Carta aberta de historiadores argentinos sobre o Instituto Dorrego

Nos próximos dias, circulará na imprensa uma carta aberta de alguns historiadores argentinos, aos quais se somou também este blogueiro, expressando preocupação com a fundação do Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Iberoamericano...

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Nos próximos dias, circulará na imprensa uma carta aberta de alguns historiadores argentinos, aos quais se somou também este blogueiro, expressando preocupação com a fundação do Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Iberoamericano Miguel Dorrego. No Brasil, o ato foi objeto de matérias sensacionalistas na Globo News e na Revista Veja, destinadas unicamente a desferir um ataque rasteiro contra Cristina Kirchner. A matéria da Veja, em particular, contém tantos erros que não valeria a pena elencá-los aqui. Como vivemos, no entanto, num período em que os simplismos da mídia parecem fadados a justificar simplismos reativos em muitos críticos da mídia, me pareceu que valia a pena traduzir e divulgar o documento aquí, para sublinhar o fato de que também na historiografia independente o ato foi recebido com preocupação.

Antes disso, cabem dois esclarecimentos: na Argentina, a palavra “revisionismo” tem um sentido bastante preciso. Ela designa a escola historiográfica que, desde os anos cinquenta, questionou a versão dominante acerca do século XIX, segundo a qual as guerras civis teriam expressões de um antagonismo entre ditadores (Facundo, Rosas) e democratas (Sarmiento, Mitre). O revisionismo reescreve essa história para enfatizar os vínculos populares dos caudilhos e os compromissos dos liberais com o projeto dominante, de inserção da Argentina no capitalismo global como sociedade agro-exportadora e sócio menor. “Revisionismo” não é, portanto, uma invenção de Cristina Kirchner. Ao contrário do que afirma a matéria da Revista Veja, Cristina não “quer transformar” a historiografia em campo de batalha política. Na Argentina, mais que em qualquer outro lugar de que eu tenha notícia, a historiografia sempre foi um campo de batalha política, muito especialmente desde os anos cinquenta.

Mas isso não invalida o fato de que a fundação do Instituto, nos termos em que ela se deu, é, sim preocupante. Para esclarecer, traduzo abaixo a carta assinada inicialmente por Mirta Zaida Lobato, Hilda Sábato e Juan Suriano, três historiadores respeitadíssimos no país. Essa carta ainda está recebendo assinaturas de outros estudiosos argentinos. A Fórum divulga o documento em primeira mão.

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Sobre a criação do Dorrego
O Poder Executivo Nacional acaba de criar, por decreto, o Instituto Nacional de Revisionismo Argentino e Iberoamericano Manuel Dorrego. Como se afirma no preâmbulo da medida, o seu propósito “será estudar, pesquisar e difundir a vida e a obra de personalidades e circunstâncias destacadas da nossa história que não receberam o reconhecimento adequado em um ambiente institucional de natureza acadêmica, de acordo com as rigorosas exigências do conhecimento científico”. Entre estas figuras, se incluem Dorrego, San Martín, Guemes, Artigas, Rosas, Yrigoyen, Juan Perón e Eva Perón, além de alguns personagens de outros países latino-americanos.
Acrescenta-se que o Instituto se dedicará à “reivindicação de todas e todos que … defenderam o ideário nacional e popular ante o embate liberal e estrangeirizante dos que têm sido … seus adversários”. E, segundo o artigo 1o, se revisará “o lugar e o sentido que lhes foram concedidos pela história oficial, escrita pelos vencedores das guerras civis do século XIX”. Ante esta medida e ante os motivos que a fundamentam, os abaixo assinados expressamos nossa profunda preocupação em torno aos seguintes pontos:

A primeira observação revela um absoluto desconhecimento e uma desvalorização preconceituosa da ampla produção historiográfica que ocorre no contexto das instituições científicas do país– universidades públicas e privadas, organismos dependentes do CONICET, entre outros–, onde centenas de pesquisadores trabalham com a história, seguindo as diretrizes que impõe essa disciplina científica, mas também respondendo a diversas perspectivas teóricas e metodológicas. Nos últimos 30 anos, a historiografia argentina produziu conhecimento abundante sobre diferentes períodos, processos e figuras, incluindo todas aquelas mencionados pelo decreto como “negligenciadas”.

Com todo o peso do Estado, o Instituto foi criado para promover um discurso oficial sobre o passado. Ele resgata uma corrente específica, o revisionismo, que em meados do século XX ofereceu interpretações novas sobre a história da Argentina mas que, como a corrente “liberal”, não satisfaz os critérios atuais que norteiam a disciplina. Esta desenvolveu instrumentos de análise complexos, que resistem ao reducionismo próprio dessas correntes, cujo objetivo central era a construção de heróis e vilões. Esta abordagem maniqueísta, que o Instituto adota, não admite a dúvida e a interrogação, que constituem as bases para construir, sim, “conhecimento científico”.

Através desta medida, o governo nacional revela sua vontade de impor uma maneira de fazer história que responda a uma única perspectiva. Assim, desconhece-se não só como funciona essa disciplina científica, mas também um princípio fundamental para uma sociedade democrática: a vigência de uma pluralidade de interpretações sobre o seu passado.

O Poder Executivo do momento tem o direito de apresentar sua própria visão do passado do país, mas criar uma instituição estatal cuja finalidade é impor uma forma ultrapassada de fazer história e uma visão maniqueísta desse passado constitui um fato grave que, sem dúvida, conspira contra o desenvolvimento científico e a circulação de várias perspectivas historiográficas, ao mesmo tempo em que se move na direção da imposição de um pensamento único, uma verdadeira história oficial.

Mirta Zaida Lobato, Hilda Sábato e Juan Suriano.



No artigo

21 comments

  1. Karina Responder

    Idelber,

    Não concordo com a opinião expressada na Carta. No fundo, o que se pretende é impor a visão de que há uma historiografia imparcial, isenta de ideologia, que é a que o Estado deve promover em seus currículos educativos.

    Tal visão é uma grande falácia e foi alimentada, desde sempre, pelo Estado liberal-conservador argentino, que a reproduziu em seus manuais durante longos anos. Essa não-ideologia ideológica, falaz e colonialista, é a que nos levou à ruína como sociedade.

    Há uma historiografia do Estado-colônia e outra do Estado Independente. Essa é a que devemos construir na América Latina, e o Instituto é apenas um passo nesse sentido. Essa é a que a Argentina está buscando para criar cidadãos comprometidos com sua própria história.

    Ninguém está a censurar ou reprimir opiniões outras, o que se pretende é, simplesmente, ter uma política de Estado diferente do relato liberal-conservador, de maneira que a sociedade argentina tenha instrumentos para pensar o passado e construir o futuro.

    E mais, a historiografia é um campo de batalha em qualquer lugar. No Brasil também, porém nele estamos perdendo, já que a histografia brasileira, em grande parte, limita-se a reproduzir fatos selecionados segundo a conveniência dos mais fortes.

    Tanto a omissão de inúmeros fatos como a falta de análise histórica que impera no currículo do Brasil são demonstrações cabais do nosso fracasso, até o momento, em construir um relato libertador. Tomara que um dia haja um Instituto como o Manuel Dorrego no Brasil.

  2. Silvio Pedrosa Responder

    Karina,

    Permita-me discordar da sua intervenção. A despeito de não ser (e nem de ter a pretensão de ser, mesmo num futuro remoto) especialista na história e historiografia argentina, não posso deixar de notar que sua intervenção possui muitos pontos controversos e mesmo reducionistas, proporcionando um diálogo muito equivocado da atual historiografia brasileira (com a qual estou mais familiarizado)

    Primeiramente, não há qualquer erro na sua afirmação da historiografia como campo de luta ideológica. Todavia, percebo que nem os historiadores argentinos que subscreveram a carta, nem Idelber, manifestam alguma oposição a isso. De fato, Idelber chega mesmo a assinalar isso de forma literal, quando diz que “a historiografia sempre foi um campo de batalha política”.

    Em segundo lugar – e por não possuir embasamento para confrontar sua descrição da política educacional do Estado argentino para o ensino de história, embora a considere no mínimo reducionista, em vista da percepção de que a ação estatal, não é, tal e qual sua descrição um elemento demiúrgico -, gostaria de comentar (e discordar) de suas críticas à historiografia brasileira.

    Inicialmente a afirmativa de que “a histografia brasileira, em grande parte, limita-se a reproduzir fatos selecionados segundo a conveniência dos mais fortes” revela, apenas, profundo desconhecimento da produção historiográfica brasileira desde a década de 70. Desde então – para não citarmos intelectuais como Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda que individualmente produziram obras de grande valor desde, pelo menos, a década de 30 – os historiadores brasileiros, através de influxos teóricos e metodológicos diversos (como das várias gerações dos Annales franceses, da história social marxista britânica, da micro-história italiana, entre outros exemplos), vêm reconstruindo a história do Brasil a partir de investigação empírica intensiva, debatendo seus próprios pressupostos político-acadêmicos e fornecendo novas explicações globais para períodos importantes de nossa história.

    O que me parece ocorrer na perspectivação simplificadora por parte da iniciativa do governo argentino – e que é análoga à recente nova deformação do mercado editorial brasileiro, a falácia do “Guia Politicamente Incorreto” – e, me desculpe, também característica da sua intervenção é a ideia de que a solução do problema está em trocar de lugar com o adversário. Dessa forma, à institucionalização de uma certa narrativa ‘liberal’ da história da Argentina opõe-se uma história ‘populista’. Como se vê o resultado é a (re)criação de uma história oficial.

    Por fim – e voltando ao caso do Guia -, a iniciativa do governo Kirchner se revela uma estratégia de construção de hegemonia simbólica semelhante àquela perpetrada pela grande mídia brasileira (mais fortemente materializada pela Editora Abril) que se destina a confrontar a ‘história ensinada nas escolas’, a ‘história oficial’ que estaria atravessa pela ideologia de esquerda, apresentando como alternativa um arremedo de reconstrução histórica claramente posicionada à direita. O problema crucial, me parece, é que tanto o governo argentino, quanto a grande mídia brasileira possuem meios de empreender essa batalha de forma massiva, enquanto os historiadores o fazem, ainda que de forma coletiva, de maneira acanhada, seja em função do mercado editorial diminuto (caso brasileiro ao menos, não conheço a situação argentina) ou da própria pulverização que a atual divisão do trabalho historiográfico impõe.

    Se o diagnóstico a respeito da historiografia brasileira, por parte da direita brasileira, é amplamente questionável (reinando muito mais, na minha modesta opinião, um multiculturalismo liberal que uma historiografia de orientação marxista), cabe ao pólo oposto na luta ideológica a tarefa de contra-argumentar, demonstrando, por exemplo, que o famoso “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, ancora-se, em boa medida, numa simplificação grotesca da… historiografia brasileira (nem tão) atual.

    A intromissão do Estado poderia, portanto, criar condições de maior divulgação da produção historiográfica especializada, estimulando o mercado editorial e a leitura. Da mesma forma, a redução do poder dos grandes grupos midiáticos na conformação da opinião pública brasileira também seria um passo importante, pois permitiria ambiente mais propício a debates que incorporem diferentes perspectivas acadêmicas e políticas, favorecendo assim o pluralismo. Certamente é essa postura que os historiadores argentinos que assinam a carta (bem como eu) esperam de um Estado governado por uma coalizão progressista.

  3. Karina Responder

    Prezado Silvio,

    Em nenhum momento neguei que, para o Idelber, “a historiografia sempre foi um campo de batalha política”. Somente quis salientar que, em qualquer lugar, a historiografia é um campo de batalha com a mesma intensidade. Em alguns lugares, essa intensidade decorre de um conflito explítico com o relato liberal-conservador. Em outros, da violência implícita provocada pela hegemonia desse relato, que salta aos olhos de qualquer bom observador. Minha intenção não foi polemizar sobre um ponto pacífico para todos, mas somente fazer uma observação.

    Reconheço a existência de uma historiografia crítica brasileira e jamais neguei tal afirmação, muito longe de mim fazê-lo. Porém, na minha opinião, os alcances dessa historiografia são insuficientes para um projeto emancipador. Ela não está nos livros das escolas (onde a história é a reprodução de fatos pouco analítica sobre a qual falava), nos canais de TV, nas mesas de discussão das famílias e amigos, não é foco de uma política de Estado reflexiva, e é disso que precisamos. Que fique claro: não sou historiadora e não pretendo discutir sobre produção acadêmica. Sou cidadã latino-americana, estou falando sobre a construção das bases que precisamos para a nossa segunda independência.

    Não conheço o Guia que você menciona, mas, mesmo assim, farei alguns comentários sobre outras questões que você tratou.

    Primeiramente, ninguém quer trocar de lugar com o adversário. Fazê-lo, na Argentina, seria sinônimo de persegui-lo, eliminá-lo e proscrevê-lo, o que absolutamente não é o caso. O Instituto não pretende censurar ou perseguir nenhum relato histórico. De fato, dentro dele há diferentes historiadores com opiniões diversas, porém todos unidos no campo nacional e popular (que não é “populista”, como você diz, termo que, ao menos para mim, carece de significado). O objetivo é, simplesmente, criar uma instância de debate/criação/reflexão sobre algo tão importante como a própria história do país. Não se pretende impor um relato maniqueísta como o liberal-conservador, muito pelo contrário. O objetivo é refletir sobre alguns personagens (muitos vendidos pelo liberal-conservadorismo como mocinhos, outros como bandidos, ao melhor estilo Far West), resgatar sujeitos esquecidos pela historiografia liberal-conservadora (indígenas, mulheres, trabalhadores), pensar sobre as causas e consequências de fatos históricos importantes, sobre os porquês que conduziram à realidade atual.

    Parece ser essa uma área em que, segundo interpreto, você não considera que o Estado deveria estar presente. Pareceria ser que somente acadêmicos e historiadores isolados podem pensar sobre história. Ninguém aqui disse que eles não possam, mas estamos a falar de coisas diferentes. Não é a História um assunto importante do qual deveria se ocupar uma sociedade em processo de emancipação? Por que não pode ser matéria de apoio institucional, então? Você diz que “a intromissão do Estado poderia criar condições de maior divulgação da produção historiográfica especializada, estimulando o mercado editorial e a leitura”. Acho que o Instituto servirá para isso e muito mais: também para criar uma instância de reflexão, diálogo e debate, o que é muito importante também. [Só uma observação: não acho que se trata de uma intromissão, mas de uma intervenção legítima de qualquer Estado emancipador].

    Não estamos a falar de um Estado que censura e persegue opositores, mas de um Estado que abre seus canais de participação e interpreta a necessidade de uma revisão profunda das bases sobre as quais foi construído, com o objetivo de promover uma sociedade adequada aos padrões do Estado Democrático de Direito. Esse Estado que foi construído por meio de um processo colonizador, genocida e oligárquico (e cujo relato histórico até o momento foi feito à base disso) quer se refundar sobre outras bases. E, para isso, precisamos não só de construir uma economia diferente, mas também uma cultura e uma história diferentes.

    Sei que algumas coisas que estou dizendo serão difíceis de intepretar sem contexto, por isso os convido a visitarem a Argentina. Certamente, não vão se arrepender: a etapa que o país está atravessando é de revolução cultural. Confio plenamente que esse é o caminho para um futuro de emancipação e democracia. Se não, vejam os casos da maioria dos países que se negaram a fazê-lo, reprimindo e ocultando sua história, e que hoje estão submersos em um clima cada vez mais autoritário.

    1. João Paulo Responder

      Karina,

      Eu queria saber qual é este “relato liberal-conservador” da história argentina e quem são os responsáveis hoje por divulgá-lo. Até onde eu sei o que é hegemônico há bem uns vinte anos é uma historiografia que está longe de subscrever uma narrativa que exalte heróis, que seja triunfalista quanto a um projeto agro-exportador, nem mesmo que trate o século XIX ou XX como o de um progresso benigno e benéfico, ou que retire as classes populares da história. Ao contrário, temas como o genocídio da conquista da Patagônia, a ascenção do movimento operário, os aspectos autoritários e oligárquicos dos principais pensadores do XIX, a forte presença de movimentos de direita proto-fascistas, a violência e a lenta rota tortuosa com que se formou o estado-nacional etc. etc. são a tônica, desde Tuli Halperin Donghi, creio eu.

      Agora, se do que se está falando é do ensino público, bem, aí é outro assunto – e parece que o tal instituto não trata disso.

  4. Ignez Responder

    O que me dá maior prazer é ler uma discussão de nível, como essas entre Karina e Silvio Pedrosa. Gostei muito da tréplica (?) de Karina. Fecho com ela. Oh! coisa boa essa liberdade midiática!

  5. Javier Responder

    Seguramente este artículo de “La Nación” de Buenos Aires, que envío como uruguayo, eterno tributario del autoritarismo peronista, puede aclarar algunas cosas…

    http://www.lanacion.com.ar/1428824-el-estado-impone-su-propia-epica

  6. Idelber Responder

    Demolidor, o artigo de Luis Alberto Romero.

  7. Karina Responder

    Prezados,

    Na minha humilde opinião, não deveríamos sustentar um debate tão sincero como o nosso com argumentos de indivíduos cuja intenção principal é manter os privilégios que sempre tiveram, sejam eles econômicos, acadêmicos ou políticos.

    Por outro lado, fico muito feliz que o La Nación, o jornal da oligarquia agrária e agroexportadora argentina, fundado no século XIX pela família Mitre (artífice do relato liberal-conservador argentino), patrocinador de todos os golpes militares do país desde então (e olha que foram seis), do bombardeio da Praça de Maio e do genocídio de povos originários, trabalhadores e dos 30.000 companheiros detidos-desaparecidos da última ditadura — a maioria deles os “autoritários” acima mencionados –, seja hoje o estandarte da liberdade democrática.

    Há coisas que se explicam muito melhor com os fatos do que com a abstração. Como dizia Perón, “la única verdad es la realidad”.

  8. Idelber Responder

    Caríssimos, vamos colocar alguns pingos nos i’s.

    Eu sou um apoiador do governo de Cristina Kirchner. Na verdade, não conheço nenhum apoiador de Cristina dentro da historiografia argentina (e eles são muitos) que tenha aceito defender esse instituto, nos termos em que ele está colocado. Mesmo no grupo dos intelectuais mais próximos ao kirchnerismo (digamos, o grupo de Carta Abierta), o mal estar é enorme. Não é pra menos.

    1) O decreto menciona “estudar, pesquisar e difundir a vida e a obra de personalidades e circunstâncias destacadas da nossa história que não receberam o reconhecimento adequado em um ambiente institucional de natureza acadêmica” como “Dorrego, San Martín, Guemes, Artigas, Rosas, Yrigoyen, Juan Perón e Eva Perón”. Para qualquer pessoa que tenha a mais vaga noção do que é a historiografia argentina, a ideia de que Rosas, Yrigoyen ou Eva Perón (para não falar de Juan) são figuras que não “receberam o reconhecimento adequado” ou que foram “negligenciadas” (palavras do decreto) é algo que raia o cômico. Vários anos de leitura seriam necessários para dominar a bibliografia secundária sobre essas figuras. Elas foram abordadas não só segundo o método que era dominante, o liberal, mas também sob a visão chamada revisionista e muitas outras (marxistas, freudianas, analíticas, fenomenológicas etc.).

    2) A oposição entre um discurso “dominante” e outro “dominado”, na historiografia de hoje, não faz o menor sentido. A historiografia argentina — das melhores e mais plurais da América Latina — se pauta por uma multiplicidade de métodos, abordagens, discussões, dentro das quais há uma miríade de visões diferentes. Dizer que há “uma historiografia do Estado-colônia e outra do Estado Independente”, num país que produziu um Túlio Halperín Donghi, é uma simplificação rasteira até para padrões do ensino médio.

    3) Dizer que “a historiografia brasileira, em grande parte, limita-se a reproduzir fatos selecionados segundo a conveniência dos mais fortes” demonstra mastodôntica ignorância do trabalho de várias gerações de historiadores brasileiros, de Caio Prado Jr. a João Reis, de Emília Viotti da Costa a Luiz Felipe de Alencastro, passando por dezenas e dezenas e dezenas de outros. Não se insulta uma disciplina assim, sem conhecimento de causa.

    4) O Instituto não se propõe a fomentar o trabalho de historiadores que, dentro das pautas definidas pela disciplina, e segundo critérios estabelecidos pelos próprios pares, se dediquem a pesquisar quaisquer aspectos da história argentina. Se fosse isso, ele receberia os aplausos dos profissionais do campo. O decreto que funda o instituto especificamente diz que vai promover um tipo de historiografia — a saber, e pior, um tipo que nem existe mais! A chamada história revisionista foi importantíssima no seu momento (os anos 50 e 60), questionou vários mitos liberais e sacodiu a disciplina, mas essa oposição entre “história dos vencedores das guerras civis do século XIX” e “história revisionista” foi superada — como todas as oposições no campo do saber acadêmico eventualmente o são –, em prol de uma série de outras abordagens, que matizam, complicam, questionam aspectos privilegiados tanto na historiografia liberal como na historiografia revisionista.

    5) É por essa razão que não há nem um único historiador que faça trabalho de pesquisa entre as 33 pessoas apontadas por Cristina para o comitê gestor dessa geringonça. Nenhum historiador que se preze, nenhum profissional que se preze, poderia aceitar se submeter a isso sem rasgar o diploma e perder a condição moral de olhar na cara dos alunos.

    6) É pueril, infantil, sectário, desqualificar sem argumentos um texto de um historiador da estatura de Luis Alberto Romero porque o texto está publicado no La Nación. Não foi La Nación quem escreveu o texto. Foi Luis Alberto Romero. Este texto contém argumentos. Muitos. Ou se rebatem os argumentos que estão lá, ou ….

    Enfim, há certas coisas que a gente realmente não imagina que seja ainda necessário dizer. Abraços.

    1. João Paulo Responder

      Idelber,

      Se eu houvesse lido seu comentário antes de escrever o meu, teria ficado de bico (de pena digital) calado. Acho que é isso mesmo.

  9. Luis Henrique Responder

    Dentro de pouco, o Instituto do Oficialismo K vai querer estudar “ÉL”. A esquerda progressista vai repudiar e virão os Eduardo Guimarães e Paulo Henrique Amorim argentinos para descer a porrada e desqualificar gente como Luis Alberto Romero ou Beatriz Sarlo. http://bit.ly/uG4ciI

  10. Karina Responder

    Prezados,

    Meus comentários seguem os pontos estabelecidos acima pelo colega.

    1)
    Acho importante distinguir entre a diversidade bibliográfica existente sobre as figuras elencadas no decreto e seu reconhecimento acadêmico. O reconhecimento e a presença dessas figuras nos estudos das universidades mais tradicionais da Argentina não é tão grande quanto sua popularidade nos levaria a supor. O revisionismo, no geral, não goza de presença acadêmica, apesar de sua grande influência popular, assim como sobre as principais correntes políticas do país (radicalismo e peronismo).

    2)
    1. É verdade que a produção sobre história argentina é muito ampla, porém, muito dessa amplitude não tem repercussão na Universidade: constitui-se como saber popular não acadêmico, por força das circunstâncias ou por convicção.

    2.Não concordo com a afirmação de que «a oposição entre um discurso “dominante” e outro “dominado”, na historiografia de hoje, não faz o menor sentido». Há uma enorme variedade, uma enorme palheta de cores entre um extremo e o outro (que não existem como categorias existenciais, são meramente ilustrativas). No entanto, em linhas gerais — talvez gerais demais para um acadêmico, mas válidas para a análise política de um cidadão comprometido com a realidade latino-americana –, há, sim, posicionamentos tipicamente coloniais e outros que não o são.

    Não é preciso ir muito longe para dar um exemplo: a literatura liberal-conservadora argentina fala de um país completamente desabitado cuja história começa com os primeiros colonizadores europeus. Além disso, até hoje existe na Argentina o mito da “Europa na América”, sendo que pesquisas genéticas demonstram que mais da metade da população tem descendência indígena. Isso não é colonialismo?

    3. Minha proposta, desde o começo do debate, não foi discutir sobre personagens (mesmo sabendo que eles existem e reconhecendo sua importância), mas sobre grandes tendências da historiografia e da educação. Talvez por isso haja sido incompreendida e, ultimamente, questionada a respeito da minha ignorância — que é grande, com certeza, porém (e sem com isso querer fazer apologia desta, que tento superar todos os dias), fato é que o mundo está cheio de sábios serviçais.

    3)
    Não insultei o trabalho louvável, digno, imprescindível e brilhante de todos os historiadores brasileiros que mereçam tais adjetivações. Por favor, releia meus comentários. Afirmei, tão-somente, que a tendência preponderante no Brasil, aquela presente nos livros escolares e conhecida pela maior parte da população, é assim. E disse que “estamos perdendo a batalha” justamente devido a essa triste hegemonia.

    4)
    1. No Instituto há acadêmicos e catedráticos, sim. Há também pessoas idôneas e divulgadores da matería que não o são. A composição do Instituto é ampla, fato que parece ser incômodo para alguns. Além de ampla, é necessária, tendo em vista que grande parte da produção revisionista não tem origem acadêmica, como já foi dito.

    2. O Instituto tem como objetivo estudar um tipo de historiografia, a revisionista. Não entendo bem os motivos de tanto barulho por causa da criação de um instituto dependende da Secretaria de Cultura, onde há muitos outros institutos dedicados à pesquisa sobre outros assuntos em particular. Não é verdade que ele pretenda criar um discurso oficial do Estado, como já foi criticado aqui. O Estado são todos os institutos e todas as universidades estatais, onde há milhares de pesquisadores sobre os mais variados assuntos.

    3. Não há tendências superadas para o estudo da historiografia. Esta não deve ser vista como uma corrente evolutiva, mas como um grande zoológico com muitas espécies. Além disso, não é legítimo afirmar que uma corrente com tanta influência popular esteja ultrapassada, ela está viva em grupos de discussão e militância de todo o país.

    5)
    Respondido no ponto anterior. Se os acadêmicos “se prezam” ou não, é questão de opinião.

    6)
    1. Sou obrigada a divergir de tais considerações. Os argumentos são importantes, sem dúvida. Porém, é necessário saber quem os emitiu porque temos que saber, numa contenda, quem é parte e quem é terceiro (não vejo isso como algo pueril, pelo contrário).

    2. Quanto ao historiador Romero, acho que algumas de suas críticas são válidas. Porém, acredito que deveríamos evitar, tal como o colega uruguaio, reproduzir os argumentos do autor sem mais. Isso porque, como o texto mesmo mostra, Romero em muitos pontos está a defender seus interesses individuais (o que é legítimo, com certeza), motivo pelo qual sua intervenção requer um senso crítico para aquele que pretenda debater o assunto.

    3. A reação corporativa de Romero é esperável, natural e evidente. No entanto, o revisionismo existe, mesmo não sendo preponderante na academia, e por isso deve ser estudado. Na minha opinião, em vez de fazer críticas tão rasas, se em todo o país há uma produção sobre história imensa fora da academia, os historiadores profissionais deveriam investigar o porquê disso. E as razões não são só políticas, mas também identitárias.

    4. Quanto ao La Nación, acho muito importante assinalar, sim, o motivo do interesse do jornal no debate, tendo em vista que a historiografia mitrista (liberal-conservadora) foi tramada e imposta pela família dona da publicação.

    5. Não pretendo, com isso, dizer que os interesses de Romero são os mesmos do jornal La Nación, mas tão-somente alertar sobre os porquês de algumas situações, espaços, financiamentos, vantagens e benefícios, com o objetivo de ter elementos para discutir honestamente sobre a questão, como estamos a fazer aqui. Porque, parafraseando o colega, “há certas coisas que a gente realmente não imagina que seja ainda necessário dizer” — e, no entanto, o são.

  11. Karina Responder

    Prezado Luis Henrique,

    Fico muito feliz em saber que a “esquerda progressista” sejam os colunistas do La Nación e Clarín.

    Beijinhos.

    1. Idelber Responder

      Reiterando a pergunta, Karina: você tem algo a dizer sobre os argumentos do texto do Romero?

  12. Marcus Vinicius Responder

    Não adianta, Idelber. A pessoa resolve pagar mico, ela vai pagar mico até o final. Karina, é claro que o revisionismo não goza de “presença acadêmica” hoje. Ela é uma corrente DE CINQUENTA ANOS ATRÁS!!! Ela deixou muita coisa para quem estuda a história da Argentina hoje, mas criar um Instituto estatal para promover uma corrente de historiografia que os próprios historiadores consideram superada, você tem ideia do ridículo que é isso?

    A pessoa começa discutir o que não entende em nome de fanatismo político e começa a dizer coisas totalmente incoerentes. Do tipo: “verdade que a produção sobre história argentina é muito ampla, porém, muito dessa amplitude não tem repercussão na Universidade”. Karina, onde é que se produz historiografia além da universidade? Essas pessoas que produzem historiografia e não tem “repercussão na Universidade”, onde é que elas estão mesmo?

    Prestenção: o decreto fala em fomentar CRIAÇÃO de historiografia. Foi exatamente isso que você disse no seu comentário de 29/11. Olha lá em cima o que você escreveu. Daí o Idelber vem e mostra que isso é ridículo, porque já tem pencas de historiografia sendo produzida, de todo tipo, e não tem sentido um Instituto estatal fomentar PRODUÇÃO, CRIAÇÃO de um tipo particular de historiografia. Daí você vem e diz outra coisa totalmente diferente, que ela existe, mas não está “nos livros escolares”. Então o problema é DISTRIBUIÇÃO da historiografia já existente para as escolas, não CRIAÇÃO, PRODUÇÃO de historiografia.É o que o decreto diz e o que você disse em 29/11 (PRODUÇÃO) ou é o que você disse em 01/12 (DISTRIBUIÇÃO)? É uma coisa ou é outra?

    Você INSULTOU A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA, SIM SENHORA. Você disse, está escrito lá em cima, estou copiando: “a histografia brasileira, em grande parte, limita-se a reproduzir fatos selecionados segundo a conveniência dos mais fortes”. Daí o Idelber vem e cita meia dúzia de historiadores que você com certeza não leu, e eu poderia citar mais uma centena, que não fazem nada disso, e aí você vem e diz “Afirmei, tão-somente, que a tendência preponderante no Brasil, aquela presente nos livros escolares e conhecida pela maior parte da população, é assim”. NÂO FOI ISSO QUE VOCÊ AFIRMOU NÃO. Você escreveu “historiografia” na primeira. Escreveu “livros escolares” na segunda.

    Você entende a diferença entre historiografia e livros escolares? É a historiografia brasileira que é conveniente com os mais fortes ou são os livros escolares? João Reis é conveniente com os fortes? Emília Viotti? Alencastro?

    Por fim, você tem algum argumento pra rebater o texto do Romero ou vai ficar repetindo LA NACIÓN LA NACIÓN LA NACIÓN? É só essa a sua crítica ao texto dele? Você leu o texto? Tem como rebatê-lo?

    Por último: você diz que a composição do Instituto é “ampla”. O Idelber diz que não há um único historiador que faça pesquisa primária lá. Você pode citar algum historiador que esteja presente lá?

    Por último, II: Você diz: “há, sim, posicionamentos tipicamente coloniais e outros que não o são.” Vamos pegar então alguns historiadores argentinos: Túlio Halperín Donghi é dos “dominantes” ou dos “dominados”? O livro da Mirta Zaida Lobato sobre Eva Perón é dos “dominantes” ou dos “dominados”? O livro do Martín Kohan e da Rocca Cortes sobre Eva Perón (essa figura ‘negligenciada” hahahahah) é dos “dominantes” ou dos “dominados”? Você pode citar pra gente alguns exemplos de historiadores argentinos que você vê de um lado ou de outro? Só pra gente ter uma ideia? Ou você não leu nenhum?

    Marcus Vinicius
    historiador e professor de história argentina

    PS: Desculpem as letras maiúsculas. não é grito, é ênfase. Não sei negritar aqui.

  13. Nancy Responder

    Idelber, perdoname que no pueda escribir en portugués. Si a Karina un texto no le sirve por estar publicado en La Nación, a ver si sirve uno publicado en un blog de El País. Mirá lo que dice Caparrós sobre el jefe del instituto, Mario O’Donnell:

    … la extraña torpeza del gobierno: nombrar al frente de su instituto al doctor Mario O’Donnell. ¿No se les ocurrió nada peor? ¿Era necesario que pusieran a dirigir un instituto de historia revisionista a alguien cuya historia no soporta la menor revisión? ¿A un señor conocido como el mayor oportunista de un país lleno de oportunistas, notorio por haber sido oficialista de cada uno de los gobiernos argentinos de los últimos 28 años, funcionario de todos, adulador público de Alfonsín, de Menem, de de la Rúa, de Duhalde, de Cristina Fernández?

    ¿No les habría resultado más fácil poner a alguien que no contradijera con sus actos sus palabras? ¿O incluso con sus palabras sus palabras? ¿O les da igual? Y, si así fuera, ¿no es cruel haber obligado a los demás integrantes del instituto, celosos defensores de la revisión histórica, a bajar la mirada cuando tienen que revisar, digamos, el neoliberalismo menemista delante de su director, uno de sus defensores más ardientes? ¿No es complicado, para esos señoras y señores, defender su busca de la “verdad histórica” si deben olvidarla frente a su propio jefe?

    http://blogs.elpais.com/pamplinas/2011/12/la-pelea-por-la-historia.html

    ¿Es Mario O’Donnell de los dominados o de los dominadores? ¿del Estado-colonia o del Estado-independiente?

    1. Karina Responder

      Estimada Nancy:

      Como te habrás dado cuenta, estamos debatiendo sobre temas de fondo que tienen que ver con la legimidad de la existencia misma del Instituto. Podemos discutir, si querés, sobre su composición, pero este es un tema de forma que no tiene sentido sino si se acepta la premisa de que la institución es legítima.

      No me parece válida la crítica hacia mi persona porque en ningún momento banqué a Pacho O’Donell, me remito a los comentarios anteriores.

      Saludos.

  14. Karina Responder

    Prezado,

    1) Até o momento, debati com respeito com todos aqueles que fizeram comentários respeituosos. Tratarei-o com respeito, ao contrário da maneira como você me tratou em várias partes de seu texto, por consideração aos outros colegas que estão participando do debate.

    2) Reitero, não entendo por que tanto barulho sobre a criação de um instituto dependente da Secretaria de Cultura, onde há tantos outros sobre assuntos específicos. O instituto não foi criado pelo Estado, como você diz, para promover nenhuma corrente na historiografia em seu nome, assim como nenhum outro autor ou corrente que tem algum tipo de espaço institucional é o porta-voz do Estado. O Estado financia milhares de pesquisas e institutos sobre diferentes assuntos e correntes.

    3) Se você é historiador e professor de história argentina, deve saber que desde o surgimento do revisionismo, ele tem esse caráter popular e extraacadêmico. Um dos grandes autores do reviosionismo, Arturo Jauretche, foi muito criticado pelos ilustríssimos acadêmicos e segregado desse âmbito, por exemplo. Outros tantos foram acadêmicos, mas o revisionismo histórico não é nem nunca foi um saber exclusivo da academia. Sempre foi um saber presente nos bairros, nas unidades básicas peronistas e nos comitês radicais. O fato de alguns historiadores considerarem essa corrente histórica ultrapassada não interfere em sua importância, nem no passado nem no presente, assim como tantas outras escolas e abordagens que estão presentes nas pesquisas atuais de diferentes disciplinas são criticadas por tantos outros.

    4) As pessoas que produzem historiografia e não têm repercussão no currículo das universidades mais tradicionais do país estão (e estiveram historicamente) nos grupos de debate, nas agrupações políticas, em publicações de índole diversa e nos bairros. Você realmente acha que todo o conhecimento historiográfico está presente nesses currículos universitários?

    5) O que eu disse é que, apesar de haver muita diversidade bibliográfica sobre História na Argentina, essa diversidade não se reflete no currículo escolar e universitário, principalmente, nas universidades mais tradicionais. Isso faz com que a formação de milhões de argentinos seja baseada, principalmente, na tradição mitrista. O objetivo do instituto é estudar questões omissas dessa bibliografia, relativas a personagens e fatos históricos. E será um exercício criativo, sim, afinal, todo estudo o é. Não tem como propósito fazer livros escolares, mesmo porque essa faculdade depende do Ministério da Educação, e não de um pequeno instituto da Secretaria de Cultura.

    6) Minha intenção jamais foi insultar a historiografia brasileira. Posso ter falhado, escrito uma frase que, lida de maneira isolada, pode dar a entender isso. Porém, lendo o conjunto do que escrevi e interpretando meus comentários — tarefa necessária em qualquer debate sincero–, acredito ter sido clara no sentido de alertar para a hegemonia de uma corrente historiográfica pouco analítica, conhecida pela maior parte da população brasileira, apesar da existência de outras correntes e autores fenomenais.

    7) Sobre o artigo de Romero, peguei alguns pontos e fiz algumas observações, sem ânimo de esgotar todos os comentários possíveis (vão para o prezado colega Idelber também).

    1. Un reciente decreto creó el Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Iberoamericano Manuel Dorrego. De sus fundamentos se deduce que el Estado argentino se propone reemplazar la ciencia histórica por la epopeya y el mito.

    – Reitero, desculpem se é muito repetitivo: esse é um instituto dentro dos milhares que existem no país, dependente da Secretaria de Cultura, voltado para o estudo sobre o revisionismo histórico. O Estado são todos os institutos e universidades públicas do país.
    – Não vou aqui fazer longas digressões sobre as relações de poder epistemológicas. Mas a questão é: que condições de poder fazem com que uma corrente historiográfica seja “ciência histórica” e outras, “epopéia e mito”? Quem tem a prerrogativa de declarar isso na historiografia? Remito-me a Pierre Bordieu.

    2. Más o menos así estamos hoy en la Argentina. No tenemos ópera, pero hay abundantes cantantes, poetas y escritores de mitos y epopeyas, que conquistan la fantasía de su público. Los historiadores, por su parte, trabajan en las universidades y en el Conicet.

    Romero insiste que somente os historiadores profissionais podem estudar história, refletindo seu desprezo por valiosos divulgadores, bem como por correntes heterodoxas como o revisionismo histórico. Romero deveria saber que, num continente como o nosso, o saber histórico nem sempre passa pela academia, tanto por questões sociais como políticas e identitárias. Deixa entrever também seu desprezo por alguns colegas com menos qualificações, vários deles, por uma questão generacional, expulsos das universidades durante as ditaduras de 66 e 76, como Enrique Manson.

    3. El Estado tiene otra idea: la épica debe ocupar el lugar de la historia. La tarea que le encomienda al Instituto de Revisionismo es rescatar y valorar la obra de los héroes fundadores de nuestra nación, sistemáticamente ignorada por la “historia oficial”.

    – Quanto à doxa, à epopéia, ao mito, vide o dito acima sobre as relações de poder epistemológicas.
    – A criação do instituto não é uma encomenda, é um espaço institucional, assim como há outros institutos, que são espaços institucionais para outros assuntos.

    4. El decreto amonesta severamente a los historiadores. Obnubilados por el “liberalismo cosmopolita”, abandonaron su misión -la reivindicación de los héroes patrios- y ocultaron la gesta de las grandes personalidades identificadas con el ideario nacional y con las luchas populares. Los historiadores profesionales quedamos convertidos en otra “corpo” que miente, en otra cara del eterno “enemigo del pueblo”.

    Não sei por que Romero se coloca na posição de alvo de todas as críticas. Ninguém nunca disse que todos os historiadores profissionais são isso.

    5. Al nuevo instituto se le pide que elabore una reivindicación de los auténticos héroes, con la salvedad de que debe hacerse mediante un saber científico riguroso, ausente de la investigación histórica actual.

    – Ninguém diz que o saber científico rigoroso está ausente em lugar nenhum.
    – Quem são heróis autênticos, é opinião de cada um que o Estado não tem o propósito de definir.
    – O propósito do Instituto é estudar os personagens elencados no decreto, “que no han recibido el reconocimiento adecuado en un ámbito institucional de carácter académico”, assim como há outros institutos que estudam outros personagens.
    – O fim último é contribuir para a reflexão histórica da sociedade, para entender o passado e o presente de acordo com diferentes pontos de vista, saldando dívidas históricas, fomentando o pluralismo.

    6. Pero lo cierto es que hoy hay una enorme cantidad de historiadores excelentes y altamente capacitados, que se han formado y han sido examinados en sus capacidades por las rigurosas instituciones del Estado argentino: sus universidades, el Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas o la Agencia Nacional de Investigaciones.

    É verdade. O Instituto é uma ameaça para esses profissionais? Não acho. Todas essas instituições continuam e continuarão existindo. A questão é que Romero defende seus interesses corporativos: só eles podem fazer história (e isso lhes dá muitos benefícios). Acho um raciocínio muito simples para um continente como o nosso, sobretudo tendo em vista a realidade da Universidade argentina, com exclusões de índole social e política em muitos momentos dos últimos 100 anos.

    7. El decreto también se ocupa del conjunto de los ciudadanos. Les advierte sobre los riesgos de las ideas equivocadas sembradas por los enemigos del pueblo. Los previene acerca del pernicioso relativismo del saber. Sobre el pasado -así como sobre el presente- hay una verdad, que el Estado conoce y que este instituto contribuirá a inculcar. Para ello se ocupará de la correcta educación de los docentes y los vigilará para que no recaigan en el error. Podrá además cambiar los nombres de las calles y las imágenes de los billetes, monedas y estampillas; crear museos y lugares de memoria, establecer nuevas celebraciones y, en general, promover la difusión de estas ideas a través de cualquier medio de comunicación. En estos prospectos, inquietantemente totalitarios, se dibuja una suerte de orwelliano Ministerio de la Verdad, del cual ya hemos visto algunos adelantos en la cuestión de la llamada “memoria del pasado reciente”.

    Onde será que Romero leu isso? Será que o Instituto Nacional de Antropologia e Pensamento Latinoamericano exerce também controle policial sobre a Verdade do pensamento latinoamericano perante a sociedade e as escolas? E o Instituto Nacional Belgraniano, será que sequestra e tortura na Sala 101 qualquer um que ouse afirmar teses contrárias às de seus membros? E o Instituto Nacional Yrigoyeneano?

    8. Quienes hoy hablan en su nombre impresionan por su mediocridad. El decreto los califica de “historiadores o investigadores especializados”, capaces de construir un conocimiento “de acuerdo con las rigurosas exigencias del saber científico”. Pero ninguno de ellos es reconocido, o simplemente conocido, en el ámbito de los historiadores profesionales. De los 33 académicos designados, hay algunos conocidos en el terreno del periodismo, la docencia o la función pública. Dos de entre ellos, Pacho O’Donnell y Felipe Pigna, son escritores famosos. En mi opinión, entre ellos hay muchos narradores de mitos y epopeyas, pero ningún historiador. Nada comparable con los fundadores del revisionismo.

    Aí estamos saindo da discussão de fundo e entrando em outra, que é relativa à forma. Acho uma crítica válida, qualquer um pode opinar se concorda ou não com a composição do Instituto.

    9. El Estado afirma que la correcta visión de nuestro pasado -que es una y que él conoce- ha sido desnaturalizada por la “historia oficial”, liberal y extranjerizante, escrita por “los vencedores de las guerras civiles del siglo XIX”.

    O fundamento do decreto para o Instituto é “estudiar, investigar y difundir la vida y la obra de personalidades y circunstancias destacadas de nuestra historia que no han recibido el reconocimiento adecuado en un ámbito institucional de carácter académico”, isso devido à vitória dos liberalimso conservador e de sua visão da história. O Estado não pretende impor uma única verdade com isso, mas simplesmente dar um espaço para o estudo sobre esses personagens, fomentando a pluralidade de pontos de vista sobre a história.

    8) No instituto há acadêmicos e divulgadores do revisionismo. Há historiadores como Felipe Pigna, Pablo Vázquez e Hugo Chumbita, acadêmicos como Ana Jaramillo e divulgadores como Hernán Brienza.

    9) Eu disse que “Há uma enorme variedade, uma enorme palheta de cores entre um extremo e o outro (que não existem como categorias existenciais, são meramente ilustrativas). No entanto, em linhas gerais (…), há, sim, posicionamentos tipicamente coloniais e outros que não o são”. Não venha colocar na minha boca palavras que não pronunciei. Não disse que há categorias absolutas e pessoas que estão de um lado ou de outro. Disse que há posicionamentos tipicamente coloniais e dei um exemplo.

    Por último, fico à disposição para debater em qualquer meio, inclusive pessoalmente. Mas peço-lhes desculpas se demorar para responder por este meio: redigir as respostas, às vezes, está me tomando um tempo de que não disponho.

    1. Karina Responder

      Que conste em ata: o bichinho de óculos acima saiu por obra de algum atalho do teclado que eu desconheço.

  15. Pablo Palomino Responder

    Los fundamentos del Instituto Dorrego son insostenibles, pues ignoran el trabajo de montones de historiadores rigurosos desde hace 25 años. Y la obra de los historiadores del Dorrego es de mala calidad, más panfletaria que analítica, maniquea hasta el hartazgo.

    Pero la carta crítica de los historiadores académicos también es insostenible: acusa al gobierno de querer imponer un “pensamiento único”, acusación absurda, especialmente porque los gobiernos de los Kirchner consolidaron el sistema científico argentino como ninguno otro desde el retorno a la democracia, y lo hicieron con absoluto pluralismo.

    La producción académica es en general ultra-especializada, por lo tanto aburrida e ignorada por el gran público. Los académicos críticos deberían contestar al Dorrego con una historia rigurosa pero también inspiradora y popular, en lugar de erguir muros jurisdiccionales entre una supuesta historia legítima y otra ilegítima.

    Todo académico tiene el derecho de continuar su trabajo de especialista, dirigido no al gran público sino a sus colegas y a quienes eventualmente traduzcan su producción en manuales escolares y otras formas de divulgación. Pero eso no lo convierte en el único historiador legítimo, ni le da derechos a negar otras formas de historia, incluso las que el gobierno encuentra más afines a su proyecto político.

  16. Mariana Responder

    Gostaria de aportar para este debate dois textos, um de María Pía López, e outro de Luis Quevedo:
    http://tiempo.infonews.com/notas/historia-cuestion#.Ttpu61V8jug.email
    http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-182671-2011-12-05.html


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