Jürgen Habermas, a razão e a Europa unificada. Perdeu, playboy

Jürgen Habermas. Foto: Oliver Berg/ Der Spiegel Durante vinte anos, Jürgen Habermas martelou-nos as cabeças...

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Jürgen Habermas. Foto: Oliver Berg/ Der Spiegel

Durante vinte anos, Jürgen Habermas martelou-nos as cabeças com a mesma ladainha: que a Ilustração, que a Europa, que a racionalidade, que o diálogo democrático. A implícita sinonímia entre esses termos era tal que às vezes tinha-se a sensação de que a racionalidade era uma espécie de exclusividade europeia, que o diálogo em busca de um consenso era a única forma racional que podia tomar a política, que não havia outra realização do legado iluminista que não fosse uma Europa unificada na razão e no diálogo. Essas premissas estão em contradição tão patente com a história da Europa no último milênio que os textos de Habermas a partir dos anos 80 traziam aquela ligeira aura de ingenuidade a seu redor, por mais que o filósofo falasse em nome da racionalidade crítica.

E eis que agora Habermas está desiludido. A coisa não deu certo, diz ele—bem, na verdade ele não diz exatamente isso, trata-se de interpretação minha, mas basta ler o texto para ver que estamos diante da explicação de um fracasso—, porque “uma vez que uma comunidade constitucional se estende para além das fronteiras de um único país, a solidariedade entre os cidadãos que estão dispostos a apoiar uns aos outros deveria se expandir para acompanhá-la”. Então o que faltou foi solidariedade entre os cidadãos! O filósofo continua acreditando nas suas ficções, diria Nietzsche: “solidariedade”, “racionalidade”, “diálogo”, uma infindável fileira de abstrações é mobilizada para explicar o projeto da comunidade europeia sem que se toque uma só vez em seus fundamentos reais: a unificação do mercado para a maximização do lucro, as políticas comuns para a agricultura como mecanismo de concentração ainda maior dos subsídios e dos ganhos, a unificação alfandegária como máquina de guerra comercial contra os países pobres, a unidade monetária como mais um passo para a financeirização completa do mundo. Mas, para Habermas, o que faltou foi “solidariedade”! Ah, se esses velhos dinossauros do nacionalismo, do regionalismo, do irracionalismo não existissem, tudo teria dado certo!

Para se ter uma perspectiva diametralmente oposta, basta ler o texto de Robert Fisk que traduzi ontem para a Fórum, do qual o título já diz tudo: Os banqueiros são os ditadores do Ocidente. Fisk exibe, com aquele jeitão dele de quem não tem papas na língua, o quadro atual da União Europeia: os governantes dizem a seus povos que eles não são os responsáveis pelo colapso financeiro do continente, mas não tem a coragem de dizer quem são os culpados. Partidos políticos tão diferentes como a direita conservadora e a social-democracia curvam-se de forma exatamente igual aos ditames do sistema financeiro. Agências de classificação de risco que deram nota AAA aos empréstimos sub-prime das hipotecas americanas são capazes de impor mais medo aos franceses, brinca sério o Fisk, do que Rommel havia imposto em 1940.

O recente perfil de Habermas publicado por Der Spiegel sob o título “A Missão de um Filósofo de Salvar a Europa” relata uma palestra sua no Goethe Institute de Paris, no qual ele afirma: “em algum momento depois de 2008, eu entendi que o processo de expansão, integração e democratização não avança automaticamente por suas próprias forças, que ele é reversível, que pela primeira vez na história da União Europeia, estamos experimentamos um desmantelamento real da democracia. Eu não pensava que era possível. Chegamos a uma encruzilhada.”

Não se pode acusar Habermas de desonestidade intelectual. De torpeza, etnocentrismo e ingenuidade, sim. Ele não antecipava que a unificação monetária e alfandegária, a concentração da política de subsídios e a submissão das instituições nacionais aos ditames da Europa unificada poderiam solapar ainda mais a já combalida democracia representativa! Agora ele sabe. Mas ainda não fez a conexão entre esse colapso e os mitos da racionalidade ilustrada que ele continua propagando. Ao longo das últimas duas décadas, aos que nos permitimos interrogar criticamente sua crença na Ilustração e na ética comunicativa do diálogo Habermas costumou reservar o rótulo de “irracionalistas”. Das relações entre a irracionalidade do mercado e da financeirização, por um lado, e a sua própria utopia de uma Europa racional e ilustrada, por outro, o filósofo parece ainda não ter se dado conta.

……….

……….

PS:  Para uma crítica da leitura de Habermas da Internet como esfera pública “desordenada”, você pode conferir minha contribuição ao volume editado por Erin Graff Zivin, The Ethics of Latin American Criticism: Reading Otherwise (Nova York: Palgrave, 2007).



No artigo

54 comments

  1. Lázaro Responder

    Ótimo Idelber, concerteza foi torpeza e ingenuidade de Habermas e dos que o seguiram, porém, me parece que o texto deprecia a Ilustração e seu potencial, em favor de?
    Att.

    1. Idelber Responder

      Oi, Lázaro, na verdade minha ideia não é depreciar a Ilustração, mas levantar alguma suspeita acerca da transformação da Ilustração numa espécie de cavalo de batalha que traria, por si só, uma resolução neutra, racional, imparcial para conflitos a transcendem, ou que envolvem comunidades, experiências e histórias que lhe anteriores e (até certo ponto) exteriores. É isso — um gesto tipicamente iluminista, aliás.

    2. Gabriela Responder

      Eu fiquei com a mesma impressão ao ler o texto… em favor de??? Não tenho a sua erudição pra discutir a teoria habermasiana, mas entendo que essas ideias de debate democrático e criação de consenso pareciam neutralizar artificialmente os conflitos e divergências também constitutivos dessa dinâmica democrática. Pra mim ficam claros os limites da perspectiva neutra, apolítica até se vc quiser, que contribui pra esta desvinculação hoje naturalizada entre política e economia… tudo isso ok. Porém, os limites das democracias representativas dos Estados nacionais estão aí postos, incapazes de fazer frente à lógica do deus-mercado, e aí tem a ver com repolitizar a economia (e as teorias econômicas) que hoje aparecem assim, desse jeito autônomo de todo o “resto” da vida social, mas também outros sentidos da democracia, que consigam ir muito além do sentido formal. Tá tão desvinculado que fica difícil até de fazer a ponte de uma coisa e outra (capitalismo e democracia), como mostra o artigo que vc traduziu. Mas pra mim continua a sensação de que falta falar em outras razões, solidárias (no sentido político, do laço associativo), ou então vamos cair de novo na razão utilitária como única explicação possível pra tudo, o que pra mim, sinceramente, parece tão utópico e ingênuo quanto. Entre a utopia do diálogo pacífico e a utopia do deus-mercado: por enquanto nessa paralisia estamos.
      bjs, e obrigada pelos textos, sempre.

  2. Paulo Moreira Responder

    Perfeito, Idelber, Habermas soa aturdido no texto dele – se o projeto da modernidade andava a pleno vapor na Europa, então a locomotiva empurrava os vagões rumo ao abismo. Essa conversa de solidariedade continental num ambiente de competição e jogatina financeira desenfreada é simplesmente ridícula. E a citação final da constituição alemã como modelo para a união européia é o fim da picada – literalmente.

  3. Pedro Marques Responder

    Tomara que ninguém queira me bater por dizer isso, mas esse pessoal que se apropria da teoria da escolha racional sempre me soa um pouco ingênuo.

  4. Raphael Tsavkko Responder

    Colocar o povo e a idéia de nação (que ele adora bater) como problema central daUE me soa até estúpido, especialmente quand ovemos que há nações, como a Catalunha, onde o povo é absolutamente pró-europeu, querendo fazer parte da UE, mas como Estado e não como território dominado pela Espanha. Habermas parece esquecer dos Bancos, dos lobbies, dos canalhas que comandam a UE apesar da boa vontade de parte significativa de sua população.

  5. Raphael Neves Responder

    Olá, Idelber!

    Talvez possa parecer estranho, mas para quem acompanha o que o Habermas tem escrito há décadas, esse desilusão não é nada de novo. Se partimos da Teoria da Ação Comunicativa de 80, no qual ele teoriza sobre muita coisa que havia acontecido nos anos 60 e 70, vemos o cara apontando para o potencial emancipatório dos movimentos sociais. Uma década mais tarde, ele publica Entre Fatos e Normas. Para muitos o livro soa como uma utopia ingênua e otimista, mas acho honestamente que é o contrário. Habermas está dizendo: “olha, a coisa tá feia. Vamos tentar segurar o que sobrou…” É verdade que, por influência de Luhmann, na TAC ele via sistema e mundo da vida totalmente desacoplados, algo que muda em EFN. Se o sistema não pode ser de algum modo “programado” pelo mundo da vida, tudo estaria ferrado mesmo… Ele acha que é possível, que o direito, justamente por ter uma dimensão sistêmica e, ao mesmo tempo, precisar se legitimar, pode ajudar a “controlar o bicho”. Portanto, a desilusão existe há tempos… Ainda que para um camarada que fez parte da juventude hitlerista e depois viveu nos escombros da Alemanha, qualquer coisa que chamem “crise” hoje deve ser piada (só uma observação: esta semana revi “Alemanha Ano Zero” do Rossellini. Olha que o moleque até poderia ser o então jovem Jürgen…)

    Essa crítica na ênfase na Ilustração, no etnocentrismo de Habermas e que ele busca o consenso de vez em quando aparece (faz o cara parecer um idiota, coisa que ele seguramente não é). A Mouffe sempre vai por aí, mas na hora de mostrar os argumentos do Habermas que justificariam essas acusações ela espirra. Acho que você espirrou (ok, daria um texto longo e chato pra cacete), mas gostaria de conhecer seu ponto de vista.

    Forte abraço,
    Rapha

    1. Jeferson Responder

      Gostei do texto, Idelber. Não concordo com a visão que você tem sobre o Habermas, acho que tem muita coisa válida aí, que a crítica ao Habermas se tornou uma espécie de lugar comum da esquerda. Em todo caso, parece-me que o debate está de pé e que você soube explicitar com complexidade uma das posições do debate.

  6. marcos nunes Responder

    Parece que só há uma racionalidade, a do dinheiro. E sua ilustração é um dólar furado. Sob a tragédia dessa farsa (perdão!) os povos se levantam mas não destronam seus reis. O que está faltando?

  7. Fernando Responder

    Ah, Ildeber, é fácil chutar cachorro morto. Espantoso é que boa parte de nossa intelligentzia tenha se postado de quatro, abanando o rabinho e salivando para esse bobalhão do Habermas. Qualquer cidadão instruído e que se levasse minimamente a sério conseguia perceber facilmente que o velho fanhoso é mestre em transformar conversa mole pra boi dormir em colóquio flácido para acalentar bovinos. Aliás, a patetice do bom velhinho não difere muito da de quem quer que os banqueiros sejam os ditadores do ocidente. Esgotamento da semântica vetero-européia, alguém??

  8. Jorge Responder

    Idelber,
    por vezes o ideal é ler o livro – ou esperar a tradução – antes de criticar.
    Ele traz ideias interessantes nesse ensaio longo, que, caso lidas (melhor: caso tivessem sido objetos de leitura e reflexão), enriqueceriam o debate. Ou, pelo menos, nao tornariam a crítica tao abstrata, ampla ou, até mesmo, vazia. Enfim, a crítica sempre é mais fácil, como ele próprio diz.

    http://www.amazon.de/Zur-Verfassung-Europas-Essay-suhrkamp/dp/351806214X

    http://www.suhrkamp.de/buecher/zur_verfassung_europas-juergen_habermas_6214.html

    1. Idelber Responder

      Jorge, e o que exatamente lhe faz pensar que a minha crítica se dirige a esse livro? Habermas está escrevendo sobre a Europa há vinte anos. Você tem algum argumento a opor ao que eu disse, em vez de dar um link para um livro de 2011 e dizer que sem lê-lo eu não posso criticar o que Habermas escreve desde 1990?

      1. Jorge Responder

        Idelber,
        Habermas traz novas análises, ideias originais e, acima de tudo, reflexoes sobre a experiência europeia nesses últimos 30 anos, onde a unificacao realmente ganhou velocidade e criou problemas. Essa a razao dos links.

        O perfil na Der Spiegel se deve a esse livro, nao às palestras dele. As críticas recentes publicadas na imprensa internacional, da mesma forma, se devem a este longo ensaio publicado há alguns meses. E, repito, ele traz novos argumentos ao debate. Repete algumas ideias, como é óbvio, mas traz interessantíssimos insights e contrargumentos no livro. Apenas isso.

        Se a crítica é genérica ou é dirigida às ideias que ele vem publicando “desde 1990”, caberia (melhor: deveria haver) uma pequena ressalva sobre o novo livro (até agora apenas em alemao) – e as novas ideias, análises e reflexoes – que ainda nao foram lidas pelo autor do post. Só isso.

        1. Fernando Responder

          Então o fato do cara ter feito um mea culpa há poucos meses desconstrói tudo que foi dito desde 1990?

      2. denise bottmann Responder

        hahaha! adoro essa patrulha que diz que a gente não pode ter opinião a não ser que leia as mesmas coisas que leem, e concorde com a interpretação que dão. isso mesmo, avelar, bota o cara na linha :-)

  9. Salatiel Responder

    Não sei se fizeram uma leitura adequada do excerto do livro do Habermas. Embora ele reconheça várias dificuldades e falhas no processo integratório europeu, propõe caminhos para se lidar com as mesmas, sem deixar de louvar a cultura européia.

  10. Amanda Responder

    Recentemente li um texto do Eduardo Galeano (Livro dos Abraços) que tem muito a ver com o texto do Robert Fisk que você cita no post e, claro, com todo o seu texto de forma geral… Posso compartilhar aqui? Lá vai:

    “Os banqueiros da grande bancaria do mundo, que praticam o terrorismo do dinheiro, podem mais que os reis e os marechais e mais que o próprio Papa de Roma. Eles jamais sujam as mãos. Não matam ninguém: se limitam a aplaudir o espetáculo.

    Seus funcionários, os tecnocratas internacionais, mandam em nossos países: eles não são presidentes, nem ministros, nem foram eleitos em nenhuma eleição, mas decidem o nível dos salários e do gasto público, os investimentos e desinvestimentos, os preços, os impostos, os lucros, os subsídios, a hora do nascer do sol e a freqüência das chuvas.

    Não cuidam, em troca, dos cárceres, nem das câmaras de tormento, nem dos campos de concentração, nem dos centros de extermínio, embora nesses lugares ocorram as inevitáveis conseqüências de seus atos.

    Os tecnocratas reivindicam o privilégio da irresponsabilidade:

    — Somos neutros — dizem”.

    1. quem te bota ao fogo Responder

      Eba, muita razão demais Amanda. Bora o Idelber tenha razão que o Haberman esteja equivocado por ser ingenuo, não há razão pra desacreditar na boa vontade de Haberman. Como muitas pessoas aqui tem falado: não são os governos, nem a esquerda nem a dereita, nem reis nem rainhas quem dirigem o mundo. São os ricos. Esses que tem dinheiro demais e ficam descansando vendo o mundo se suicidar.
      Ingenuidade? Pode ser mas não há ingenuidade sem maldade e issa maldade deve ser apagada desse mundo nosso. Até que a gente veja isso e mude as coisas, botando o governo (um governo do povo para o povo e pelo povo)de novo na cima de todo, a união não vai acontecer.
      Como sabemos não são as pessoas quem não gostam da ideia duma Europa feita um, são os ricos quem não vão ter tanto poder ou perderam dinheiro. Estamos nesse tempo da adoração ao dinheiro e até não parar de pensar assim nada bom vai acontecer.
      Então o que falta é solidaridade? Não é solidaridade só, é a falta da solidaridade dos ricos pelos pobres (99%ers) do mundo. É tudo.

  11. Rubão Responder

    Ô cumpadre atleticano:
    Lendo-te, a memória passou de raspão lá nas salas de aula da Fafich em meados dos anos 90 – auge daquele pensamento, no curso de Comunicação, onde a boca dos professores tanto se enchiam ao pronunciar “Habermas” que lhes quase impossível deter a baba escorregadia.

    Sofri muito.

  12. Karl Responder

    “Essa crítica na ênfase na Ilustração, no etnocentrismo de Habermas e que ele busca o consenso de vez em quando aparece (faz o cara parecer um idiota, coisa que ele seguramente não é). A Mouffe sempre vai por aí, mas na hora de mostrar os argumentos do Habermas que justificariam essas acusações ela espirra. Acho que você espirrou (ok, daria um texto longo e chato pra cacete), mas gostaria de conhecer seu ponto de vista.”

    Eu também.

    Tô mais com o Salatiel e com o Raphael, Idelber. (Caraca, seriam eles um par de anjos do apocalipse? =)
    Abs

    Karl

  13. Mauro Responder

    Idelber, escrevi o texto abaixo no “descurvo” e o que escrevi ao Hugo dirijo a você também, que até é mencionado no final do texto. Então, decidi colocar este comentário no seu blog também. Aliás, seu texto sobre o Habermas foi, em minha modesta opinião, o melhor que escreveu neste seu novo blog. Fantástico. Já distribui para uns 3 amigos que fizeram mestrado e doutorado em direito na PUC-RIO, grande receptora do pensamento do velhinho alemão, ao menos em tempos não tão distantes. mas vamos ao que crevi ao Hugo e que envio para você também.

    Abraços,

    Mauro

    “Caro Hugo, longe de mim querer lhe pautar. Você escreve sobre o que quiser, mas não imagino um assunto mais importante no Brasil no momento do que o livro do Amaury Ribeiro Jr., que estou acabando de ler. É estarrecedor. Não, não sou Poliana. Quem acompanha política ouviu falar de muita coisa que está no livro, mas ver as provas, dá outra dimensão, sai do campo do bate boca. Dizem que é a maior reportagem investigativa que o Brasil teve nas últimas décadas e tendo a concordar, pois não me lembro de nada semelhante.
    E como sou um otimista, penso que esse livro pode, sim, servir à democracia muito mais que reflexões políticas, por mais consistentes que sejam. Vejo no livro, por exemplo, uma oportunidade de ouro para que o financiamento público das campanhas entre seriamente no debate público e seja, talvez, aprovado.
    Fora que o livro desmascara definitivamente um sujeito que, mais do que qualquer outro político em tempos recentes, foi o representante do retrocesso, do atraso institucional, que mais próximo ficou daqueles que sempre quiseram interditar e pautar o debate público em nosso País.
    Considero revelador o silêncio estrondoso, não da mídia, de quem não esperava nada mesmo, salvo se a coisa tomar a dimensão que espero que tome, mas do PT, que não fala uma linha sobre o assunto e tem alguns membros chamuscados no livro.
    Então, não sei, mas não considero essa uma pauta menor, de pequena corrupção, de coisa chata de queda de ministro e por isso acho importante que caras inteligentes como você qualifiquem o debate. Sinto falta também do Idelber discutir isso. Ele parece ter encontrado um refúgio militante nas lutas tópicas e das minorias (e discordo da posição dele sobre Belo Monte), parece ter se cansado do careta debate político brasileiro, especialmente na internet. De fato, eu também. Mas como disse, acho esse tema muito relevante
    Se discordar, tudo bem. Seu texto sobre o Francois Hollande está legal.

    Abraços,

    Mauro”

  14. Idelber Responder

    Caros Raphael, Jorge, Karl: vou me permitir responder aos três no mesmo comentário porque as objeções são, em grande medida, a mesma. Em primeiro lugar, o meu texto não linka só o perfil da Spiegel. Linka um texto do próprio Habermas. E dirige seus argumentos, fundamentalmente, aos argumentos expostos de próprio punho pelo Habermas, no artigo publicado pelo Guardian. Trata-se de um texto conjuntural, de intervenção, sobre outro texto conjuntural, de intervenção. Não é um texto de três anos atrás. É um texto de um mês atrás.

    É evidente que para Habermas “a desilusão existe há tempos” e que ele já via “sistema e mundo da vida desacoplados” — embora, e aí cabe a pergunta, não tenha se perguntado se uma transformação completa de seu próprio sistema não estaria em questão, já que o mundo parece contradizê-lo a cada passo. Se o Jorge acha que esse novo ensaio do Habermas traz outras pautas e contraargumemtos, bem, está aberto o espaço para que o Jorge nos diga quais são eles. No fundamental, no essencial, no que realmente importa pra mim, eu não vejo grande diferença entre o que Habermas escreve desde os anos 80 e o que ele está escrevendo agora — a mesma crença na busca do consenso está lá, o mesmo escamoteamento dos conflitos sociais está lá, a mesma naturalização do conceito de razão está lá.

    Mas é óbvio que poderíamos nos estender e fazer uma análise bem mais detalhada da obra de Habermas em si, e não de suas intervenções como intelectual público. Mas este post não é uma avaliação da ética comunicativa de Habermas. Não é um tratamento exaustivo de sua obra. É uma intervenção conjuntural sobre as intervenções conjunturais do Habermas. Se houver interesse na minha avaliação dos livros de Habermas, eu acredito que a forma menos colonizada de me cobrar isso seria consultar meus …. livros. No Figuras da Violência (capítulos 1 e 5) e no livro citado no PS deste post, vocês terão argumentos exaustivos — não sao capítulos exclusivamente sobre Habermas, mas suponho que deixarão claras minhas diferenças com ele. Lamento responder objeções citando livros meus, mas não posso concordar que seja dado a Habermas um privilégio que não me está sendo dado, ou seja, o de defender intervenções conjunturais, de jornal, com remissão à obra acadêmica, especialmente num contexto em que ainda não ouvi um argumento contra o que eu efetivamente escrevi acerca do que Habermas efetivamente escreveu no Guardian.

    Abraços.

    1. Raphael Neves Responder

      Caro Idelber,

      Você tem toda razão sobre a injustiça de te pedir uma posição acadêmica sobre o cara em um artigo de conjuntura. Vou tentar dar uma lida nos capítulos que você menciona.

      Só discordo mais uma vez sobre o consenso. Habermas pensa um modelo de democracia que possa garantir o maior número de visões de mundo. É uma perspectiva pluralista até a medula. O consenso não é consenso de resultado (como se fosse possível argumentar e te convencer a virar flamenguista), mas de saída. Se argumento, tenho de pressupor que possa haver uma convergência de pontos de vista (ainda que na prática isso não ocorra efetivamente). Se não pressuponho isso, por que diabos então vou iniciar uma discussão? Seria melhor apelar pra porrada… E o discurso político, reconhece o velho Jürgen, está aberto a argumentos morais, éticos, pragmáticos e até mesmo a barganhas.

      Abraço,
      Rapha

      1. Idelber Responder

        Se argumento, tenho de pressupor que possa haver uma convergência de pontos de vista (ainda que na prática isso não ocorra efetivamente). Se não pressuponho isso, por que diabos então vou iniciar uma discussão?

        Concesso non dato. Eu não discuto com Aldo Rebelo no Twitter porque eu “pressuponho que possa haver uma convergência de pontos de vista”. Eu discuto com Aldo Rebelo no Twitter porque me interessa expor, para o maior número de pessoas possível, que Aldo Rebelo é um pulha, mistificador, aliado de empreiteiras, madeireiros e latifúndiários, e cúmplice do genocídio contra os índios.

        É simples assim.

        1. Raphael Neves Responder

          Ora, Idelber, se você apresenta seus pontos de vista publicamente, é evidente que você, de saída, pressupõe que uma convergência é possível com teu “público” – “com o maior número de pessoas”, como você diz – de outro modo, você não se preocuparia tanto em tentar nos convencer (digo “nós” porque me incluo nesse público aí).

          E veja que interessante foi tua resposta. Você usa a “publicidade” (ou se quiser, a tal “esfera pública”) justamente para mostrar estruturas assimétricas de poder (os interesses de “madeireiros, latifundiários”) que se escondem por trás da posição do Aldo. E por que o Aldo precisa esconder todos os interesses e ganhos que no fundo orientam sua posição? Porque ele perde credibilidade tão logo esses interesses venham a público (graças a caras como você, aliás).

          No fundo, o que está em jogo é como opera uma legitimidade que se dá através desses discursos públicos. Ainda que você não queira “convencer” o Aldo (por isso falei desde o início, não se trata de buscar o consenso), você se vale dessa estrutura de legitimação para mostrar o quão “contaminado” está o discurso dele. Honestamente, não vejo nenhuma contradição com o que o Habermas diz.

          Abraço,
          Rapha

          PS: Vou aproveitar e responder ao Nodari aqui, se me permite. O que eu conheço do Habermas sobre o Derrida é o capítulo 7 do Discurso Filosófico. Na edição que eu tenho (fui até olhar) ele cita o cara umas 27 vezes. Provavelmente vocês estão certos quanto ao Habermas não ter entendido direito o cara (e o Foucault, e tantos outros). Enfim, daria uma boa prosa…

          1. Alexandre Nodari

            No “Excurso sobre o nivelamento da diferença genérica entre filosofia e literatura”, ele cita o Derrida 0 vezes, e ainda se justifica: “Uma vez que Derrida não pertence ao número dos filósofos que gosta de argumentar, é aconselhável seguir os seus discípulos de crítica literária, formados no [negrito, sublinhado, itálico, taxado, caixa alta, grifo nosso] CLIMA ANGLO-SAXÔNICO DE ARGUMENTAÇÃO”. Sério, pra mim essa frase por si só prova tudo o que o Idelber diz e mais um pouco, e é do próprio Habermas, que pode ser inteligente pra caralho (o livro dele sobre a transformação da esfera pública é livro de cabeceira pra mim), mas não passa (ainda que isso não seja pouco) do último avatar do Iluminismo europeu. Que acabou. É esse o ponto. Seja como for, ainda resta por explicar a falsificação que ele faz quanto à citação do Benjamin.

          2. Idelber

            Raphael, você me perdoará, meu caro, mas você fugiu do assunto: o seu ponto inicial era: “Se argumento, tenho de pressupor que possa haver uma convergência de pontos de vista”. Eu lhe dei um exemplo de um argumento que tem lugar sem que se pressuponha absolutamente nenhuma convergência de pontos de vista. Nem de saída, nem de entrada. Só um gesto de guerra. Uma denúncia. Uma desmoralização. Aí você pega o público ante o qual essa desmoralização ocorreria, e transfere a tal “convergência de pontos de vista”, que em boca de habermasiano muda mais de dono que puta de zona, para esse público, quando o seu objeto inicial era o interlocutor do debate, aquele interlocutor exemplificado pelo seu comentário original, lembra? Desculpe, Raphael, eu escuto essa baboseira há 20 anos, sei exatamente onde vai acontecer a próxima rebolada. Não me peça que a leve a sério.

        2. Leonardo Responder

          Idelber:

          Certo, você não discute com o Aldo para que haja uma convergência de ponto de vista. Só uma leitura muito superficial e idiota de Habermas pressuporia isso.

          O que Habermas investiga, primeiramente, são os fundamentos racionais possíveis de qualquer discurso. Por exemplo, sobre as possibilidades de você expor, para o maior número possível de pessoas, o tanto que você desgosta do Aldo. Os filósofos gostam desse tipo de problemática. Mas você talvez ache que isso é uma discussão supérflua e inútil, ou escamoteadora das reais intenções das pessoas. Tudo bem. Apenas que você teria que defender essa sua posição de duas maneiras: de maneira discursiva, argumentativa (como aqui) ou mobilizando alguma sistema de poder (econômico, político,simbólico, etc.)Muitas vezes, você usa as duas. E Habermas aponta isso. O jogo social é uma mistura de violência e argumentos. Mas as duas coisas não são a mesma coisa. Você acha que são?

          Em segundo lugar, Habermas estuda as condições para que você, o Aldo, os madereiros e outros bandidos, amigos dele, possam viver na mesma sociedade. É claro que seria fantástico um mundo sem bandidos e filhos da puta. Mas a gente vive num que os tem. E aí? A solução pode parecer trivial, não é? Mas não é. Na maior parte da história humana ou você matava eles, ou eles matavam você. O que Habermas estuda, é sobre as possibilidade de você, os madereiros e o Aldo lutarem um contra o outro, mas dentro de um jogo onde haja certas condições mínimas de respeito às divergências entre vocês.

          Ou seja: você detesta os madereiros, mas a sua luta contra eles é política: você luta não pelo extermínio físico deles, mas no sentido de que e a atuação deles seja enquadrada como crime, dentro de uma estado de direito. E sim, se os madereiros levaram a melhor, até o presente, se eles exterminaram quem se lhes opunha, e se as leis que eles e outros filhos da puta criaram para poderem fazer suas sacanagens de maneira impune são injustas, e se eles ainda por cima burlam essas leis, ao bel prazer, isso seria, você acha, motivo para que nós abandonássemos qualquer lei? Nesse caso, a defesa das minorias, os avanços democráticos – que custaram o sangue de milhões de pessoas – deveriam ser protegidos sobre qual regime? De que forma?

          (As perguntas não são retóricas. Gostaria muito de ouvir suas posições a respeito)

          Leonardo

  15. Jair Fonseca Responder

    Só não concordo com o “playboy”!

    1. Idelber Responder

      O “playboy” era uma brincadeirinha!

  16. denise bottmann Responder

    na verdade deixei de ler rábermas uns 25 atrás, quando ele disse que quem destoasse do diálogo racional ou não aceitasse suas normas (suas, do diálogo racional) devia ser internado numa clínica psiquiátrica.

  17. Fernando Responder

    Eu realmente me divirto com toda essa comoção que os clérigos da racionalidade comunicativa “transcendente desde dentro” (sempre ria à socapa, para não melindrar susceptibilidades, toda vez que os habermasianistas vinham com esse trololó de Tranzendenz vom Innen pro meu lado…) arrumam toda vez que alguém grita que o rei está nu, ou que mexem na vaquinha do presépio. “Você não entende, você perdeu o último fascículo do catecismo, na verdade…” e vão salgando a carne podre. Desprezo aberta e frontalmente toda essa ladainha – “prayer ‘fixed’?”, disse o Rebe Eliezer, “his supplication bears nop fruit”. E fico apoplético observando que mesmo quando se tem a coragem de desconjuntar esses mitos nanicos e castrados da nossa tradição moderna, não se tem a igual coragem de levar a debridação até o final – me refiro ao miolo das pretensões do pensamento “de esquerda” (essa apellation controllée aguada e desbotada que herdamos da fantasia revolucionária francesa), que se quer intrinsecamente aliado ao bem, à verdade e à justiça, bradando seu materialismo histórico (!?!?!?!) contra a besta financeira do apocalipse social mundial e suas variações. Distinção entre o discurso teórico-científico e o discurso político, alguém?

    1. Idelber Responder

      “você perdeu o último fascículo do catecismo” é sen-sa-cio-nal.

  18. Alexandre Nodari Responder

    Tô contigo Idelber, especialmente quando você argumenta que não se debate politicamente SOMENTE em casos que possa haver convergência dos pontos de vista. Nesse ponto, é sempre interessante lembrar as belíssimas palavras de Hannah Arendt (que Habermas tenta enquadrar como uma precursora de sua teoria, junto com Benjamin, em uma falsificação medonha na qual cita uma passagem deste sobre a conversação como forma não-violenta de resolução de conflitos mas omite as frases anteriores, em que Benjamin diz que isso é possível onde a mentira não é punida; aliás, a mentira também era essencial para Arendt): “É verdade que o homem não pode proteger-se contra os golpes do destino, contra os golpes dos deuses, mas pode opor-se a eles e retrucar-lhes no falar e, se bem que esse retrucar não adianta nada, não mude a infelicidade nem atraia a felicidade, essas palavras pertencem ao acontecer como tal”. A fala não é só comunicação (racional), mas também grito, protesto. Quanto ao que o Rapha fala, de Mouffe “espirra” “na hora de mostrar os argumentos do Habermas que justificariam essas acusações”, não posso confirmar porque não li, mas ela pode ter aprendido com o próprio Habermas, que escreveu um artigo malhando Derrida citando-o ZERO vezes. A resposta do Derrida resume a questão a meu ver: “É para sublinhar uma situação infelizmente típica – e politicamente muito grave – numa conjuntura que não hesitarei em qualificar de mundial e histórica; quer dizer que não se poderia exagerar o seu alcance e ela merece sérias análises. Em toda parte, em particular nos Estados Unidos e na Europa, são os supostos filósofos, teóricos e ideólogos da comunicação, do diálogo, do consenso, da univocidade ou da transparência os que pretendem lembrar sem cessar a ética clássica da prova, da discussão e da troca, são eles que o mais das vezes dispensam-se de ler e estudar atentamente o outro, dão prova de precipitação e dogmatismo, não respeitam mais as regras elementares da filosofia e da interpretação, confundem ciência com tagarelice, como se não tivesse sequer o gosto pela comunicação, ou antes, como se tivessem medo dela, no fundo. Medo de quê, no fundo? Por quê? Eis a boa questão.”

    1. Idelber Responder

      Salve, velho, que alegria te ver aqui. Pois é. Esse livro de Habermas, O discurso filosófico da modernidade, onde está não só a “crítica” (não dá pra chamar de crítica, verdadeiramente, um texto que sequer cita ou dá qualquer mostra de ter lido o seu objeto) a Derrida, mas também a Foucault e outros, eu considero uma das maiores fraudes intelectuais do nosso tempo. Como você sabe bem, não vai aqui nenhuma adesão incondicional a Derrida. Eu me dediquei a criticá-lo. Mas seja quais forem os méritos ou as limitações do meu texto, há ali uma atenção ao que Derrida efetivamente escreveu — a coisa avança praticamente frase por frase.

      E como diz Derrida muito bem, são os grandes porta-vez da racionalidade os que se arvoram no direito de escreverem críticas que não dão sequer a mais mínima pista de que houve qualquer leitura. E tem gente que engole isso como modelo.

  19. João Responder

    “Distinção entre o discurso teórico-científico e o discurso político, alguém?”

    Taí, bom desafio pra essa esquerda desbotada. Pior só a direita que beira ao fascismo das conveniências, né?

    1. Fernando Responder

      Tô com o Tiririca: “pior que tá, não fica”. Só para manter uma nesga de esperança, venha de cá ou de lá.

      1. Fernando Responder

        A tempo: não estou dizendo que espero qualquer coisa dessa “direita” troglodita que grassa por aí, pelamordedeus!

  20. Hiro Responder

    C/ todo o respeito, fica clara a intenção do sr. de desmoralizar Habermas ou até de classificá-lo de ‘imperialista’, ‘financeirista’ e ‘irracional’.
    Trata-se de uma total inversão da realidade. Justo quem o sr. assim classifica?
    Na realidade, deveríamos aprender um pouco c/ Habermas e seguir essa mesma preocupação em relação a América Latina, em torno sim dos livres debates públicos, Direitos Humanos, Justiça, Igualdade e Solidariedade.
    O q há de tão ‘abstrato’ nisso?
    E do q tanto se exalta? Dessa Europa ultraautoritária? Há como sustentar políticas e ideologias de Merkel, Sarkozy, Berlusconi etc?
    A exaltação em torno dessa Europa dominada p/ esses autoritarismos, supostamente “Ganhadora”, revela as simpatias estranhas de quem a expressa.
    “Perdeu, playboy” não deveria ser uma expressão para Habermas, mas para aqueles que agem de forma tão distorcida e simplificadora contra obras e autores coerentes.

    1. Idelber Responder

      Nossa, agora você me convenceu! Que riqueza argumentativa! Parabéns!

  21. Claudio Gutierrez Responder

    Confesso, eu era um daqueles habermasianos chatos. Mas vinha das leituras da teoria crítica dos 70.
    Início dos 80 e eu cutucava os posmodernos com o Discurso Filosófico da Modernidade.
    Nessa época vi uma foto no jornal. Uma dupla de peões de latifundiários, armados e à cavalo, lançavam um sem terra descalço pro outro lado de uma cerca (praticamente encima dos arames farpados). Latejou na minha cabeça: “comunidade ideal da fala”. De que jeito!?
    Larguei o alemão (me custou muito, no meio e dissertação).
    É materialismo histórico!
    O resto é literatura (alguém diria, São Habermas).

    1. Idelber Responder

      Perfeito. Resumiu tudo. Leonardo, a resposta que você me pediu está aqui. É só saber ler.

      1. Leonardo Responder

        Nossa, agora você me convenceu. Acontece que eu sei ler. E eu o leio sempre. E percebo a sua total falta de generosidade intelectual, seu oportunismo e sua superficialidade, que sempre estão a favor do seu ressentimento, ao qual você dá roupagens de legítima indignação, na sua imaginária representação dos injustiçados e excluídos. Agora você me convenceu…

        1. Leonardo Responder

          Agora, não quero apenas ficar num tom negativo. Peço desculpas pelo tom exageradamente duro da minha última intervenção. Eu o leio também, Idelber, porque muita coisa que você escreve tem inegável valor. E eu gosto de ler aqueles com quem nem sempre concordo.

          1. Idelber

            Leonardo, eu não o respondi acima porque as perguntas que você fez estão respondidas no texto. É simples assim. Eu também adoro ler pessoas com quem não concordo. Mas não gosto de me repetir quando sinto é perda de tempo. Releia meu texto, releia as perguntas que você fez originalmente, e veja se elas não estão respondidas lá. Se você não viu, no texto, as suas perguntas já respondidas, não será uma longa repetição aqui que vai resolver.

            Aliás, a sua própria agressão acima já é a resposta às suas perguntas: quando o “diálogo” não é encaminhado nos termos em que querem os habermasianos, recorre-se à desqualificação do interlocutor. A sua própria agressão a mim já é a resposta à sua pergunta.

        2. Gugapotter Responder

          “Imaginária representação dos injustiçados e excluídos?”

          Eu, particularmente, não consigo não ficar indignado ao ver os números de violência no campo, de ver quantos sem-terra, ribeirinhos, etc são mortos por latifundiários…

          Vê-se aqui, como os mesmos defensores de Habermas (ou alguns deles) – os mesmos que alegam “não defender o consenso”, mas uma racionalidade convergente, etc etc… – são os mesmos a escamotear as LUTAS DE CLASSE, os CONFLITOS SOCIAIS, dizendo que tudo isso seria uma imaginária representação, nada mais do que um ressentimento.

          Dizem que não defendem o consenso, que Habermas (e os habermasianos) reconhecem o conflito.
          Mas quando falamos de conflito, de indiginação com a atual estrutura assimétrica de poder, aí somos ressentidos…
          Só faltou dizer que sem-terras e latifundiários deveriam se dar as mãos e promover um profundo diálogo entre si, para chegar à melhor solução à ambos…

          >.<

          Ótimo texto Avelar!

  22. Guilherme Responder

    Caro Idelber, tô com o Habermas nessa. O ponto dele é extremamente simples, quase óbvio pra quem quer um mundo mais inclusivo: precisamos de mais, e não menos democracia para enfrentarmos a lógica do mercado. E sim, solidariedade cívica é um requisito para isso, em qualquer esfera. É algo que não se pode garantir, mas se deve buscar fomentar. Isso não exclui, pelo contrário, requer luta social. Acredito ser uma leitura equivocada dizer que Habermas escamoteia os conflitos sociais. Honneth, de uma forma que leio como bem compatível a perspectiva do Habermas, nos mostra bem como toda emancipação se dá por um processo de luta por reconhecimento.
    Abração

    1. Fernando Responder

      Precisamos de mais democracia? Solidariedade cívica? Emancipação? Luta pelo reconhecimento?

      Bitch, please…

      Mais democracia, seja lá o que você queira dizer com isso, significa apenas aumento de complexidade – e isso não é nem necessariamente bom, nem ruim. Para enfrentar, mesmo, a “lógica do mercado”, sugiro o uso de modus tolens e modus ponens.

      Solidariedade cívica, ok, é isso aí, we are the world: vamos pintar a cara, abraçar nossos coleguinhas e cantar laiá-laiá caminhando em direção ao fim do arco-íris, onde encontraremos ouro e todos poderão mudar de sexo.

      Aliás, não basta apenas emancipação: precisamos também de ewomancipação e etranscipação, para acabar com a sociedade falocêntrica. Para isso contamos com o apoio de Forever Alone, Derpina, Impossibru Guy, Chuck Norris e Madimbu.

      Por fim, para celebrar a perpétua Kampf um Anerkennung (eu li o catecismo, embora não vista o hábito…), depois que chegarmos ao fim do arco-iris cantando laiá-laiá, tivermos encontrado o ouro e mudado de sexo, vestiremos todos camisetas de flanela xadrez e calças jeans skinny, portando nossos óculos wayfarer coloridos e nossos iPods, para mostrar ao mundo o que é a verdadeira diversidade.

      Alguém aí já chegou a se entreter com a idéia de que mais leis, mais dinheiro, mais inclusão, mais democracia, mais produção… só servem para confirmar os “pontos de contato”, os “curto-circuitos” do sistema (palavra-chave aqui: crise sistêmica recorrente)??

  23. Glauber Klein Responder

    1. Esquerda e direita são categorias arcaicas, obsoletas. Esqueçam o século passado!
    2. O ‘proton pseudós’ de Habermas – que explica todos os pontos criticados nesse “forum” – é o conceito de unidade. A unidade (seja ela qual for, política ou não) não pode mais ser pensada em sua exclusão do diverso. Por isso, faliu conjuntamente liberalismo e dialética. Ambas operam tacitamente com a negatividade – a negatividade do diverso à unidade.
    Não há mais negatividade, logo, não há mais unidade.

    O que resta? Resta o que estamos vindo-a-ser e não compreendemos ainda.

  24. Gugapotter Responder

    Enfim, pelo menos a impressão que deixou o seu post, Leonardo, foi o de tentar escamotear as lutas sociais, tratando-a como algo meio imaginário… tratando a organização e luta dos excluídos como um mero ressentimento… ao qual os lutadores tentariam dar uma “roupagem de legitima indignação” (como se a luta não fosse legítima, como se a indignação não fosse legítima…)

    A impressão que dá é a seguinte>

    Se criticamos o consenso, vcs falam que Habermas não propõe só o consenso…
    Se usamos um outro meio que não seja o consenso, se usamos a luta para engrandecer os oprimidos, aí vcs falam que somos ressentidos
    ;/

  25. Karl Responder

    Idelber,

    Com o perdão pela demora em voltar à discussão, mas é que fiquei metabolizando o post e o vários e excelentes comentários. Na verdade, foi um soco no estômago mesmo, e gostaria de contar um pouco da minha (mínima) experiência com Habermas.

    Sendo médico, conheci Habermas tardiamente por intermédio do José Ricardo Ayres, grande professor de Medicina Preventiva da FMUSP. Em medicina, a TAC e toda a dinâmica dos atos de fala são fundamentais para que se possa criar uma racionalidade do encontro, externa à dura e fria racionalidade científica que, infelizmente hoje, domina a relação médico-paciente.

    A partir da medicina, tendemos a ter uma visão utilitarista da ciência. Ao cuidarmos de pacientes, a ciência é um luxo que não podemos ter sempre; sempre que a temos, ajuda muito, mas muitas vezes temos que nos virar sem ela. Sendo uma área de fronteira (o bem batido “a mais científica das humanidades, ou a mais humana das ciências”), a medicina é propícia a investigações de ambos os lados. A novidade é que muitos médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde, também estão partindo para uma visão meio utilitarista da filosofia. Utilizar a TAC como uma ferramenta de corte para dissecar uma medicina contemporânea permeada por influências monetaristas, magnetizada pela ciência produzida por grandes conglomerados farmacêuticos, atolada até o pescoço em tecnologismos, perdida em princípios morais de limites imprecisos, foi uma experiência libertadora, pelo menos para mim.

    Não sabia (o suficiente) das controvérsias derrido-pós-moderno-iluministas e das implicações ideológicas e/ou políticas disso e essa é a explicação do tal soco no estômago e também a razão desse post me intrigar tanto. Porém, tendo em vista isso tudo, o espinho embaixo da unha que ainda me atormenta é, em que pese um anacronismo da dualidade “direita-esquerda” do qual não nos livramos e de não tratar-se de uma análise exegética da obra de Habermas e sim, como você disse, de suas intervenções intelectuais, como você vê tal “uso médico” de Habermas? Isso torna nós médicos coniventes com a “crença na busca do consenso, com o escamoteamento dos conflitos sociais ou com a naturalização do conceito de razão”? (Tendo a achar que tais conceitos sejam úteis na prática médica). Seria possível termos uma visão desideologizada de Habermas e ainda assim produzir, em nossa “santa inocência”, algo útil que não seja o dogmatismo que o Nodari chamou a atenção, que não seja um colonialismo iluminista ou como disse o Fernando aí em cima, que se faça uma “distinção entre o discurso teórico-científico (e prático, acrescentaria eu) e o discurso político” de um filósofo? E aí, no limite de tudo, há como se pensar e fazer uma medicina não-iluminista, não-consensualista? (Se tiver referências sobre isso, por favor, pode mandar).

    Sei que esse blog não é terapia, mas às vezes, o papel do professor é esse mesmo.

    Abraço e obrigado

    1. Fernando Responder

      Karl, devagar com o andor que o santo é de barro. Achei muito interessante o estudo utilitarista da teoria da comunicação na medicina, mas me pareceingênuo demais acreditar que essa teoria, por ter consequências deletérias no campo político possa “contaminar” a clínica em que foi usada. Isso seria o mesmo que não usar radiação em medicina porque essa técnica pode ser usada na construção de uma bomba atômica.

      1. Karl Responder

        Opa, Fernando. Ingenuidade é uma especialidade médica! Principalmente, no que se refere a esses assuntos “mundanos”, hehe.

        O post foi um trauma pra mim por eu ter uma orientação esquerdosa e ter aberto os olhos a outras consequências não imediatamente perceptíveis do problema, a nós, pouco afeitos a discussões sobre esse assunto com tal grau de profundidade. O Idelber fala que é apenas sobre uma intervenção do Habermas na imprensa, mas pra mim, é muito difícil captar de um só golpe todo esse panorama. Eu vou meio que tateando…

        A visão utilitarista das coisas é uma outra especialidade médica e ver no texto a tomada ideologizada de um filósofo do tamanho do Habermas foi meio pesado pra mim. Fazer um hiperlongo comentário também não estava no programa e no final, saiu isso. Meio ingênuo mesmo. Obrigado pela resposta.

  26. GamerHeadGirls.Com Responder

    Youre totally correct on this piece…


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