A participação de Itaipu na Operação Condor durante a ditadura

Pesquisas realizadas pelo escritor e jornalista Aluízio Palmar, fluminense radicado no Paraná e autor de Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?, e pela Mestre em História pela PUC-SP, Jussaramar da Silva, têm...

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Pesquisas realizadas pelo escritor e jornalista Aluízio Palmar, fluminense radicado no Paraná e autor de Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?, e pela Mestre em História pela PUC-SP, Jussaramar da Silva, têm dado, nos últimos anos, mais uma medida de como conhecemos pouco acerca da operação molecular do aparato repressivo da ditadura militar brasileira (1964-1985). Essas pesquisas, feitas na Delegacia da Polícia Federal em Foz do Iguaçu (PR), no Arquivo do DOPS do Paraná e no Centro de Documentación y Archivo para la Defensa de los Derechos Humanos del Palacio de Justicia, no Paraguai, também conhecido como Arquivo do Terror, mostram a estreita colaboração das empreiteiras responsáveis pela construção da usina hidrelétrica de Itaupu na caça, espionagem, repressão, delação e assassinatos de cidadãos brasileiros e paraguaios (e também uruguaios e argentinos) durante as ditaduras do Cone Sul. Palmar vem publicando textos sobre o assunto nos últimos anos, Jussaramar defendeu sua dissertação em 2010 e anteontem foram publicados outras provas no site Documentos Revelados. Mas o assunto não tem sido tratado com muita atenção pela imprensa brasileira.

Essas pesquisas revelam que de 1973 a 1988 Itaipu foi um reduto de militares e policiais torturadores. Durante a ditadura, as AESIs (Assessorias Especiais de Segurança e Informações), vinculadas à Divisão de Segurança e Informações (DSI) e subordinadas ao Serviço Nacional de Informações (SNI), atuavam em instituições públicas como universidades, autarquias e empresas estatais. A AESI instalada na Usina de Itaupu manteve comunicação constante com os serviços de inteligência brasileiro, uruguaio, paraguaio e, a partir de 1976, argentino. Também trabalhou diretamente em sequestros e assassinatos.

O trabalho de Jussaramar da Silva aprofundou a compreensão do extenso envolvimento de Itaipu no terrorismo de Estado. A AESI-Itaipu não apenas espionava, coletava informações e delatava cidadãos para os serviços de informação brasileiro e cone-sulistas. Ela também cumpria o papel de torturar e matar ou “desaparecer” suspeitos de atividades “subversivas” (conceito que, durante a ditadura, como sabemos, era bastante elástico). Entre os inúmeros exemplos, está a informação de que os militares brasileiros responsáveis pelo sequestro e assassinato do médico ortopedista argentino Agostín Goiburú eram vinculados à Assessoria Especial de Segurança e Informações de Itaipu.

No próprio canteiro de obras da usina, operava um aparelho paralelo mantido pelo consórcio de construtoras Unicon, que realizava as ações mais secretas de tortura, assassinato e desaparecimento. Ao contrário das AESIs localizadas, por exemplo, em universidades, que se ocupavam “somente” da espionagem e da delação, a AESI de Itaipu foi também um braço armado da ditadura militar. É mais um exemplo do que poderíamos chamar a dimensão molecular do terrorismo de Estado, seus desdobramentos cotidianos no bojo do próprio projeto de “desenvolvimento nacional” impulsionado pelos militares.

Ainda falta muito, mas a cada peça que se desarquiva, ilustra-se de novo o axioma benjaminiano acerca da inseparabilidade entre documentos de civilização (ou de cultura) e documentos de barbárie. Subjacente às grandes obras do progresso, como sua condição de possibilidade silenciosa, há sempre um rastro de sangue. Essa lição não cessa de reiterar sua atualidade.

Agradeço a Cristina Blanco por ter me chamado a atenção a este material.



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6 comments

  1. Renata L Responder

    E isso, claro, é parte integrante da dificuldade de desarquivar. Como desarquivar, se tanta “gente de bem” que anda por aí hoje posando de bacana cresceu e apareceu nesse período? Tem muita gente interessada em deixar tudo como está.

  2. Jair Fonseca Responder

    Poizé, Idelber, o “nosso” (necessário) desenvolvimentismo tem um preço elevado. Em outros termos, em outros tempos, a engrenagem de que fazemos parte agora ainda é a mesma de antes, a da ditadura, só que transformada, democratizada. Não podemos negar aos que chegam à “nossa” classe média seu direito ao automóvel, à energia elétrica, à pizza entregue em domicílio. Mas a que preço!
    Relembrando a metáfora kafkiana, os supliciados colocamos mais um nó no chicote do carrasco.

  3. Karina Responder

    Olá, boa tarde.
    Sou assessora de imprensa e estamos fazendo um trabalho relacionado ao direito. Gostaria de algum e-mail ou telefone para contato.
    Aguardo retorno.
    Att.,
    Karina Mancini

  4. Felipe Responder

    Prezado,

    Procuro alguém do movimento em Belo Horizonte para fazer um entrevista. O objetivo é falar do SOPA e da PIPA. Queremos fazer uma programa especial sobre o tema.

    Aguardo a resposta.

    Desde já agradeço a atenção.

  5. Valeria E. R. Tuleski Responder

    Eu desisti de estudar Itaipu pela carga necrófila que a construção contém.


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