Por uma comunicação pública de verdade

O governo Lula tem a chance de realizar uma mudança profunda na comunicação governamental. É isso que defende Bernardo Kucinski, assessor especial da Secretaria de Comunicação de Governo, pasta responsável pelo contato entre a...

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O governo Lula tem a chance de realizar uma mudança profunda na comunicação governamental. É isso que defende Bernardo Kucinski, assessor especial da Secretaria de Comunicação de Governo, pasta responsável pelo contato entre a administração federal e a sociedade.

Jornalista experiente, Kucinski trabalhou em diversos órgãos da imprensa brasileira (como Veja e Gazeta Mercantil) e estrangeira (como o jornal The Guardian e a rede de televisão BBC, ambos britânicos). Foi também co-fundador e co-editor dos jornais alternativos Opinião, Movimento e Em Tempo.

Petista de longa data, Kucinski participou de todas as campanhas de Lula, sendo que sua participação em 98 foi inclusive registrada em um de seus livros, As Cartas Ácidas da Campanha de Lula de 1998 (Ateliê Editorial).

No governo, Kucinski participa de um processo que pretende revolucionar a forma de contato entre governo e sociedade. Ele viajou por vários países conhecendo outros modelos para essa comunicação e analisa que existe no Brasil uma cultura de fazer propagandas do governo, e não campanhas de esclarecimento e informação. “Nós estamos procurando mudar isso, mas é um processo lento e complicado. Precisa mudar a cultura do governo e das próprias agências de publicidade”.

Fórum – Qual deve ser a função da comunicação governamental?
Bernardo Kucinski – Tem que ser um trabalho de divulgação das ações do governo para a população, de esclarecer o porquê de certas decisões e ações, e também um meio de se receber um retorno da população sobre essas ações. Essa é a comunicação para fora, com a sociedade. Mas existe um outro lado que é a comunicação dentro do próprio governo, com o fornecimento de informações para que o presidente e os ministérios possam trabalhar. Uma coisa que só aprendi dentro do governo, e que confirmei em outros países, é que um presidente é uma usina de tomada de decisões, ele decide sobre vários assuntos todo o tempo. Precisa de informações para fundamentar essas decisões e para isso nós produzimos sínteses dos noticiários regional, nacional e internacional. Mas têm que ser sínteses exatas, não pode haver informação supérflua, desnecessária, é preciso ter exatamente o que é necessário sobre cada assunto. Há também a função de saber o que está sendo dito sobre o governo, acompanhando a mídia. E há por último a tarefa de organizar as cartas do presidente. O presidente Lula, recebe muitas cartas e precisamos organizá-las. É um trabalho enorme.

A maior parte desse contato entre o governo e a sociedade é feita por meio de campanhas publicitárias. Isso é prejudicial?
Não exatamente. Quando um governo quer comunicar alguma coisa à população faz uma campanha porque é mais fácil. Existem dois tipos de campanha. Uma é a que faz propaganda do governo, enaltecendo-o, e outra é a que faz um esclarecimento sobre algum programa. Por exemplo, se quero divulgar um programa de microcrédito, faço uma campanha de esclarecimento e, obviamente, isso já é de algum modo uma propaganda para o governo.

O problema é que existe no Brasil uma cultura de fazer propagandas do governo e não campanhas de esclarecimento e informação. Isso nós estamos procurando mudar, mas é um processo lento e complicado, precisa mudar a cultura governamental e das próprias agências de publicidade. As agências devem ser reeducadas para esse novo modelo.

Se quero fazer uma campanha de microcrédito agrícola, não adianta anunciar na Veja, porque ela não atinge o meu público. No Jornal Nacional até adianta, já que ele atinge muita gente. Mas essa campanha teria de chegar até os pequenos jornais regionais. E como a agência vai fazer para atingir esses jornais? Eles não estão acostumados com isso. As agências gostam de trabalhar com grandes públicos, porque é mais fácil. É essa mudança que teremos que realizar. Se nós conseguirmos implantar essa nova cultura, será uma mudança muito profunda na comunicação governamental.

No caso da Agência Brasil, qual é o seu papel na comunicação governamental?
A Agência Brasil é um produto da Radiobrás, uma empresa estatal de direito público, mas estatal. O que está acontecendo com a Radiobrás é que estamos caminhando para que ela deixe de ser um sistema de comunicação chapa branca e seja um sistema público de comunicação, isento. Esse é o caminho que pretendemos. Mas ainda falta aí uma atitude de governo, de aceitar que uma empresa estatal seja independente em relação a ele.



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