Que não se roube a Salvador Allende seu último gesto

No último dia 11 de setembro, no Twitter, em meio às memorializações do 38º aniversário do golpe militar que derrocou o...

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No último dia 11 de setembro, no Twitter, em meio às memorializações do 38º aniversário do golpe militar que derrocou o presidente chileno legitimamente eleito, Dr. Salvador Allende, causou-me estupefação a quantidade de perfis que reiteraram a falsidade histórica de que Allende teria sido “assassinado”. Creio entender a lógica que regiria esse tipo de gesto, mas sempre acreditei que quando se falsifica a verdade histórica supostamente em favor de um projeto político, sacrifica-se não só aquela, mas também este. A mentira acerca do passado nunca serviu a oprimido nenhum. Pouparei o leitor da lista de profissionais conhecidos que repetiram a falsificação, mas basta dizer que o perfil oficial da TeleSur foi um deles. Passo à reconstrução dos momentos finais de Allende e a sugestões para o leitor que esteja interessado em se aprofundar no tema.

A recente autópsia que selou o fato veio apenas oficializar o que já era de conhecimento dos historiadores do período, das seis testemunhas diretas (quatro delas sobreviventes), da família Allende, da última leva de pessoas que deixou La Moneda no começo da tarde de 11/09/73 e, no fundo, da própria fração da esquerda que se dedicou a disseminar a falsidade, sem entender a profunda significação do gesto do Dr. Allende. Ainda nas memorializações deste ano, era possível observar pseudônimos no Twitter brasileiro dedicando-se a difamar o Dr. Patricio Bustos, diretor do corpo de 12 forenses, 7 chilenos e 5 estrangeiros, que confirmou o já sabido. Entre essas tentativas de difamação, havia a “descoberta” de Dr. Bustos recebera “dinheiro da Fundação Ford”, logo seguida da requentada, velha falsidade de que “a Fundação Ford repassa dinheiro da CIA”. Às vezes a esquerda se parece bastante à direita.

Naquela que ainda é a fonte mais exaustiva acerca do que aconteceu em La Moneda entre as 7:00 e as 15:00 de 11 de setembro, El último día de Salvador Allende, escreve o médico Óscar Soto, que acompanhou o presidente durante essas horas: “Durante muitos anos polemizou-se sobre o fim da vida de Allende. Os que o conhecíamos sabíamos com certeza que o Presidente não ia abandonar o país, mas também não seria prisioneiro dos golpistas. Ele tinha muito claro que não toleraria humilhações, por sua dignidade pessoal e pelo cargo que ocupava. Ele sempre disse que só morto sairi antecipadamente da Presidência, cargo para o qual havia sido eleito de forma democrática. Naquela manhã, as Forças Armadas fizeram todo o possível para eliminar fisicamente Allende e aqueles que o acompanhávamos. Não se ataca um edifício com tanques, veículos de combate, forças terrestres e bombardeio massivo para preservar as vidas dos que lá se encontram. Por outro lado, a revelação, alguns anos depois, do diálogo mantido pelos conjurados naquela manhã deixa a descoberto o seu objetivo real: eliminar Allende oferecendo-lhe um avião que nunca chegaria a seu destino. Ele, sabendo do risco de cair ferido ou de ser feito prisioneiro, executou uma decisão tomada com antecedência, com a qual demonstrou, uma vez mais, a faceta mais destacada de sua personalidade: a consequência. Allende não era um político que afirmasse uma coisa e fizesse outra […] A opção pelo autosacrifício não desmerece a decisão de Allende. Bem-intencionadas opiniões difundiram a versão de seu assassinato pelas forças militares. Não foi assim. Seu gesto continuará sendo digno e heroico. O consequente de seus atos, um legado para a história” (pags. 98-99).

A reconstrução, feita por Óscar Soto e outros protagonistas dos embates daquela manhã, só reforça a dignidade do gesto de Allende. No domingo, dia 09, o Presidente recebe, em sua residência da Rua Tomás Moro, o Secretário Geral do PC, Luis Corvalán, e um membro da Comissão Política do Partido, Orlando Millas. Eles comunicam ao Presidente o apoio à sua proposta de um plebiscito que esvaziasse as manobras golpistas já então visíveis. Enquanto isso, no Estádio Chile, o PS, membro da Unidade Popular e, naquele momento, bem mais combativo que o PC, realiza uma multitudinária concentração marcada pelo discurso de seu líder Carlos Altamirano, que convocava o povo a resistir ao golpe. Na tarde de domingo, chegam à residência de Allende os generais Augusto Pinochet e Orlando Urbina, respectivamente comandante em chefe e inspetor geral do Exército. Ao receberem a notícia de que o governo convocaria um referendo, os dois—segundo testemunho dado por Allende no dia seguinte—ficaram lívidos e sem reação, gaguejando perguntas sobre se a decisão era mesmo definitiva. Os traidores teriam que antecipar o golpe.

Ao longo da noite do dia 10, lideranças da Unidade Popular recebem notícias de movimentações de tropas. Juan Ferrada, secretário do Comitê Regional Sul do PS na comuna de San Miguel, no sul de Santiago, percebe um movimento estranho de tropas e avisa que oficiais suspeitos de simpatias pelo governo da Unidade Popular estão sendo enviados a suas casas sem armas. A reunião dessa noite na residência presidencial da Tomás Moro é tensa e Augusto Olivares, diretor do Canal 7 de TV, e Juan Enrique Garcés, sociólogo e assessor de Allende, decidem pernoitar com o presidente. Eles seriam duas das 85 pessoas que estiveram em algum momento, ou durante todo o tempo, no palácio presidencial La Moneda junto com Allende: eram 17 funcionários do governo, 14 jornalistas ou assessores, 8 médicos, 13 membros da secretaria, 7 investigadores ou oficiais leais a Allende, 26 membros de sua guarda civil e suas duas filhas, Beatriz e Isabel.

Às 6:00, a Armada já havia tomado Valparaíso e Viña del Mar e submetido a prisão domiciliar o Almirante Montero Cornejo, respeitado pelos seus subalternos e leal ao governo. Às 7:20, depois de tentar sem sucesso estabelecer contato com oficiais, Salvador Allende se dirige a La Moneda portando a metralhadora AK que lhe presenteara Fidel Castro. Às 7:55, ainda sem notícia da dimensão da insurreição, Allende transmite um comunicado pela Rádio Corporación, no qual relata a sublevação no litoral e convoca os trabalhadores a ocuparem seus postos com calma e sem aceitar provocações. Às 8:20, faz outro comunicado, em que reconhece que a movimentação golpista é maior que a relatada anteriormente, já que também ao redor de Santiago, em San Felipe e Los Andes, há movimentação de tropas.

Pouco depois desse comunicado, vem a primeira amostra da dignidade infinita de Allende. O comandante aéreo Roberto Sánchez telefona com um recado do general Van Schowen, que oferecia um avião para que o Presidente deixasse o país com seus assessores e familiares. A resposta de Allende é contundente: “Comandante, diga ao general Van Schowen que o Presidente do Chile não foge de avião; que ele saiba comportar-se como soldado, que eu saberei cumprir como Presidente da República”. Anos depois, a aparição da gravação da conversa mantida pelos golpistas Augusto Pinochet e Patricio Carvajal provou que o plano dos militares era colocar Allende num avião que jamais chegaria a destino. Eles voltariam a fazer essa oferta várias vezes naquela manhã, inclusive depois de inciado o bombardeio. Allende a recusaria sempre com a mesma dignidade.

Entre as oito e as nove horas, cai a última unidade militar leal a Allende. Os carabineiros, cujo diretor geral, José María Sepúlveda, havia reiterado naquela mesma manhã seu compromisso com a ordem institucional, abandonam suas posições de defesa do palácio presidencial. As forças golpistas haviam ocupado a Central de Telecomunicações dos carabineiros, responsável pela emissão de ordens. A derrota militar, portanto, já está selada às nove da manhã.

Os três comandantes militares do governo voltam a visitar Allende, agora para oferecer a possibilidade que ele entregue seu cargo e salve sua vida. Mais uma vez Allende fulmina: “As Forças Armadas romperam com sua tradição. Não me renderei nem renunciarei. Os Srs. fiquem em liberdade de ação para reintegrar-se a suas instituições”. O comandante Roberto Sánchez, da Força Aérea, é descrito por todas as testemunhas como o mais digno. Ao receber a negativa de Allende, ele se oferece para ficar a seu lado no palácio. Allende nega a oferta. Na saída, o comandante Sánchez diz ao Dr. Óscar Soto: “vou ver se há alguma unidade leal”. Não havia.

Enquanto isso, os poucos membros da Guarda Civil tomam posições de combate nas janelas da Moneda e trocam tiros com o enorme aparato militar que tenta invadir o palácio vindo da Rua Agustinas. No momento em que começam a se incendiar os arquivos da secretaria da Presidência, o Doutor Allende, calmo e sereno, ordena que se resgate a Ata da Independência do Chile. A transmissora da Rádio Corporación já havia sido bombardeada e será pela Rádio Magallanes que Allende fará seu último, antológico pronunciamento: “ante estes fatos, só me cabe dizer aos trabalhadores: eu não vou renunciar. Pagarei com minha vida a lealdade do povo”.

Às 10 da manhã, já haviam saído do palácio presidencial os últimos carabineiros, sem armas e portando bandeiras brancas. Essa é a razão pela qual havia no palácio muito mais armas do que pessoas capazes de operá-las. Enquanto a Guarda Civil ainda resistia, Allende convoca todos ao segundo andar. Fala com serenidade: estão todos desobrigados de defender o palácio. Os que não sabem manejar armas devem retirar-se, salvar suas vidas, pensar nas famílias. Mas ele permanecerá. Depois de suas palavras e de um longo silêncio, os assessores, jornalistas, médicos e familiares que o acompanham, às lágrimas, cantam o hino do Chile. Isabel ainda se lembra de exigir que se destruam todas as fotos de seus filhos: “evitemos a perseguição que eles sofrerão; assim será o fascismo”.

Allende passa a tentar que as mulheres salvem suas vidas. Todas, sem exceção, exigem permanecer junto a seu amado presidente. Beatriz, sua filha, está nos últimos meses de sua segunda gravidez. Allende se comunica com o golpista Carvajal: “exijo um veículo protegido para que se salvem as vidas das mulheres. Apelo à sua honra de homem”. Como depois ficou provado, eram falsas as afirmativas dos militares de que esse pedido tivesse sido atendido. Pelo sótão, em fila, as mulheres se retiram ante os apelos de Allende. Uma conversa parecida ocorre com Garcés, assessor da Presidência. Ele quer permanecer com o Presidente. Allende o convence que não há ninguém melhor que ele para relatar todo o processo vivido pela Unidade Popular. A mesma interação acontece com a equipe de médicos. O mais enfático é o Dr. Patricio Guijón: “Eu fico. Se alguma vez na vida posso demonstrar que sou homem, é agora”.

O bombardeio aéreo começa por volta de 11:55. Óscar Soto testemunha que, vinda do sul, a aviação bombardeia o palácio pelo menos oito vezes. Com a explosão das bombas, o edifício começa a se incendiar. Um pouco depois, acontece no palácio o primeiro suicídio: Augusto Olivares, jornalista da Televisão Nacional, se retira a um pequeno quarto do primeiro andar e dispara contra o próprio crânio com sua pistola. Cuevas, Quiroga e outros ainda o encontram com vida. Allende pede um minuto de silêncio em sua homenagem.

Allende fica realmente afetado pela primeira vez quando chega a notícia de que a aviação também bombardeou a residência presidencial da Rua Tomás Moro, onde se encontra sua mulher, Hortensia. Depois do golpe e da morte de Allende, saber-se-ia que ela conseguiu escapar para a Embaixada do México. Mas, naquele momento, a única notícia que chegara ao palácio era do ataque aéreo.

Todo o grupo que resta está reunido com Allende no segundo andar quando a porta da Rua Morandé, 80, é derrubada por cerca de vinte carabineiros. Allende, sem hesitar, ordena a todos que desçam sem armas, porque ele será o último. Nesse momento, Allende se retira ao quarto conhecido como Salão da Independência. Os últimos que descem ouvem o disparo e, logo depois, o grito de Enrique Huerta: “Allende morreu! Viva o Chile!” Guijón e Pincheira voltam e veem Allende com a metralhadora entre as pernas (um pseudônimo no Twitter falsificava a verdade histórica ironizando: “esse Allende tinha o braço longo pra se matar com um tiro de metralhadora no crânio, hein?”) e com o rosto inclinado para a direita. É Guijón quem retira a metralhadora, enquanto Arturo Jirón, o último a descer, observa a cena da porta.

Durante anos, Patricio Guijón, o único entre as últimas testemunhas que teve a coragem de relatar a verdade, foi difamado e vilipendiado. Tempos depois, José Quiroga, pedindo perdão ao amigo, confirmá-lo-ia em entrevista a La Opinión, seguindo-se depois os outros, inclusive o autor do relato mais detalhado, Óscar Soto. Em 2000, o intelectual argentino Federico Galende realizaria, na Revista de Crítica Cultural Chilena, uma entrevista exaustiva com o ex-inspetor da Polícia de Investigações, Juan Seoane, que confirmaria a história com detalhes do ocorrido do lado de fora de La Moneda, onde os golpistas já iniciavam sua rotina de violência.

Salvador Allende defendeu seu povo e seu mandato até o final. Cumpriu com a promessa de que não renunciaria nem se renderia. Despediu-se de todos os seus colaboradores de cabeça erguida e salvou todas as vidas que pôde. Recusou todas as ofertas dos golpistas de rendição em troca de sua honra. Não aceitou ser feito de troféu ou instrumento de chantagem. Tomou a única atitude que cabia, anunciada, aliás, em seu último pronunciamento, quando jurou pagar com sua vida a lealdade do povo. Que os falsificadores que acreditam em mentir por conveniência para ficar ao lado de um “companheiro” aprendam, com a infinita dignidade do Doutor Allende, o respeito pela verdade.

Este artigo é parte da edição de Outubro da Revista Fórum, já nas bancas e em breve disponível online neste link. Foto: daqui.



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12 comments

  1. Daniel Nascimento Responder

    E branquinho escrevendo livro pra desmoralizar Allende classificando-o de antissemita e homofóbico. E pior: muita gente jovem compra e endossa. Consola-me saber que a história sempre se reafirma e que, para tipos como esse, só resta mesmo a desqualificação da pessoa.
    Bela e intensa narrativa mestre.

  2. patricio salgueiro Responder

    Allende tomou a decisao de ele proprio tirar a vida, para nao deixar q outros o fizessem. Mesmo assim ele tomou essa atitude extrema forçado. Ou seja de forma indireta foi “assassinado” pois foi levado a isso.

    1. Idelber Responder

      Quem falou em assassinato de Allende não quis dizer isso e não colocou aspas. Disse que ele foi assassinado literalmente. Não tergiversemos. A verdade importa.

  3. Bosco Responder

    Sempre o Idelber para colocando as coisas nos seus devidos lugares. É bom saber que podemos contar com o vigilante Idelber.

  4. joêzer Responder

    Na mosca, como sempre, Idelber.
    Mal emendando: concordo que a esquerda às vezes se parece com a direita, como você escreveu. Mas fico achando que pensar assim soa parecido com a história daquela mãe indignada queixando-se ao marido: “Nosso filho tá tão mal-educado. Está parecendo o filho do vizinho!” rs
    abraço

  5. LHR Responder

    Mestre Idelber, recomenda algum livro em português sobre Allende e esse período?

    1. Idelber Responder

      Não. Teria que ler em espanhol mesmo. Sobre o dia final, o melhor livro é esse, de Óscar Soto.

      1. LHR Responder

        Obrigado :)

  6. Luis Henrique Responder

    Ahn, Idelber, ao meu conhecimento, a Telesur não mentiu.

    1. Idelber Responder

      O perfil no Twitter mentiu. É só dar uma conferida lá.

      1. Luis Henrique Responder

        Ahn tá. É que eu não acompanho nada que rola no Twitter. Sou antiquado mesmo :)

  7. João Aguiar Responder

    Idelber, vc é duro e preciso. Só não concordo em dizer que a esquerda e direita são a mesma coisa ao mentirem, no caso de Allende faltou a compreensão de “quando se falsifica a verdade histórica supostamente em favor de um projeto político, sacrifica-se não só aquela, mas também este.” Esta falsificação talvez tenha sido pelo duplo equívoco na visão moralista e individual do suicídio de Allende, um ato heróico e histórico.


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