Das montanhas ao ciberespaço

Primeiro de janeiro de 1994. Em muitos lares mexicanos os champanhes estouram comemorando a chegada do ano novo e a entrada em vigor do Nafta (North American Free Trade Agreement) ou TLC (Tratado de...

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Primeiro de janeiro de 1994. Em muitos lares mexicanos os champanhes estouram comemorando a chegada do ano novo e a entrada em vigor do Nafta (North American Free Trade Agreement) ou TLC (Tratado de Livre Comércio), o acordo de livre-mercado entre Estados Unidos, Canadá e México, a tão anunciada porta para o chamado “Primeiro Mundo”, como não cansou de anunciar o governo de Carlos Salinas de Gortari, então presidente mexicano. Mas naquela mesma madrugada de festa, das entranhas do esquecido México “terceiro mundista”, no coração da longínqua selva Lacandona, milhares de mestiços e índios das etnias tzotzil, tzeltal, tojolabal, chol, mame e zoque descem das montanhas para ocupar várias cidades e localidades do empobrecido estado de Chiapas, no sul do país, região fronteiriça com a Guatemala. Surgem das brumas da noite como guerrilheiros do auto-denominado e até então desconhecido “Exército Zapatista de Libertação Nacional – EZLN”, surpreendendo em suas ações-relâmpago não só à sociedade e ao governo mexicanos, mas a todo o mundo.

Em pouco tempo a notícia se espalha. Nos dias seguintes, os principais jornais do planeta estampam em suas páginas fotos dos guerrilheiros “zapatistas”, com seus rostos cobertos por “pasamontañas” e “paliacates”, as máscaras de lã e os lenços vermelhos que ocultam sua identidade. Trechos da “Declaración de la Selva Lacandona”, a declaração de guerra dos rebeldes ao governo e ao exército federais são reproduzidos em vários meios de comunicação.

Nos dois dias em que os rebeldes ocupam e permanecem em San Cristóbal de Las Casas, antiga capital do estado de Chiapas, o subcomandante insurgente Marcos, chefe militar e porta-voz do EZLN, dá entrevistas a jornalistas e correspondentes que chegam em levas da capital e de várias partes do mundo. Também conversa com moradores e turistas atônitos, que não entendem tamanha confusão na pacata cidade colonial. Uma viajante norte-americana quer saber como faz para sair da cidade, pois está de férias e quer prosseguir em seu roteiro turístico. “Isto aqui é uma guerra, minha senhora, mas podemos lhe dar um salvo conduto para sair”, explica um paciente e educado mascarado, apelidado “el sub” Marcos.

Apanhado de surpresa em sua ressaca primeiro-mundista, o governo mexicano não sabe como reagir de imediato. Demora dias para decidir por uma contra-ofensiva militar e, quando envia suas tropas, muitos guerrilheiros já haviam recuado aos seus esconderijos na selva ou nas montanhas. Mas alguns enfrentamentos armados ocorrem na cidade de Ocosingo e os zapatistas, mal armados, levam a pior e têm mais de cem baixas. Manifestações civis na Cidade do México e nas principais cidades do país pedem um cessar-fogo e negociações entre as partes. O EZLN pede ser reconhecido como força beligerante e que suas reivindicações básicas por terra, trabalho, pão, teto, liberdade, dignidade e justiça sejam consideradas.

O armistício só vem uma semana depois e, por sugestão dos zapatistas e pressões da sociedade civil, o governo aceita negociar com os rebeldes e reconhece como mediador o bispo de San Cristóbal, Samuel Ruiz García. “Tatic” Samuel (“padrecito”, em língua tzotzil) era um padre conservador do estado de Guanajuato, mas a partir de sua chegada a Chiapas nos anos 70 e seu contato com as comunidades indígenas e camponesas, transforma-se em expoente da Teologia da Libertação e da defesa dos Direitos Humanos no México. A Conai – Comissão Nacional de Intermediação, presidida por Ruiz e integrada por intelectuais, artistas e dirigentes sociais, impulsiona as primeiras negociações de paz entre os zapatistas e o governo federal a partir de fevereiro de 94 e será a principal instância negociadora até sua dissolução em 97.

Da selva ao ciberespaço Há dez anos os comunicados assinados pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena (CCRI), instância máxima do EZLN, e pelo “sub” Marcos, correm o mundo. A “Declaração da Selva Lacandona” foi publicada na íntegra pelo diário mexicano “La Jornada” já no dia seguinte ao levantamento armado, 2 de janeiro, e prontamente traduzida para o inglês e outros idiomas. Foi o primeiro documento da revolta zapatista, rapidamente colocado em alguns endereços de conferências eletrônicas sobre o México nas redes de comunicação via computadores como a Internet.

Uma eficiente rede de comunicação e solidariedade, utilizando os recursos do correio eletrônico e das redes em todo o mundo por ativistas de Direitos Humanos, simpatizantes da causa zapatista e movimentos sociais alternativos. Desde as primeiras semanas da aparição pública do EZLN, os comunicados da comandância zapatista e os do subcomandante Marcos, repletos de referências culturais, citações literárias, mitologia indígena e com fartas doses de bom humor, já podiam ser acessados eletronicamente de diversas partes do planeta a partir de listas de discussão sobre Chiapas na Internet, que eram abastecidas diariamente com informações frescas sobre o que acontecia na zona de conflito.

O subcomandante tornou-se o primeiro “super-herói da Internet”, como destacou um site norte-americano de web art zapatista. Com um alcance infinitamente superior ao dos seus velhos fuzis e espingardas, que como eles mesmos reconhecem, não têm condições de enfrentar o poderio bélico do exército federal mexicano, os zapatistas e seus comunicados protagonizaram também desde aquele surpreendente 1º de janeiro uma “guerra de informação” praticamente em tempo real, on-line.

O governo mexicano, que durante quase sete décadas de monopólio do PRI (Partido Revolucionário Institucional) no poder, desempenhou um controle explícito e reconhecido poder de influência sobre grande parte dos meios de comunicação do país, sobretudo quando se trata da televisão e o megaimpério Televisa, teve que recuar quando as notícias vindas diretamente da zona de conflito desmentiram a versão oficial de que não havia ataques do exército federal sobre áreas civis. Os comunicados zapatistas e as denúncias dos organismos humanitários circulavam pelo ciberespaço quase em tempo real, abastecendo a imprensa internacional antes que os comunicados oficiais do governo o fizessem. Até a poderosa Televisa, que por suas ligações com o governo mexicano inicialmente foi proibida pelos rebeldes de entrar com suas equipes no território controlado pelo EZLN, teve que noticiar as reivindicações zapatistas durante as tentativas de negociações de paz entre fevereiro e março de 94, em San Cristóbal de Las Casas, já que todos os principais meios de comunicação, nacionais e estrangeiros, estavam lá e davam a notícia.

Além da hábil utilização das redes eletrônicas de comunicação, o movimento zapatista soube trabalhar sua imagem no restante da mídia, conseguindo efeitos surpreendentes. As ações armadas de 1º de janeiro de 94 não foram ingenuamente coincidentes com a data de início do Nafta e eles deixaram clara essa intenção em seus primeiros pronunciamentos públicos. Enquanto o México “primeiro mundista” comemorava o acordo, a face oculta do México milenar ganhava espaço na mídia, com suas raízes indígenas, seus rostos cobertos e suas reivindicações aparecendo nas telas de TV e nas primeiras páginas de jornais e revistas como os novos ícones da revolta popular em tempos “pós-modernos”.

Aqui estamos…
Um guia turístico das ruínas de Palenque, no norte do estado de Chiapas, costuma contar uma história. Uma turista, depois de ficar boquiaberta com a visão esplendorosa das pirâmides maias, virou-se para o guia e disse: “Os edifícios são maravilhosos, mas onde foi parar toda a gente que os construiu?” Ela estava falando justamente com um descendente da cultura maia, que respondeu: “Nós ainda estamos aqui, nós nunca fomos embora” .

Em quase toda a América há vestígios de culturas pré-colombianas que resistiram ao tempo, ou por ele mesmo foram preservados dos saques, da destruição total. Ruínas de civilizações desaparecidas, como as de Palenque, provocam a curiosidade de pesquisadores, sejam eles historiadores, arqueólogos, antropólogos, paleontólogos, botânicos, urbanistas. Mas teriam mesmo desaparecido os criadores de maravilhas arquitetônicas como as pirâmides maias e outros tesouros encontrados ainda hoje do norte ao sul do continente?

A resposta do guia turístico indígena é uma boa pista para dizermos que não. O exemplo vindo de Palenque talvez possa servir para elucidar um dos aparentes paradoxos desse quebra-cabeças: ao mesmo tempo em que inúmeros pesquisadores investigam as causas do colapso da civilização maia clássica, os próprios descendentes estão à sua volta. Aproximadamente um milhão de indígenas de origem maia vivem atualmente no Estado de Chiapas e cerca de 5 milhões estão espalhados pela Península de Yucatán, no México, e em comunidades rurais de Belize, Guatemala, Honduras e El Salvador. Étnica e culturalmente, são descendentes do mesmo povo que criou uma das mais fascinantes civilizações da Meso-América. São herdeiros das pirâmides, observatórios, palácios e centros rituais de Palenque, Tulum, Chichen-Itzá, Uxmal, El Tikal e Copan e dos códices maravilhosos que escaparam das fogueiras espanholas e hoje estão a salvo em museus.

Em Chiapas, onde pelo menos um terço da população de 3,5 milhões é indígena e mais da metade é mestiça, ainda impera um racismo de tempos coloniais. Até duas ou três décadas atrás, índios não podiam andar pelas calçadas de San Cristóbal, a cidade que leva em seu nome o sobrenome de Frei Bartolomé de Las Casas, dominicano que no século XVI desafiou a própria Igreja por discordar de que os índios fossem bichos e devessem ser tratados como tais. Las Casas foi ameaçado de morte e expulso de Chiapas pelos “coletos”, espanhóis ou “criollos” (mestiços) e os auto-intitulados “coletos” de hoje, moradores brancos ou mestiços da velha cidade colonial, continuam em grande parte a não reconhecer nos índios sua humanidade plena ou pelo menos seu direito à cidadania e à auto-determinação.

Terra rica e povo pobre. Em Chiapas estão as maiores reservas de água potável do México, sobretudo na Selva Lacandona, como em Montes Azules, onde rios caudalosos guardam o maior potencial para geração hídrica de energia elétrica. Também o subsolo chiapaneco é privilegiado. Lá estão as maiores reservas estratégicas de petróleo, gás natural e urânio do país. Acima da terra, uma grande diversidade florestal em madeiras nobres. Mas a maioria da população de Chiapas, indígena ou mestiça, padece das doenças mais primárias. Crianças morrem de diarréia, desidratação e outras enfermidades facilmente evitáveis com saneamento básico e comida.

Os indígenas descendentes do maias suportaram séculos de perseguições e exclusão. Foram sendo expulsos de suas terras originais e empurrados para as montanhas ou a selva. Resistiram e há dez anos deram o seu grito de “ya basta”! Como escreveu Marcos, “aqui estamos. Somos a dignidade rebelde…”

“Para todos, tudo…” O EZLN tem se mostrado ao mundo desde sua surpreendente aparição pública, como um movimento armado sui generis, que não se encaixa em classificações ou rótulos normalmente atribuídos aos grupos guerrilheiros ou organizações políticas e movimentos sociais.

Na prática política zapatista convergem a cosmovisão das comunidades indígenas de origem maia, que são suas bases de apoio civis, com seu histórico de resistência; a organização e as formas de luta dos camponeses mexicanos; o pensamento teórico de uma esquerda não dogmática e a participação cidadã da chamada sociedade civil, que luta por transformações radicais pela via pacífica.

As ações políticas do EZLN estão sustentadas também numa concepção de democracia que parte da experiência das comunidades indígenas e é projetada em nível nacional, fazendo a crítica às limitações do atual modelo partidário-eleitoral e propondo novas formas de luta política que combatam radicalmente a exclusão social. São originais em seus métodos e objetivos, e insistem na participação da sociedade civil em um projeto maior de mudanças, onde eles seriam mais um ator, não os únicos protagonistas.

Entre os aparentes “paradoxos” do movimento zapatista, o subcomandante Marcos afirmou – para mais de 6 mil representantes da sociedade civil, reunidos no “Aguascalientes” em plena selva Lacandona em agosto de 94 – em seu discurso à Convenção Nacional Democrática, que as armas do EZLN aspiravam a ser inúteis: “…não é nosso tempo, não é a hora das armas. Ficaremos de lado, mas não iremos embora. Esperaremos até que se abra o horizonte ou não sejamos mais necessários (…) Lutem. Lutem sem descanso. Lutem e derrotem o governo. Lutem e derrotem-nos. Nunca será tão doce a derrota se o trânsito pacífico para a democracia, a dignidade e a justiça resultar vencedor” .

Talvez, sem essa combinação de resistência das comunidades e das bases indígenas do EZLN com a articulação de uma ampla rede de relações políticas e de solidariedade nacional e internacional, o movimento zapatista já teria sido mortalmente golpeado pelo governo e o exército mexicanos. Sua força nunca esteve nem estará nas armas ou na guerra de guerrilhas, e provavelmente por isso a lógica militar que o governo mexicano adotou para tentar vencer o EZLN tem se mostrado incapaz de derrotá-lo.

O futuro do zapatismo, sua conversão ou não à luta política pacífica e sua sobrevivência são incógnitas que irão se resolvendo com o tempo. O conflito em Chiapas mostra-se cada vez mais uma guerra de baixa intensidade de longa duração – com todos os outros conflitos paralelos que ocorrem no estado – e de difícil solução, pelo menos dentro da lógica militar que o governo mexicano vem adotando.
Nesta década de resistência, as iniciativas políticas do zapatismo, estendem a todo momento pontes de diálogo com a chamada sociedade civil, seja a mexicana ou a planetária. Foi assim com a Convenção Nacional Democrática e o incrível “barco perdido na selva Lacandona”, o primeiro “Aguascalientes” de Guadalupe Tepeyac, em 1994. Depois, com o lançamento da Frente Zapatista (FZLN) e o impulso para a criação do Congresso Nacional Indígena (CNI). Em seguida, o “Primeiro Encontro Intercontinental pela Humanidade e contra o Neoliberalismo”, que reuniu milhares de pessoas nos cinco “Aguascalientes” do território zapatista, em 1996.

Desde então, lutam pelo cumprimento dos “Acordos de San Andrés” e pela aprovação da “Lei de Direitos e Cultura Indigena”, que havia sido negociada com os representantes do governo mas foi modificada e mutilada pelo Congresso Nacional, já na era do atual presidente mexicano, Vicente Fox. Então, convocaram novamente a sociedade civil e realizaram a impressionante “Marcha Indígena” de mais de mil quilômetros de Chiapas até a Cidade do México e lá permaneceram por duas semanas, lideranças do EZLN como Marcos, comandantes indígenas e centenas de militantes e bases de apoio, reivindicando seus direitos. E em Chiapas investem desde 1997 na criação dos municípios autônomos, enfrentam a ameaça constante dos grupos paramilitares e ainda encontram forças para colocar no ar desde agosto de 2003 a sua “Rádio Insurgente”. Também “enterram” os cinco “Aguascalientes” que deveriam ter a participação efetiva da sociedade civil e brindam as suas comunidades de apoio com os novos “Caracoles”, centros políticos e culturais para impulsionar o sistema de governo autônomo implementado no território zapatista, denominado “Juntas de Bom Governo”.

Em dez anos de existência pública (ou vinte desde sua criação na clandestinidade), o EZLN já deixou marcas profundamente positivas na sociedade mexicana e contribuiu para a rearticulação dos movimentos sociais, para o crescimento da oposição ao sistema de partido-estado e para que o México mestiço se reconhecesse no México indígena, historicamente marginalizado, que das profundezas milenares e com generosa utopia mostra seu rosto oculto e defende o sonho de “um mundo onde caibam todos os mundos”. O zapatismo reacendeu esperanças que pareciam perdidas e mostrou que ainda é possível lutar contra o esquecimento, a exclusão, o racismo, pela dignidade humana, por democracia, liberdade e justiça. Como dizem os rebeldes chiapanecos: “Para todos todo, nada para nosotros”. 

Para saber mais Alguns sites sobre Chiapas e o EZLN, na internet:
www.ezln.org (EZLN)
www.fzln.org.mx (Frente Zapatista)
www.ezlnaldf.org (Centro de Información Zapatista)
www.utexas.edu/students/nave (Acción Zapatista)
www.chiapas.hpg.com.br (Arquivo EZLN)
www.revistarebeldia.org (Revista Rebeldia)
www.enlacecivil.org.mx (Enlace Civil)
www.nap.cuhm.mx (Nuevo Amanecer Press)
http://chiapas.mediosindependientes.org (Centro de Medios Independientes)

Pedro Ortiz [ortiz@revistaforum.com.br], jornalista e documentarista, diretor da TV USP. Realizou extensa cobertura jornalística do conflito em Chiapas, de 1995 a 1998, produziu dois documentários (“100 Canicas:Chiapas entre Tormenta y Paz”, pela Agência Acopi e “México Rebelde”, pela TV Bandeirantes) e a dissertação de mestrado “Zapatistas On-Line”, pelo Prolam-USP, em 1997.



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