Ratinho , bela figura

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Magrinho, baixinho, menos de um metro e meio, aparência frágil demais, ele havia sido militante das Ligas Camponesas de...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Magrinho, baixinho, menos de um metro e meio, aparência frágil demais, ele havia sido militante das Ligas Camponesas de Pernambuco, onde foi preso depois do golpe de 1964. Barbaramente torturado, sobreviveu. Mas muitos companheiros seus morreram.
Quando dizem que no golpe de 1964 não correu sangue, sempre me lembro dos militantes das Ligas Camponesas, liderados por Francisco Julião. Em muitos casos não correu sangue mesmo. Em Sapé, na Paraíba, por exemplo, queimaram os militantes vivos. Penduravam de cabeça para baixo num galho de árvore e punham fogo embaixo. Outros, como o Ratinho – cujo nome nem sei –, foram massacrados na tortura, e depois que saíram da prisão tiveram que migrar, porque continuavam perseguidos na sua terra.
O Ratinho mudou-se para São Paulo, mais especificamente para São Bernardo do Campo, onde se tornou metalúrgico e, em 1980, ajudou a fundar o PT. Nas primeiras eleições depois da ditadura, em 1982, ele saiu candidato a deputado federal.
Sem dinheiro, os candidatos do PT saíam em caravanas de fuscas, brasílias e kombis fazendo comícios na capital e no interior. Lula era o candidato a governador do estado e ia num fusca emprestado por uma militante. Hélio Bicudo era candidato a senador, acho. Todos empenhados, alegres, sonhadores, embora duros. Bem diferente de partidos que recebiam – e outros que hoje recebem – ajuda de banqueiros e empreiteiros, mas que não têm sonhos nem militantes de verdade, apenas pessoas que ganham para fazer campanha. Nós que fazía¬mos a campanha, ao contrário, até gastávamos. Eu mesmo – não estou me gabando, muitos outros faziam isso – vivia de trabalhos precários, ganhava pouco e dava uma pequena porcentagem do meu trabalho para o partido, além de trabalhar de graça nas atividades e emprestar meu fusca velho quando precisava.
Uma caravana do PT saiu fazendo comícios pela região de Piracicaba. O primeiro foi em Americana. Ratinho, em seu discurso, falou dos companheiros das Ligas Camponesas que morreram, de outros companheiros que foram mortos na resistência à ditadura, nas perseguições que os metalúrgicos militantes sofriam em São Bernardo, e completou seu discurso dizendo que um dia os trabalhadores tomariam o poder e vingariam tudo:

– Vou ficar de sangue até a canela…

Lula e os demais participantes da caravana ficaram horrorizados. Depois do comício foram falar com ele:

– Ratinho, você não pode falar assim, em vingança. O que a gente quer não é vingar, é construir uma sociedade mais justa. Queremos fazer justiça contra os torturadores, os que assassinaram trabalhadores, mas não fazendo o mesmo que eles… – e fizeram um longo discurso na orelha dele.

Em Limeira, no comício seguinte, na hora do discurso do Ratinho ficou aquele clima tenso. E ele começou a falar dos companheiros das Ligas Camponesas mortos na tortura, dos companheiros que morreram na resistência à ditadura, nas perseguições aos operários militantes de São Bernardo do Campo… Os petistas do palanque estavam todos suando frio, esperando a conclusão do discurso, e ele concluiu assim:
– Sei o que vocês estão pensando. Vocês acham que um dia os trabalhadores vão tomar o poder e vingar tudo isso, que eu vou ficar de sangue até a canela, mas não vamos fazer isso, não.



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