Onde andará o Euclides

A Vila Madalena, em São Paulo, já estava na moda, na década de 1980, mas ainda era um bairro meio alternativo. Não existiam as centenas de bares e restaurantes que infestam suas ruas hoje....

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A Vila Madalena, em São Paulo, já estava na moda, na década de 1980, mas ainda era um bairro meio alternativo. Não existiam as centenas de bares e restaurantes que infestam suas ruas hoje. Aliás, gente de outras bandas que iam ver o que é que a Vila Madalena tinha de tão interessante se decepcionavam, pois não encontrava nada de especial. De vez em quando a gente via algum carro de luxo rodando pela Vila, com rapazes com jeitão de moradores dos Jardins, área rica de São Paulo, e cara de decepção. O que havia de bom era o relacionamento entre os moradores, uma grande quantidade de gente “alternativa” que visitavam uns aos outros, e quando queriam ir a algum boteco o que havia eram umas vendas e uns botequins sujinhos, inclusive o próprio Sujinho, bar mais famoso do bairro, mas para o qual moradores dos Jardins torciam o nariz. Era um boteco simples.
O pessoal que vinha de fora perguntava onde é que havia um restaurante, um bar, e o que mostrávamos eram esses botecos, bares que serviam pratos feitos. Tinha um ou outro restaurante que servia outras coisas, mas nada do luxo que os “turistas” esperavam. Só lá pelo começo da década de 1980 é que alguns argentinos abriram o bar das empanadas, apelido que acabou prevalecendo sobre o nome oficial, Martín Fierro, um lugar que era considerado freqüentável pelos forasteiros e que nós gostávamos também, pois o ambiente era ótimo, as empanadas também, e os donos também.
A “invasão burguesa” ao bairro começou com os yuppies, jovens executivos com mentalidade empresarial, já no final daquela década. Foi quando começaram a construir prédios de aparência luxuosa, ao gosto dos yuppies, que gostavam de se exibir. Eram prédios que muitas vezes tinham um aspecto pomposo por fora, mas os apartamentos eram apertadinhos, ruins. E eles tomavam o lugar de várias casas e principalmente de casinhas de fundos, que eram a marca do bairro. Muitos estudantes e muitas famílias pobres moravam nessas casinhas. E havia também alguns cortiços.
A Célia, minha namorada, morava num apartamento de um predinho velho, de dois andares, na rua Girassol. Eu dormia lá às vezes. De sábado pra domingo, sempre. E todos os domingos, lá pelas nove e meia da manhã, escutava a voz fina e em tom choroso de uma mulher que morava numa casinha de fundos, vizinha ao prédio, falando com Euclides, um filho que tinha sete ou oito anos de idade. Nunca era orientação, palavras de carinho ou elogio. Eram só reclamações, xingamentos e ameaças, sempre em tom de lamento, como se o coitado do Euclides fosse um azar na vida da mãe. Tudo era motivo para bater nele, ameaçar bater ou pôr de castigo. A voz dele mesmo a gente quase nem ouvia. Falava baixinho.
Tínhamos pena do Euclides. Com uma mãe daquelas, que destino teria?
Num daqueles domingos, ouvimos a mulher resmungando fino e alto, mandando o filho trazer seu caderno pra ela ver. Pelo menos, pensei, desta vez era algo positivo, ia ajudá-lo na lição ou ver como ele ia indo na escola. Uns minutos de silêncio e em seguida ouvimos novamente a voz chorosa da mulher:
– Que letra feia, Euclides! Você ainda vai apanhar com essa letra! F



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