Massacre do Carandiru faz 16 anos e principais envolvidos continuam sem julgamento

No dia 2 de outubro de 1992, cerca de 360 policiais invadiram a Casa de Detenção, em São Paulo. Armados, os militares mataram 111 presidiários e o episódio ficou conhecido como o massacre do...

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No dia 2 de outubro de 1992, cerca de 360 policiais invadiram a Casa de Detenção, em São Paulo. Armados, os militares mataram 111 presidiários e o episódio ficou conhecido como o massacre do Carandiru, considerado um dos mais violentos casos de repressão a rebelião em presídios. Nesta quinta-feira, 6, 16 anos depois, os principais envolvidos da chacina continuam livres. Ninguém foi punido.

"Este massacre foi uma das maiores violações de direitos humanos deste país", afirmou o secretário-geral do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Estado de São Paulo, Ariel Castro Neves. Segundo ele, o único membro da operação que havia sido julgado, o coronel Ubiratan Guimarães, foi inocentado. "A sentença dele abre precedentes para as demais. Infelizmente este caso não terá um desfecho, já que os outros acusados não foram julgados até hoje", diz. O coronel Ubiratan foi assassinado em 2006.

Para Neves, o Massacre do Carandiru é uma vergonha para o Brasil, já que a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou a ação dos policiais e pediu uma punição para os culpados. "Dificilmente ocorrerá esta punição. Isto só expoe negativamente o país."

O técnico de manutenção de informática José (o nome foi trocado a pedido do entrevistado) ficou 15 anos preso no Carandiru e era um dos detidos que presenciou o massacre. Há cinco anos nas ruas, ele, que foi preso respondendo aos crimes de tráfico de drogas e assassinato, descreve o caso com apenas uma palavra: crueldade. "Até hoje me espanto com a crueldade com que eles entraram naquele dia", relatou.

José manca de uma perna porque, segundo ele, foi torturado logo após o episódio. "Eu iria depor, mas me ameaçaram. Até hoje prefiro ficar anônimo", argumentou. Para o ex-detento, o número de mortos é uma controvérsia, já que ele se lembra de ter carregado mais de 50 corpos no dia. "Como 111 famílias reclamaram os corpos, eles fecharam este número. Mas deve ter sido mais de 300", deduziu.

Para ele, a tragédia ficará só na história, até porque, 16 anos depois, não houve julgamento. "Me espanto com o cinismo de dizerem que estávamos armados. Nós não estávamos. Não tenho raiva do Ubiratan, porque ele não foi o maior culpado. Nem dos policias. Tenho raiva do sistema que é despreparado para ações como estas. Se não fosse o ato impensado de um guarda de presídio novato, ninguém teria morrido".

O padre da Pastoral Carcerária de São Paulo, Gunther Zgubic, considera que a falta de julgamento é "um escândalo". "A própria justiça desacredita o processo do Estado Democrático de Direto. Quem vai acreditar nesta justiça que não pune ninguém?", questionou.

Autora do livro As Vozes do Carandiru, Karina Florido Rodrigues lembrou que o massacre é um caso difícil de julgar. "Como provar quem matou quem? Teria que fazer perícias de balas e armas. Isso nunca será feito", contatou. Segundo Noberto Jóia, um dos primeiros promotores do caso, foram indiciados 75 policias. "Passaram-se 16 anos, alguns dos acusados morreram. Este processo é muito complexo, quem redigiu o Código de Processo Penal jamais poderia imaginar um processo com tantos réus", disse.

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