A guerra da coca

“Nós, mulheres, resolvemos nos organizar porque víamos como os nossos homens sofriam por conta dessa luta. Os militares os matavam e nos maltratavam. Como somos a origem dos homens, não podíamos vê-los morrer e...

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“Nós, mulheres, resolvemos nos organizar porque víamos como os nossos homens sofriam por conta dessa luta. Os militares os matavam e nos maltratavam. Como somos a origem dos homens, não podíamos vê-los morrer e ficar caladas. Também achávamos que com a gente eles não agiriam de forma tão violenta. É verdade que no começo respeitavam mais. Hoje já não é assim. Fazem com a gente o mesmo que com os homens. De qualquer jeito, quem enfrenta a polícia primeiro somos nós, as mulheres. Nos conflitos, levamos tochas na mão para pôr fogo nas bombas de gás que eles soltam. Assim o gás queima e não nos intoxica. Também carregamos vinagre para lavar nossos rostos, dos nossos homens e das crianças. E ainda carregamos pedras nos bolsos, pedras que são atiradas pelos homens, que levam as guaracas (um tipo de estilingue)… Para nós, mulheres das zonas dos trópicos, a melhor escola é a organização sindical. Muitas não sabem ler nem escrever. Nós defendemos a terra que é a mãe de todos. Defender a coca é defender a terra. É defender a nossa história e a existência…”.

Foi falando que Leonilda Zurita, 33 anos, a autora do depoimento acima, havia nos guiado até a região do Chapare, zona cocalera de conflito na Bolívia, começou a primeira parte desta reportagem publicada na edição anterior. E se fosse necessário escolher um símbolo da luta do povo boliviano pela soberania, sem dúvida seria Leonilda. Como muitos cidadãos bolivianos, ela tem uma história sofrida de agressões injustificáveis por conta do plano de erradicação da folha de coca.

Foi com ela, nessa viagem de Cochabamba a Eterezama, que conhecemos o charque, saco de comida vendido por cholas (índias típicas) em locais como paradas de ônibus. Contém ovo cozido, milho, carne seca, batata e pedaços de queijo branco. É provável que o vírus da hepatite que se instalou no fotógrafo Gerardo Lazzari, autor das imagens desta reportagem, tenha sido contraído nessa experiência gastronômica.
Na ocasião, Leonilda estava grávida do seu segundo filho. Um pouco antes, havia perdido um bebê aos oito meses de gravidez. Atribuía o aborto natural à pressão de um processo em que é acusada de ter participado do assassinato de dois policiais e dois militares. E ainda se emocionava ao recordar como batiam sem dó a sua cabeça contra a parede num interrogatório clandestino.

Naquele trajeto de ônibus, ao mesmo tempo em que relembrava as tristezas, sonhava. Falava da futura criança que garantia ser homem. A revelação teria acontecido num sonho e o nome seria Ronaldo. Homenagem ao jogador. Enquanto confidencia isso, comenta que a coca era como um médico. Seus pais a usavam para tudo. Inclusive para matar a fome dos filhos. E ler a sorte. Que, aliás, não vem sendo companheira de Leonilda. Infelizmente, já aqui no Brasil fomos informados de que ela teria sido vítima de novo aborto.

O que adiou seu sonho, mas não a livrou de continuar sofrendo os efeitos do processo pela morte de dois policiais e dois militares que foram (isso é fato) torturados e assassinados por camponeses quando do ataque pelo Exército ao mercado de coca de Sacaba, próximo da cidade de Cochabamba, no caminho de Vila Tunari. Tratava-se de um dos poucos espaços legais para comercialização da folha na região. O fato foi o álibi utilizado pelo Congresso para a cassação de Evo Morales, que havia se elegido deputado em 1997 com 70% dos votos da região. Recentemente, Evo não só se reelegeu deputado com votação maior, como por pouco não se tornou presidente da República. Numa demonstração democrática de repúdio à cassação.

Por conta dessa acusação sem provas, Leonilda tem de se apresentar à Justiça toda segunda-feira. Se quiser viajar ou participar de eventos, necessita de autorização. É criminosa. Até que se prove o contrário. Ou até que aceite a lógica do poder, que não suuporta seu papel de dirigente das seis federações que congregam 650 sindicatos da região. E que não aceita que ela se insubordine por defender seu direito a cultivar o que seu povo sempre plantou. E defender, como diz, os interesses da próxima geração, como o do seu filho, de 10 anos, com o qual não pode morar. Ele vive com sua irmã, porque no povoado onde reside não há escola. Na região do Chapare as escolas são poucas e distantes dos povoados. Aliás, tudo no Chapare é distante, pobre e difícil…

Desenvolvimento alternativo Por conta dessa realidade, desde 1986 os Estados Unidos financiam um projeto denominado Desenvolvimento Alternativo para a Bolívia. Seria algo como a contrapartida para empreender a guerra contra a coca. De um lado, os camponeses param de produzir a planta. De outro, lhes seriam dadas condições para trocar o cultivo da folha por abacaxi, banana, maracujá, palmito e pimenta. Além de ser uma troca ridícula, tudo é puro marketing. E um fracasso. Essa é denúncia fundamental do relatório que a norte-americana George Anw Potter, residente em Cochabamba, enviou ao parlamento de seu país natal.

Segundo ela, desde 1985 foram destinados 500 milhões de dólares ao programa. E a Bolívia, em contrapartida, perdeu com a Guerra da Coca o equivalente a isso. Só que ao ano. O mais grave, porém, é que dessa quantia, a maior parte, segundo o estudo, se perdeu em corrupção, burocracia e investimentos desnecessários. Do que foi realmente aplicado, grande parte destinou-se à construção de acessos e eletrificações de regiões onde há empresas privadas instaladas. Principalmente estrangeiras. E que não têm compromisso algum com qualquer tipo de desenvolvimento alternativo.

No quesito corrupção, Felipe Cáceres Garcia, o prefeito de Vila Tunari, principal distrito de Chapare, dá como exemplo o fato de conseguir construir 1 quilômetro de estrada com 12 mil dólares. Sendo que para o mesmo trecho o governo federal, com recursos do programa, teria gastado 23 mil dólares.

Além disso, ainda se destaca o método equivocado de implantação de muitos projetos, como aponta o Defensor do Povo da região de Chapare, Godofredo Reinicke Borda. “São muitos os erros. Para incentivar a plantação de palmito, por exemplo, se oferecia ao camponês 2 mil dólares. Como ele precisava de três anos para começar a colher, gastava o dinheiro com o cultivo e ficava na miséria ou, como já sabia que aquilo não era suficiente, usava o recurso para comprar um automóvel. E depois, claro, o perdia por não ter condições de mantê-lo.”

Outro ponto tocante do relatório de George Anw Potter é o que diz respeito à questão da terra. Os movimentos políticos do país que são opositores da política de Coca Zero na Bolívia apontam a região de Chapare como rica em petróleo e dizem que esse é um dos motivos para empresas transnacionais quererem expulsar os indígenas dali. No relatório, que está sendo analisado pelo Congresso dos EUA, George Anw Potter sustenta: “A propriedade da terra é uma questão delicada em toda a Bolívia, mas especialmente sensível em Chapare, onde os latifúndios foram repartidos pelos campesinos desde o inicio da colonização. Por isso, eles vêem as manifestações atuais para incluí-los dentro do sistema nacional de titulação como o primeiro passo para vender suas terras a interesses privados. O Plano Dignidade (no qual se inclui o tal Desenvolvimento Alternativo), inclusive, estipula que entre 5 mil e 15 mil famílias campesinas do Chapare terão de ir para outras regiões, não identificadas, do país”.

Sociedade íntegra Numa das noites no Chapare fomos a uma danceteria. Algumas mesas de metal espalhadas por um chão de terra batida. Adolescentes se divertindo. Pedimos chicha, bebida alcoólica de milho vendida em jarras e armazenada num barril de plástico que fica em contato com o chão. A senhora serve o líquido com uma concha de plástico. Uma garota alegre e curiosa traz a bebida. Uma criança dorme sem se sentir incomodada com o volume do som. Enquanto sorvíamos o líquido, trocávamos impressões sobre o que vivíamos naqueles dias.

Os cocaleros da Bolívia defendem sua história. Há evidências arqueológicas de que naquela região desde 2.100 a.C a folha de coca é consumida. Os incas tinham tanto respeito que a denominaram K´oca, que significa sagrado, venerado e único. A folha contém apenas 0,5% da cocaína alcalóide. Não vicia. É rica em cálcio e vitaminas e facilita a oxigenação do sangue. Remédio natural para as adversidades andinas.
Mas ao defender sua história, os bolivianos se defrontam com certa ordem mundial. Em 1962, os EUA tacharam a folha de coca como droga classe A e proibiram o seu comércio internacional. É nos EUA que se encontra a maior população do mundo consumidora da cocaína, hoje considerada droga incontestável. Mas que já foi tratada de forma diferente. Como um dos produtos fabricados pelo laboratório Parke-Davis, que segundo o professor Élson S. Lima, em Drogas na Escola quem Consome o Quê?, o anunciava assim: “substitui a comida, torna o fraco corajoso, o silencioso loquaz e torna a dor suportável”. Além da Parke-Davis, outras companhias ofereciam kits sofisticados de cocaína que incluíam até seringas hipodérmicas. À época ela era legal. Hoje o álcool é legal. De 1918 a 1933 nos EUA era proibido. Tempos da chamada Lei Seca, que tornou Al Capone personagem famoso.

Naquela suposta danceteria que mais parecia um barracão abandonado no meio do nada, enquanto tomava chicha e conversava, ficava divagando. Imaginava outros tempos e outros argumentos. Recordava-me da tese da ausência da alma, que já foi o suficiente para que homens brancos matassem indígenas sem a necessidade de se apiedar. E sempre em nome de uma suposta justiça, de uma causa nobre.



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