Ocupar Wall Street e o poder constituinte da multidão

Wall Street. Foto: MPR México “A primeira verdade é que a liberdade da democracia não...

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Wall Street. Foto: MPR México

“A primeira verdade é que a liberdade da democracia não estará a salvo se o povo tolerar o crescimento do poder privado até o ponto em que ele se torne mais forte que o próprio estado democrático. Isso é, em essência, o fascismo — a posse do governo por um indivíduo, um grupo ou qualquer outro poder privado que o controle”. Enunciadas nos EUA em qualquer momento das últimas três décadas, estas frases pareceriam de autoria de algum perigoso comunista. Se perguntássemos a um estadunidense médio ou a algum comentarista de mídia quem foi o seu signatário, o mais provável é que ouvíssemos menção a Marx, Stalin, Chomsky ou outro “extremista”. O fato é que essas frases são de autoria de ninguém menos que o mais bem sucedido presidente dos EUA no século XX, Franklin Delano Roosevelt, em mensagem ao Congresso apresentada no dia 29 de abril de 1938. O fato de elas soarem tão subversivas e esquerdistas nos EUA de hoje nos mostra o grau do mergulho do país no neoconservadorismo – e derruba, por si só, outro grande mito dos EUA (e do Ocidente), o progresso humano rumo a uma razão cada vez mais ilustrada. Ocupar Wall Street é, acima de tudo, isto: a primeira revelação em muito tempo, para amplas massas de trabalhadores estadunidenses, de que a História não anda para frente, de que as coisas não melhoram progressivamente.

O momento mais notável do discurso da pensadora e ativista Naomi Klein aos ocupantes de Wall Street foi o contraste feito por ela entre os comentários sobre a ocupação na mídia dos EUA (quando esta não pôde mais ignorá-la) e a reação do resto do mundo ao movimento: “’Por que eles estão protestando?’, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: ‘por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.’ E, acima de tudo, o mundo diz: ‘bem-vindos’”.  Não há contraste mais nítido entre a bolha em que vive a mídia dos EUA e a realidade vivida por milhões de trabalhadores no mundo todo. Fora dos EUA, a pergunta mais recorrente era: “como é possível que eles não se revoltem?”. Dentro dos EUA, permanecia a estupefação: “o que querem realmente os manifestantes de Wall Street?”.

A recorrente alusão a um suposto caráter “vago” das reivindicações do Ocupar Wall Street se tornou uma espécie de mantra, de senso comum universal em todas as referências da mídia dos EUA ao movimento. Na verdade, poucos movimentos são tão claros em seu protesto como o Ocupar Wall Street: o saqueio do bem público pelo capital financeiro; a desapropriação de enormes massas de trabalhadores para que o socorro aos bancos pudesse ser pago com dinheiro público; a precarização das condições de trabalho para que o capital pudesse maximizar seus ganhos; a terceirização como alavanca para multiplicar lucros e evitar o pagamento de benefícios trabalhistas; os bônus exorbitantes a executivos de Wall Street pagos com dinheiro que não foi usado para gerar empregos; o saqueio completo do sistema de saúde pelas empresas de seguros, que mobilizam exércitos de advogados até mesmo para evitar pagar o que devem segundo os contratos que elas próprias escreveram e assinaram; a enorme quantidade de dinheiro doada pelas corporações a políticos cuja tarefa é, esperar-se-ia, a regulação dessas mesmas corporações; a perpetuação da tortura, do assassinato e da produção armamentista como mecanismo gerador de lucro e destrutor do meio ambiente. O que é tão difícil de entender aqui? Até mesmo um garoto de nove anos de idade, Sam Kesler, acampava na recém-nomeada Praça Liberdade com total clareza de seus motivos para estar ali: “o nosso sistema está montado para tirar dos pobres e dar aos ricos. É o contrário de Robin Hood. Não faz nenhum sentido!”.

O garoto de nove anos explicou o movimento com clareza cristalina, mas ABC, CBS, NBC, FOX, CNN e até mesmo o canal “progressista” de notícias, a MSNBC, não conseguem entender: “o que querem os manifestantes de Wall Street? Qual a solução que eles propõem?” O fato de que a mídia americana não “entenda” o Ocupar Wall Street não deve ser debitado simplesmente à hipocrisia ou à má fé. Seria um erro ler a situação nesses termos. Ela não entende o Ocupar Wall Street porque, para o senso comum estadunidense, esse movimento extrapola o imaginável. A mídia americana não entende a ocupação porque já não lhe resta língua para entendê-la. A crítica radical ao capitalismo já não habita a esfera do dizível.

O crítico literário marxista Fredric Jameson resumiu a coisa de forma lapidar: hoje, é mais fácil imaginar a extinção, o fim da espécie humana, que imaginar o fim do capitalismo. É essa completa atrofia no nosso poder imaginativo que o Ocupar Wall Street vem questionar. Confirmação disso é a fúria repressiva com que o movimento foi recebido não só em Nova Iorque, mas em praticamente todas as cidades para as quais se espraiou. A revista Alternet fez a lista das doze leis mais absurdas ou anacrônicas que foram desenterradas para justificar as prisões aos manifestantes. Ela inclui desde a proibição de dormir em público à proibição de que se sente ou se deite nas calçadas de San Francisco, e até mesmo a proibição de que mais de duas pessoas mascaradas se reúnam em lugar público em Nova York, lei que tem mais de 150 anos de idade. A brutal repressão, que tem incluído ataques não provocados aos ocupantes, com prisões em massa realizadas, em geral, de madrugada, enterrou de vez qualquer ilusão de que os EUA seriam um país caracterizado pela liberdade de expressão e manifestação em praça pública.

Como sempre é o caso nas distorções ideológicas, a confusão da mídia americana não é totalmente despropositada. Ela tem o seu fundo de verdade. Ocupar Wall Street é realmente um movimento que aponta para algo que ainda não tem nome, algo da ordem do inimaginável. A sua única aposta é o poder criativo, constituinte da multidão, mas a única possibilidade de sucesso completo seria uma derrubada total do capitalismo financeiro dos EUA, objetivo que ainda não está no horizonte imediato. No entanto, é justamente isso que faz do dito marxiano, no Manifesto Comunista, algo ainda mais relevante e urgente para os dias de hoje: não há nada a perder, a não ser os grilhões.

Este artigo é parte da edição 104 da Revista Fórum.



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10 comments

  1. Catatau Responder

    Muito bom artigo, obrigado! Objetivo e elucidativo.

  2. João Renato Lima Paulon Responder

    BRILHANTE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. Amanda Responder

    Oi Idelber, tudo bem?

    Você tem a habilidade de facilitar o entendimento de ideias que aparentemente são difíceis de se explicar. Já li muitas matérias e artigos na última semana apontando para essa análise que está resumida no seu texto – por outro lado sinto falta de artigos em que os intelectuais se arrisquem a desenhar possíveis respostas para a crise. Você tem ideia de por onde começar? Afinal, quando existem movimentos querendo mudanças, parece que há um movimento contrário e sistêmico, querendo tornar invisível esses desejos por mudança. Para além de denunciar o sistema que vem gerando as crises (o que eu já considero uma semente de mudança), o que podemos propor? Abraços,

    Amanda

    1. Idelber Responder

      Oi, Amanda, obrigado! Então. Esse é o maior angu de caroço, né? Onde esses movimentos vão levar. Que tipo de coletivo eles vão constituir. O que eles vão propor como organização social. Qual é, enfim, a dimensão afirmativa desses movimentos. Eu não tenho resposta para essas perguntas, mas acho que sei de algumas coisas: uma delas é que há uma enorme resistência a formas partidárias institucionalizadas, do modelo derivado da Revolução Francesa. Duvido que o Ocupar Wall Street, e as ocupações todas que estamos presenciando, deem origem a um partido nos moldes dos que existiram até hoje, como as greves dos metalúrgicos de finais dos anos 70, por exemplo, deram origem ao PT. A outra coisa que sei é que todas as Revoluções genuínas constituíram seu programa no interior do seu próprio devir. Ou seja, apostar nessa luta é, de alguma forma, apostar que não sabemos, que a energia revolucionária condensada ali aponta para algo que ainda não tem nome. Mas terá que ser o nome de alguma coisa que não é o capitalismo. Se for absorvida e incorporada pelo próprio capitalismo, deixará de ser energia revolucionária. Disso eu estou convencido: não há capitalismo sustentável. Reformas pontuais no capitalismo não resolverão os problemas que subjazem a essas ocupações.

      Disso aí eu acho que tenho certeza, com o perdão do oxímoro :-)

      Abração.

      1. diego Responder

        Cara, você foi um achado. Assinei a revista por sua causa, adoro sua escrita e o seu foco. Comprei um livro do Hicthens depois de ler seu artigo.
        Gostaria apenas de dividir uns pensamentos sobre o assunto, que anda povoando minha cabeça a ainda não tenho resposta nem idéia por onde começar.
        Tenho pensado em um texto do Ulrich Beck intitulado se não me engano “Liberdade ou Capitalismo”, onde ele afirma categoricamente “interdependencia ou morte”, mostrando como não saída que não seja global, já que os governos nacionais estão presos a seus territórios enquanto o capital transita globalmente. Ele diz algo assim “pior do que ser explorado pelas multinacionais é não ser explorado por elas”.
        Parece uma situação inescapável, não há regulação nem controle social possível localmente, já que qualquer um que ouse cercar o capital padecerá pelo isolamento.
        O que você acha que poderia ajudar a unir globalmente a classe dos não proprietários com tantas barreiras culturais, nacionais, linguísticas etc?

        1. Idelber Responder

          Oi, Diego, obrigado e desculpe a demora. Em todo caso, não tenho resposta à sua pergunta — a não ser aquela velha, batida e indispensável: continuar construindo pontes e canais entre os vários movimentos de excluídos no mundo todo a partir das necessidades que vão se tornando claras no interior da própria luta. A minha próxima coluna na Fórum trata disso, quem sabe ela possa ajudar. Um abraço.

  4. Bosco Responder

    Bem esclarecedor.

  5. Gelso Job Responder

    Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
    Clarice Lispector

  6. Salatiel Responder

    Por aqui o que vimos foi um movimento organizado pelo PSOL, em cujo site, desde 2010, já conclamavam militantes a ocuparem reitorias e praças (Coletivo Levante, etc.) e faziam a apologia da ‘democracia real’, tão difundida em cada local ocupado, junto com as bandeiras de luta do partido. Ou seja: se dizem contra a política institucionalizada, mas reproduzem agenda de partido, sendo também organizados por um. Na USP a ocupação foi feita junto com o PSTU e o PCO, mas foi o PSOL que lucrou mais dividendos políticos divulgando toda a sua cartilha. Anonymous? No: I don’t think so! Aliás, nem aqui e nem lá, em Wall Street, houve alguma alternativa coerente ao capitalismo – ou mesmo a outros regimes de produção e distribuição de riqueza. Menos de 0,001% se colocam como se fossem 99% ao dizerem que falam em nome destes. Aqui, aliás, muitos dos ‘anônimos anticapitalistas’ usavam notebooks e tênis de marca, além dos celulares e filmadoras de último tipo …

    1. Idelber Responder

      Não entendi muito bem. Quem usa notebook não pode protestar contra o capitalismo? Quem ainda não tem uma alternativa “coerente” a Wall Street não pode ocupar as ruas em protesto contra Wall Street? Só podemos tentar fazer algo quando já tivermos a fórmula de como tudo deve ser feito?


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