Toques musicais

A visão de Julinho Bittencourt sobre música Por Julinho Bittencourt   O LIVRO ROBERTO CARLOS EM DETALHES (EDITORA PLANETA), DO JORNALISTA PAULO CÉSAR DE ARAÚJO, tem um grande defeito...

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A visão de Julinho Bittencourt sobre música

Por Julinho Bittencourt

 

O LIVRO ROBERTO CARLOS EM DETALHES (EDITORA PLANETA), DO JORNALISTA PAULO CÉSAR DE ARAÚJO, tem um grande defeito que contraria toda a preocupação do Rei em torno desta sua biografia não-autorizada. O autor absolve Roberto de todos os erros que ele possa ter cometido ao longo de sua vida. Na contramão da prática do bom jornalismo, Araújo é, acima de tudo, um fã incondicional contando a vida de seu ídolo maior.
Para ele Roberto nunca erra e, se erra, logo corrige. Se não participou da luta contra a ditadura, foi porque não tinha formação universitária, não entendia do assunto. Se abandonou essa ou aquela mulher, foi porque um amor mais forte, irresistível, o convocou, e por aí afora. Tudo é justificável.
O incrível é que o biografado se queimou com o livro. Está fazendo o possível e o impossível para tirá-lo de circulação, o que só tem aumentado as vendas do dito cujo. Mas, enfim, celeumas à parte, vale – e muito – a pena ler Roberto Carlos em Detalhes. A despeito de ser uma confissão de admiração incondicional ao Rei, a pesquisa biográfica é impecável. Muitas das entrevistas são comoventes, e a trajetória de Roberto é, de fato, uma grande história brasileira.
Desde a sua infância em Cachoeiro do Itapemirim, suas participações ainda criança em programas de rádio, o acidente com o trem que teve como conseqüência a amputação de sua perna até a chegada ao Rio, ainda adolescente. Tudo é bem contado e de forma muito emocionada. Nada na vida de Roberto foi fácil e o livro tem a virtude maior de mostrar a sua perseverança, sua fome de vencer com a música, desde sempre. Um capítulo que merece destaque é o que enfoca o amigo Erasmo Carlos. O fato de ter vivido à sombra do Rei não foi, ao contrário do que sempre pareceu, muito fácil para ele. Araújo desce ao mundo do parceiro de forma comovente, respeitosa e muito delicada.
A partir de Erasmo, o autor descreve a relação com os estilos musicais, as contribuições de cada um para as parcerias e mergulha num mundo delicioso de segredos sobre algumas das melodias mais famosas do Brasil e do mundo. Araújo desmistifica a idéia de que Roberto não passa de um ídolo fabricado, cercado de gente que trabalha por ele. A sua relação com a música brasileira tida como culta também merece destaque. As críticas e cobranças que recebia da geração de 68, como chama o autor, as influências de Chico Buarque nas suas músicas, a aproximação com Caetano Veloso, os festivais etc.
Roberto Carlos em Detalhes é um livro lindo sobre o Brasil contemporâneo, observado pela vida de um dos seus maiores ídolos. Uma obra que ajuda, de forma lúdica e apaixonada, a compreender o povo brasileiro em toda a sua afetividade e forma de ser. Um romance que conta a história de amor dos brasileiros por um cantor e vice-versa. E que Roberto, sem nenhuma razão aparente, renega.

 

TV GLOBO FEZ VÁRIOS ESPECIAIS, DURANTE A DÉCADA DE 80, QUE CHAMOU DE SÉRIE GRANDES NOMES. Todos levavam o nome inteiro do artista como título. O mais célebre talvez tenha sido ELIS REGINA CARVALHO COSTA, que mostrava a cantora em show ao vivo, feito direto, sem cortes, com sua banda tocando sem truques um repertório quase inédito e – hoje, visto de longe – repleto de clássicos.
Elis transborda todo o talento incomparável por 15 canções construídas pela e para a sua voz. Tudo o que se puder dizer ou que se tenha dito a respeito parece pouco. “Alô, Alô Marciano”, irônica e despretensiosa canção de Rita Lee e Roberto de Carvalho, vira um clássico, contrastada rapidamente com o lirismo de “Essa Mulher”, de Joyce e Ana Terra.
E é logo na quinta canção que se dá talvez um dos maiores momentos da carreira da cantora e também de toda a nossa música. Elis e César, mulher e marido, parceiros de vida e música, tocam “Atrás da Porta”, de Francis Hime e Chico Buarque. A voz e o piano caminham juntos como poucas vezes se viu ou ouviu. A canção, com suas notas e palavras que beiram a perfeição encontram a versão definitiva.
Na medida em que canta, Elis derrama lágrimas convulsivas sem alterar um milímetro as possibilidades de sua voz. Ela havia aprendido a equilibrar a razão e o pensamento, o pensamento e a ação. No final, chorando aos cântaros, é aclamada de pé, num espetáculo que mal havia começado.
No final das contas, todos os músicos, cantores e bailarinos dançam em roda a canção “Redescobrir”, de Gonzaguinha. Apesar de hoje, aos nossos olhos acostumados e abusados de tanta tecnologia, aquelas imagens parecerem frágeis, há que se louvar o espetáculo dirigido por Daniel Filho. Ele soube dar a Elis o que lhe pertencia, ou seja, a melhor tradução do talento brasileiro. Junto dela pulsava um tempo de genialidades e lutas que ela nos trouxe como ninguém. No fim, fica a sensação melancólica de que força igual, de tão rara, talvez não venha a nos pegar ainda vivos. Seria sorte demais para a mesma era.

 

ENTRE OS VÁRIOS PRODUTOS LANÇADOS PARA COMEMORAR OS 80 ANOS DE TOM JOBIM, merece destaque a caixa com três DVDs TOM JOBIM – MAESTRO SOBERANO, dirigida por ROBERTO DE OLIVEIRA e lançada pelo selo Biscoito Fino. Trata-se da carreira do maior compositor popular brasileiro de todos os tempos vista por seus três aspectos mais relevantes: a Bossa Nova, a ecologia e a cidade do Rio de Janeiro.
Os filmes são todos pontuados por duas apresentações de Tom Jobim, uma no Rio, em 1985, e outra em São Paulo, em 1999, com a sua Banda Nova “em família”, a responsável pela sonoridade definitiva das suas canções. No centro de tudo está Tom Jobim, sua verve, simpatia e canção. Um artista que soube enxergar e cantar o Brasil como ninguém. E que por isso mesmo, hoje, com seu chapéu panamá, charuto e sorriso, talvez seja uma das nossas imagens mais perfeitas.



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