recente do Oriente Médio produzido pelo jornalista atualmente no jornal britânico The Independent. Foi o período mais forte do nacionalismo iraquiano, já que, no sul do país, os conflitos eram diretamente entre xiitas do exército de Saddam contra xiitas iranianos.
A desproporção de forças não significou a facilidade prometida pela “Operação Turbilhão” do exército iraquiano no início do conflito. O empenho de massas de jovens soldados (a depender da fonte, de 300 mil a 900 mil mortos iranianos entre civis e militares, contra 100 mil a 400 mil iraquianos) e um certo jogo duplo das grandes potências levaram a perdas significativas ao outro lado. A União Soviética, depois do rompimento e da perseguição aos comunistas em 1982, também se tornou um oponente do Irã, mas armamentos produzidos no país chegavam por meio da Coréia do Norte às tropas de Khomeini. Até Israel vendeu armas leves ao exército persa. No caso estadunidense, a variação do sistema de alianças foi ainda mais clara.
“Naquele momento, valia a lógica da Guerra Fria que visava a coibir a ascensão de um poder que fizesse sombra a Israel”, defende Reginaldo Nasser. “No início, os Estados Unidos apoiavam o Iraque, e depois, durante a guerra, apoiou o Irã, especialmente no fornecimento de informações sobre as bases de lançamento de mísseis iraquianas”, completa. Esse foi um dos fatores pelos quais puderam equilibrar as perdas da guerra e evitar que o Iraque terminasse numa posição de potência regional. O repasse de informações ao regime antiamericano dos aiatolás é relatada em documentos da CIA, o serviço de inteligência dos Estados Unidos.
Ordens mundiais
As duas intervenções militares no Iraque tiveram características muito distintas entre si, embora parte dos personagens se repita (ou se pareça). Ainda alimentando o sonho de se tornar uma potência regional sob uma liderança forte e laica, Saddam invadiu o Kuwait em 1990, segundo analistas ainda com esperança de atrair aliados ocidentais como referência anti-extremismo islâmico. O que assistiu foi a uma série de condenações à invasão por parte das potências. Resultado: China, Rússia, Estados Unidos, França e Inglaterra, no Conselho de Segurança da ONU, foram favoráveis a uma intervenção militar.
O modelo de ação multilateral foi testado ainda na Somália em 1993, em Serra Leoa, no Kosovo e no Afeganistão em 2001. Neste último, sem petróleo nem negócios com países europeus, nem conexões claras entre o governo talibã e os atentados do 11 de Setembro, a invasão prosseguiu sob o comando da ONU, sem resistência dos países europeus.
Em 2003, com o veto de russos, franceses e chineses no Conselho de Segurança da ONU, a “coalizão” de 35 países levou 180 mil soldados de terra, sendo 140 mil a mando do governo Bush, um contingente maior do que o mobilizado na guerra da Coréia, que durou de 1950 a 1953. A dependência dos Estados Unidos do petróleo iraquiano foi reduzida a 3% do consumo, um quarto do que era importado em 1991. Saddam Hussein estava enfraquecido como liderança regional, embora se mantivesse no poder à base de uma ditadura sangrenta com um forte aparelho de repressão contra os opositores.
A intervenção militar no Iraque teve como justificativa a suposta produção de armas de destruição em massa pelo regime iraquiano e suas ligações com a Al Qaeda. Diversos relatórios e investigações foram divulgados depois do início da guerra comprovando que o governo estadunidense sabia da inexistência de provas disso. O Iraque, sobrevivente depois de dez anos de boicotes e restrições ao sul em áreas de exclusão – área de maioria xiita onde se concentram as principais reservas de petróleo –, estava enfraquecido militarmente em demasia para desenvolver a indústria bélica altamente avançada. Apesar dos vínculos com a elite sunita que marcaram o fim de seu governo, Saddam foi historicamente partidário de um Estado laico.
Regionalmente, mantinha simpatia de setores de outros países ao vociferar contra os Estados Unidos e por apoiar grupos de insurreição contra a ocupação israelense em territórios palestinos e libaneses. Mais do que armas, o governo iraquiano é apontado como fornecedor de recursos para compra de casas a familiares de mártires (homens-bomba ou militantes mortos em conflitos) na região. Segundo o grupo palestino Frente de Libertação Árabe, ligado ao partido Baath iraquiano (ou Baaz, a depender da transliteração do árabe), US$ 35 milhões foram distribuídos a familiares de mortos em atentados suicidas ou vítimas de ataques do exército israelense. Mas o vínculo nunca chegou a ser usado pela propaganda do governo Bush.
O principal motivo para a invasão é evidenciado no livro Plano de Ataque, de Bob Woodward (Globo, 2004), fazendo parte de uma trilogia assinada pelo jornalista sobre os dois governos de George W. Bush. Por meio de entrevistas com 75 pessoas-chave da administração, incluindo o presidente, Woodward reconstrói bastidores e evidencia posicionamentos dentro do governo e a influência dos neoconservadores.
O secretário de Defesa durante a Guerra do Golfo, Collin Powell, à época da invasão no cargo de secretário de Estado, foi o principal representante do que se convencionou chamar de “pombos” da administração. A referência à ave só faz sentido diante da que representa o outro grupo: os “falcões”, no caso, Dick Cheney, o vice, e Donald Rumsfeld, secretário de Defesa, aliados a Paul Wolfwitz e Bernard Lewis (ver quadro). Os falcões queriam a guerra e, para justificá-la, tinham em Saddam Hussein um adversário com grande antipatia por parte da população estadunidense. Em pesquisa publicada em 22 de março de 2003 no New York Times, 60% dos entrevistados apoiavam a invasão independentemente de haver ou não provas, apesar de milhares de pessoas terem se manifestado em defesa da opinião contrária nas principais cidades do país. O percentual se inverteria em maio de 2007.

Resultados Os cinco anos de ocupação representaram, em um primeiro momento, um fortalecimento da rede terrorista Al Qaeda, que viu cair um de seus adversários no mundo árabe, ironicamente deposto por seu grande inimigo mundial. O que se seguiu foi uma radicalização convertida em guerra civil paralela à ocupação, com ataques a mesquitas xiitas e entre muçulmanos. Os excessos de líderes como Abu Musab al-Zarqawi, morto em junho de 2007, são apontados por Jason Burke, especialista em Oriente Médio do jornal britânico The Guardian, como motivos da falha de Osama Bin Laden em se apropriar da Jihad no Iraque e do enfraquecimento da rede terrorista inclusive no mundo muçulmano.
Assim, para Burke, o grande vitorioso da guerra do Iraque até agora é o Irã. “O Iraque dos anos 90 – dirigido por um nacionalista, uma elite sunita muçulmana largamente secular, brutalizado e aterrorizado, mas estável sob Saddam Hussein – foi substituído por outro, fraco, violento e instável, tomado por uma ampla guerra civil e comunitária e pelo crime”, escreveu em 16 de março. O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, mesmo sem ser árabe, tentou sem sucesso ocupar o vácuo de liderança política muçulmana, o “anti-Estados Unidos” da região, levando a cabo o programa de energia nuclear do país. Mas desgastou-se internamente. O que está longe de significar que o Irã não queira essa posição em um contexto em que novas intervenções militares são pouco viáveis da parte da Casa Branca. F
Irã
“Nenhum país vai a parte alguma sob a sombra da ditadura.” A frase de retórica poderia ser incluída em algum dos discursos de George W. Bush para justificar o objetivo de democratização do Iraque. Mas a autoria é de Mohamed Mossadeq, que foi primeiro-ministro do Irã. O aristocrata é apontado por Robert Fisk como o único a buscar uma gestão democrática no país.
Mossadeq era popular por se opor à ampliação das concessões de exploração de petróleo à Anglo-Iranian Oil Company, mais tarde rebatizada como British Petroleum, o que lhe custou o poder. Foi deposto em um golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos e pela Inglaterra para levar o Xá Reza Pahlavi de volta ao poder em 1953.
O regime imposto pelo Xá foi uma ditadura de 26 anos, tão sangrenta quanto a de Saddam, reinventada diversas vezes para se manter, incluindo tortura e prisões políticas durante todo o período. Ele se considerava herdeiro da tradição persa pré-islâmica, embora sua dinastia tenha consistido em apenas dois monarcas. A postura fortaleceu um tipo de oposição que fundia política e religião, que tinha nos aiatolás seus líderes xiitas do país. O regime do Xá se enfraqueceu pela proximidade com os Estados Unidos, tomados como modelo de modernidade pelo Xá, e por uma tímida reforma agrária, que desagradou setores da classe média sem atingir a massa de pobres.
Khomeini era o grande líder do movimento. Inicialmente apoiado por outras forças, o regime dos aiatolás instituiu o Alcorão como base da lei, promovendo julgamentos por tribunais religiosos a colaboradores do governo anterior e a opositores.
Passados 29 anos da revolução, depois de ter boa parte de seu território devastado pela guerra contra o Iraque, o Irã tem eleições (com participação feminina), movimentos sociais, acesso à cultura ocidental, e as mulheres não precisam usar véu nem cobrir o rosto. Longe de ser um modelo de democracia, é considerado muito mais aberto politicamente do que a Arábia Saudita, por exemplo.
O mapa de Lewis
O autor da expressão “choque de civilizações”, que resume a profecia realizada em que acreditaram os neoconservadores da gestão Bush, foi Bernard Lewis. Assessor de Dick Cheney e professor da Universidade de Princeton, ele é o mais influente pesquisador sobre Oriente Médio nos Estados Unidos. O termo seria apropriado e desenvolvido por Samuel Huttington em 1993, na revista Foreign Affairs.
Inglês de origem judaica, Lewis cunhou o termo em 1990, no livro The Roots of Muslim Rage (As raízes da raiva muçulmana). Ele acredita que a solução para os países árabes vem… da Turquia. A sede do império Otomano – que não é árabe, mas dominou a região – teve, de 1923 a 1938, o governo do general Mustafá Kemal Atatürk, que promoveu um Estado laico com reformas liberais e ações pró-Israel e Estados Unidos, afastando o “atraso” (e falta de paz para Israel) que a visão de mundo fechada dos islâmicos traria, em sua concepção.
Em abril de 1979, Lewis apresentou um plano de fomento a rebeliões étnicas separatistas para redefinir o mapa do Oriente Médio. A política era defendida por outros teóricos dentro da administração do democrata Jimmy Carter. Sem um Estado forte na região, o pesquisador acreditava que os interesses das potências no petróleo se reduziriam, junto com as ameaças ao Estado de Israel. É um antipan-arabismo tomando como modelo as divisões do Império Romano, muito diferente das divisões entre franceses e ingleses na primeira metade do século XX. Há quem acredite que o mapa é, com ajustes, uma das referências da definição de políticas do atual governo.
Desenhado por Lewis em 1979, o mapa servia de defesa da política alimentada pelo então governo democrata de Jimmy Carter, de fomento a grupos separatistas nos países do Oriente Médio. Acima, as fronteiras atuais estão em preto e os nomes das nações em amarelo. O traçado proposto pelo atual assessor do vice-presidente Dick Cheney é apresentado em branco. Para analistas como Reginaldo Nasser, o traçado é uma das referências para a discussão, na cúpula do governo estadunidense, sobre o futuro da região. O Iraque, por exemplo, se dividiria entre o Estado Xiita, ao sul, o Sunita, ao centro, e Curdistão ao norte. A nação dos curdos abocanharia partes de Turquia, Irã e Azerbaijão. O Irã também perderia territórios para o Turcomenistão, ao norte, e Arabistão, ao sul. Os territórios palestinos e o sul do Líbano seriam incorporados a um Grande Israel. O restante do Líbano passaria a fazer parte da Grande Síria.



No artigo

x