Paraguai, a caminho da mudança

Monopólio dos colorados, no poder há 61 anos, pode ter fim com a candidatura do ex-bispo católico Fernando Lugo Por Daniel Cassol   Não é tão difícil...

207 0

Monopólio dos colorados, no poder há 61 anos, pode ter fim com a candidatura do ex-bispo católico Fernando Lugo

Por Daniel Cassol

 

Não é tão difícil acom¬panhar um comício em guarani. A reação das pessoas a cada frase e o uso de palavras espanholas para suprir a ausência de sinônimos no idioma indígena permitem a quem olha de fora entender a idéia geral do que está se dizendo. Na comunidade rural de Santa Clara, município de Pedro Juan Caballero, o ex-bispo Fernando Lugo discursava em guarani, em cima de um caminhão improvisado como palanque, para uma platéia de camponeses. Em meio ao som gutural do idioma, era possível apreender uma palavra, falada várias vezes: cambio.
Fé en el cambio, ou “fé na mudança”, é o principal lema do religioso, que no natal de 2006 anunciou-se candidato à presidência do país, enfrentando o Vaticano ao renunciar ao sacerdócio. Maior novidade política surgida no período da chamada transição, iniciada após a queda de Alfredo Stroessner em 1989, Fernando Lugo tem a oportunidade histórica de interromper 61 anos de domínio do Partido Colorado no Paraguai. Só este fato em si mesmo, caso venha acontecer, abrirá um novo capítulo na história do país. Realizar as grandes transformações desejadas por Lugo, porém, é um desafio de igual monta.
Tradicionalmente, nas eleições presidenciais do Paraguai pós-ditadura, a polaridade entre liberais e colorados é acompanhada de uma candidatura, igualmente de direita, que ocupa o chamado “terceiro espaço”. “É a primeira vez que emerge uma figura dos movimentos sociais”, explica o secretário-geral do Partido do Movimento Ao Socialismo (P-MAS), Camilo Soares.
Nascida de um esforço da fragmentada esquerda paraguaia em formar um projeto político comum, a candidatura Lugo ascendeu rapidamente no cenário do país, sob o guarda-chuva do Bloco Social Popular, a ponto de atrair partidos da direita tradicional, que faz oposição aos colorados. Ao final do processo, que teve tensões e pressões por parte das organizações sociais, formou-se a Aliança Patriótica para a Mudança (APC, sigla em espanhol), um agrupamento de quase três dezenas de partidos, movimentos e organizações políticas, que vão do Partido Comunista ao Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), ao qual pertence o candidato a vice-presidente de Lugo, Federico Franco.
A capacidade de conciliação de forças com projetos conflitantes entre si pode ser herança do trabalho de Lugo como sacerdote, acostumado a lidar com grupos de diferentes classes sociais. “A presença de pes¬soas que se identificam com a esquerda no Paraguai vai garantir uma governabilidade mais pacífica, baseada na racionalidade e no pluralismo”, atesta Lugo, em entrevista exclusiva à Fórum  ). “É uma circunstância única na história do país, esta aliança de forças tão díspares. E Lugo tem capacidade e carisma para aglutinar estas forças”, defende o chefe do setor de imprensa da campanha de Lugo, Ausberto Rodriguez, jornalista e militante do Partido Revolucionário Febrerista.
Inicialmente contrário à aliança com a direita, o P-MAS defendia uma candidatura genuína dos setores sociais que representasse um acúmulo de forças mesmo com a derrota eleitoral. Voto vencido, o partido decidiu permanecer na aliança, para não se furtar ao desafio histórico de tirar os colorados do Palácio dos López. “Derrotar o Partido Colorado, ainda que por forças conservadoras que não ponham em xeque o próprio sistema capitalista, poderia abrir uma época de grandes contradições no sistema de dominação no Paraguai”, defende.
Para Aníbal Carrillo, presidente do Movimento Tekojoja, a participação na campanha eleitoral permitiu o crescimento de sua organização, um movimento político formado por lideranças de diferentes organizações sociais que nasceu no processo da discussão da candidatura de Fernando Lugo e rapidamente se expandiu pelo país, configurando-se talvez na mais importante força social paraguaia. Tekojoja, palavra guarani, significa “união e igualdade”. “A prioridade de derrotar o Partido Colorado nos fez ampliar os marcos de referência para alianças. Os movimentos populares têm um acúmulo importante e Fernando Lugo é o candidato dos pobres, das organizações populares e da cidadania crítica”, diz Carrillo.

Cenário eleitoral Fernando Lugo se mantém à frente das pesquisas, mas sua vantagem em relação aos dois principais adversários vem diminuindo. No dia 16 de março, um estudo da empresa Consummer Intelligence S.A. publicado pelo diário Última Hora apontava que o ex-bispo estava com 34,5% das intenções de voto, enquanto Lino Oviedo aparecia com 29,4% e a candidata oficial, Blanca Ovelar, com 25,1%.
Ao longo de 2007, Lugo chegou a aparecer com até 60% das intenções de voto. A vantagem passou a ser abalada em setembro do ano passado, quando a Suprema Corte de Justiça, que responde diretamente ao presidente Nicanor Duarte Frutos, decidiu libertar o ex-general Lino Oviedo, preso por tentativa de golpe de Estado em 1996 e ainda respondendo pelo assassinato do vice-presidente Luis María Argaña, em 1999, e da morte de manifestantes no chamado Março Paraguaio. Ainda assim, é uma boa vantegem em uma eleição realizada em apenas um turno.
Com apelo popular, Oviedo é colorado de origem, tendo participado da ditadura de Stroessner e comandado o Exército do país. Sua liberdade foi resultado de um acordo com Nicanor, para que tirasse votos de Fernando Lugo. A jogada, que se mostrou eficaz num primeiro momento, logo revelou-se um tiro no pé. Oviedo também tirou votos da candidata oficial, a ex-ministra da Educação Blanca Ovelar. “O Partido Colorado sempre buscou um caudilho forte, à imagem de Stroessner. Mas é Oviedo quem representa isso. Os colorados votariam mais nele. Nicanor se saiu mal nesta jogada. Em vez de dividir a oposição, dividiu o Partido Colorado”, afirma o editor de política do jornal ABC Color, Alfredo Cantero.
Apoiada pelo presidente, Blanca Ovelar tornou-se candidata após evidente fraude nas eleições internas do Partido Colorado. A vitória sobre Luis Castiglioni, dirigente colorado considerado mais carismático e preparado, acentuou a divisão dentro da agremiação. “A grande massa que apoiou a candidatura de Castiglioni não está disposta a apoiar a candidatura oficialista. Neste processo de empobrecimento do país, os colorados sofrem tanto como qualquer cidadão paraguaio”, ressalta Gerardo Rolón Pose, presidente do Partido Democrático Cristiano (PDC), que integra a aliança de Lugo.
Questionada pela reportagem, durante encontro com empresários, ela não respondeu diretamente à pergunta sobre a iminência da derrota histórica dos colorados, mas afirmou: “É o desafio eleitoral mais importante do Partido Colorado em toda a transição democrática. Houve internas muito disputadas, a estrutura partidária não está toda integrada e isso se reflete nas pesquisas. Tenho confiança que isso pode ser revertido”.
O racha colorado beneficia a Lugo, mas muito mais a Oviedo. A mesma pesquisa da Consummer Intelligence revela que os votos descontentes dentro do Partido Colorado irão mais para o ex-general que para o ex-bispo. Candidato pela União Nacional dos Cidadãos Éticos (Unace), Oviedo é conhecido em todo o país e conta com o apoio de militares, porém teve a imagem prejudicada pelo acordo com Nicanor e por ter colocado praticamente toda a família a concorrer nestas eleições.
Apesar da vantagem nas pesquisas e dos pontos fracos dos adversários, Lugo precisa superar um obstáculo quase intransponível nestas duas décadas de aparente democracia no Paraguai: a fraude eleitoral, prática na qual os colorados são especialistas. A avaliação interna na campanha de Lugo é de que, se chegar com menos de cinco pontos de vantagem no dia das eleições, a derrota virá pela trampa.
Em um universo de aproximadamente 2,9 milhões de eleitores, 1,6 milhão são filiados ao Partido Colorado. O número que conta, porém, é de 700 mil a 800 mil votos cativos, obtidos nas últimas internas do partido. Com 270 mil funcionários públicos sob seu comando, o Partido Colorado assegura um enorme contingente de votos cativos com base em slogans como “teu voto, teu trabalho” e “não chute sua panela”. “O Partido Colorado está há 60 anos no poder, com uma estrutura muito grande. Nos últimos 19 anos, com base no clientelismo, tem um voto seguro de 700 mil pessoas”, atesta Alfredo Cantero. Na tentativa de evitar as fraudes, a campanha de Lugo pretende reunir um exército de 50 mil simpatizantes – pelo menos três pessoas para cada uma das 15 mil mesas eleitorais.
Os desafios de uma possível vitória
Se vencer, Lugo poderá ou não fazer um governo revolucionário, a depender da concepção de cada um sobre “revolução”. Limitado politicamente pela aliança que construiu e tendo nas mãos um Estado que certamente será “raspado” se os colorados forem derrotados, ao ex-bispo caberá a tarefa de combater a corrupção, implementar reformas institucionais e colocar em prática um programa de governo baseado no desenvolvimento do país e na defesa da soberania nacional. “Não podemos dizer que é um programa de governo revolucionário que aponta a modificação da estrutura, mas estamos conscientes de que o que necessitamos é concretizar a transição democrática”, resume Belarmino Balbuena, dirigente da Mesa Coordenadora Nacional de Organizações Camponesas e candidato ao Senado pela Aliança Patriótica Socialista.
Fragmentada e debilitada – são cerca de 100 pessoas assassinadas nos últimos 15 anos e 5 mil militantes sendo processados –, a esquerda paraguaia vê na vitória de Lugo a possibilidade de acumular forças, ao mesmo tempo que avalia sua capacidade de ocupar espaço assim que Lugo assumir a presidência. “Será um governo em disputa, como de certa forma aconteceu no Brasil. Sabemos que, se a disputa ocorrer apenas dentro dos marcos institucionais, vamos perder”, afirma Soares.
A maioria dos dirigentes das organizações – como Soares, Carrillo e Balbuena – estão concorrendo a cargos eletivos, e uma eventual desmobilização das lutas populares com a presença de lideranças dentro das estruturas do Estado é fator de preo¬cupação que se acrescenta à miríade de dilemas e contradições. “Isso pode chegar a ser um problema”, diz Soares. “Mas outra coisa seria não participar e deixar o campo aberto à direita. Por isso é fundamental aprender as experiências latino-americanas em que forças populares chegaram à presidência”, completa.
Outro desafio será governar um Estado dilacerado e assumir as estruturas de governo controladas, de Assunção ao interior, por políticos colorados. O Congresso, com alto grau de atribuições – medida que foi necessária no pós-ditadura –, poderá se tornar um entrave, mesmo que Lugo consiga uma maioria formal. “Vamos ter um mosaico de parlamentares que respondem a distintas visões políticas, mas que têm compromisso de respaldar o governo”, afirma o atual presidente do Congresso, Miguel Saguier, do PLRA.
“Lugo terá pouca margem de manobra”, contesta Estela Ruiz, do Última Hora. “Seus aliados majoritários vão defender a manutenção do status quo. Lugo não vai conseguir revolucionar a gestão e fazer grandes mudanças, mas a alternância em si já é uma revolução”, acredita.



No artigo

x