Agora todo mundo está me conhecendo de modo mais completo, mais humano

Ele dispensa apresentações. Aos 57 anos e concorrendo pela quarta vez à Presidência da República, o ex-líder sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores acredita que esta é a sua maior chance de chegar...

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Ele dispensa apresentações. Aos 57 anos e concorrendo pela quarta vez à Presidência da República, o ex-líder sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores acredita que esta é a sua maior chance de chegar lá. Na entrevista a seguir, fala de suas prioridades de governo, da área econômica, política externa e garante que um governo seu não ficará isolado do resto do mundo, ao contrário.

Quais seriam as prioridades de um futuro governo do PT? A maior prioridade é a retomada do desenvolvimento econômico com distribuição de renda e justiça social. O Brasil precisa mudar de rumo. Na questão social está a verdadeira dimensão do desenvolvimento econômico que queremos para o nosso país. Ela é a verdadeira face do “risco Brasil”, para usar esse termo tão em moda. Nesse sentido, o Brasil vive uma situação trágica, que pode ser medida pelos índices crescentes de desemprego e pelas conseqüências no cotidiano das pessoas por meio da insegurança e da violência.
É preciso voltar a investir em infra-estrutura, em especial no setor energético, para que possamos superar de vez o risco de apagões, além de melhorar e ampliar as nossas rodovias, portos e aeroportos. E isso pode e deve ser feito com o compromisso de manter a inflação sob controle. Entre 1950 e 1980, o Brasil cresceu a uma taxa média anual de 7,3% – um desempenho extraordinário – que contrasta com a média de 2,44% verificada nos anos do governo FHC. Se o país tivesse mantido um ritmo de crescimento em torno de 7% anuais durante os últimos vinte anos, teríamos um nível de renda per capita de 11 mil dólares, próximo ao da Espanha. função

Como se promoveria esse reaquecimento da economia? O Brasil pode muito bem reorientar sua economia para a inclusão de milhões de excluídos, tendo o social como eixo fundamental. Eticamente, o modelo atual é inadmissível. Politicamente, impede a construção da Nação. E, do ponto de vista econômico, saturou, não consegue mais ir para lugar nenhum.
Incluir milhões de assalariados nos mercados de massa, retirar mais de 44 milhões da linha de pobreza e da miséria absoluta – isso é que vai abrir uma nova fronteira de crescimento para o Brasil. Crescer hoje é o caminho para ampliar a produtividade da economia, pois os novos investimentos já serão feitos incorporando as novas tecnologias. A estabilização será preservada, e até consolidada, na medida em que os ganhos de produtividade serão distribuídos na forma de salários e de investimentos sociais.
Vamos promover a inclusão social estimulando a oferta de bens de consumo de massa, industriais e agrícolas, e ampliando os serviços públicos essenciais. O crescimento da demanda será acompanhado pelo aumento da produção. Vamos também incentivar as exportações de modo racional e firme. O Brasil tem condições de negociar de modo soberano os interesses nacionais em nível mundial. Quem quer produzir e trabalhar só tem a ganhar com o nosso projeto. Inacreditável é ouvir dos nossos governantes, que conduziram o Brasil para a beira do abismo, que mudar de rumo e afastar o nosso país do precipício é que é arriscado.

Qual seria o papel das universidades e de institutos de pesquisa nesse reaquecimento?
Vou contar algumas experiências que tive na visita de dez dias que fiz à China, em maio do ano passado. Participei de debates em centros universitários em Beijing, Xian e Xangai sobre as políticas educacionais e de ciência e tecnologia daquele país gigantesco. Lá há grande integração entre os centros universitários, o que é muito importante para a formação de complexos industriais e empresariais. Ou seja, o avanço da ciência e da tecnologia nas universidades está integrado ao planejamento econômico e impulsiona diretamente o desenvolvimento regional e geral do país.
Outro ponto para qual gostaria de chamar a atenção está relacionado com a educação básica, com a educação tecnoprofissional e com os vários níveis de estágios tecnológicos existentes em um país com a dimensão e a população da China. A educação básica é muito valorizada, e o professor é um profissional da mais alta respeitabilidade no país. Quanto à utilização dos recursos técnicos pela sociedade, há uma política bem interessante: além de o Estado incentivar ao máximo a formação de técnicos de nível médio, faz com que cada região utilize simultaneamente todos os meios técnicos disponíveis. Isso significa que todas as camadas sociais são mobilizadas e organizadas no esforço de desenvolvimento do país, independentemente da tecnologia que dominam: das mais primitivas até as de ponta.

O que será feito do Mercosul em um governo do PT?
Defendemos o fortalecimento e a ampliação do Mercosul. A crise da Argentina demonstra o quanto isso é necessário. A hora é de solidariedade com o país vizinho, de buscar meios concretos para ajudá-lo. É preciso pressionar o FMI para que faça negociações adequadas à situação de crise do país e acredito que a saída passe por uma aproximação com o Brasil.
A nossa história demonstra, a cada dia, que temos um destino comum: ou nos desenvolveremos com integração e soberania ou continuaremos submetidos aos interesses das grandes potências, para a completa infelicidade da maioria dos nossos povos.

E quanto à Alca?
Sou um defensor da integração latino-americana, mas não apenas da integração econômica, comercial, mas também política e cultural. A proposta da Alca, nos termos atuais, é inaceitável. Não é um Acordo de Livre Comércio com os Estados Unidos, é uma proposta de anexação da economia da América do Sul e do Caribe à economia norte-americana. Um projeto de integração pressupõe certa eqüidade entre os membros que participam. Os Estados Unidos detêm a hegemonia tecnológica, militar, cultural e econômica, e não se propõem a ter uma política compensatória como a que a União Européia tem para a Espanha, Portugal e Grécia.
O que se deve esperar de um governo de um país com a importância do Brasil é uma postura soberana em defesa dos interesses nacionais. O protecionismo dos Estados Unidos em relação ao aço, por exemplo, é mais um exemplo do tipo de integração que eles querem nos impor com a Alca. O nosso país precisa lutar de fato pelo fortalecimento e ampliação do Mercosul. Precisa garantir as bases para uma integração solidária e aberta para o mundo, mas com garantia de reciprocidade.
Aproveito para deixar claro que o Brasil não ficará isolado se o PT ganhar a Presidência, como procuram fazer crer os governistas. Nenhum capitalista investe em um país em função do seu presidente ou do seu partido. Veja a situação da China, que é um mercado preferencial dos Estados Unidos. Os capitalistas investem em um país quando são oferecidos três ingredientes básicos: mão-de-obra qualificada, infra-estrutura e mercado para os seus produtos.

Qual a importância do Fórum Social Mundial e de entidades como a ATTAC e outras que fazem o Fórum?
O Fórum é um espaço novo, que abriga ampla diversidade de posições e de caminhos, contrastando com o Fórum dos ricos e poderosos do mundo, o de Davos. Lá, eles discutem como acumular mais riquezas – em Porto Alegre, nós lutamos para distribuir com justiça as riquezas que a humanidade produz com muito trabalho e talento.
Porto Alegre é uma demonstração inequívoca, e mais uma vez surpreendente, de renovação política e cultural, de organização das forças sociais, de propostas políticas concretas e de muita alegria de viver da sociedade civil internacional. As minorias conservadoras de todo o mundo, inclusive as do Brasil, que defenderam e ainda defendem o pensamento único das políticas neoliberais, ficaram impressionadas e preocupadas com o grande poder de iniciativas do Fórum Social Mundial.

O marketing de Duda Mendonça afetou o seu modo de fazer política?
Outro dia, um assessor meu fez um comentário sobre isso com o qual concordo. Ele disse: um dos grandes méritos de Duda é o de revelar com muita maestria o Lula do jeito que o Lula é. Quem me conhece e convive comigo, pessoal ou profissionalmente, sabe que sou assim mesmo, brincalhão, afetivo, espontâneo, contador de piadas e também sério e firme nas negociações e disputas. Acontece que grande parte da população só conhecia o Lula sindicalista ou político, fazendo discurso, de cara fechada. Agora todo mundo está me conhecendo de modo mais completo, mais humano. Os conservadores não se conformam porque nós tomamos o Duda deles.



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