Simon Bolivar – Ele sonhou antes… e diferente

Napoleão Bonaparte, o mais famoso militar de todos os tempos, influenciou um sem número de pessoas pertencentes à nata da humanidade. Entre os que se renderam incondicionalmente ao seu fascínio estão músicos como Beethoven,...

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Napoleão Bonaparte, o mais famoso militar de todos os tempos, influenciou um sem número de pessoas pertencentes à nata da humanidade. Entre os que se renderam incondicionalmente ao seu fascínio estão músicos como Beethoven, Berlioz e Schönberg; e escritores como Goethe, Byron, Balzac e André Malraux. Entre tantos ilustres, um destacou-se por ir além de uma admiração sem conseqüências. Em 2 de dezembro de 1804, Simón José Antonio de la Santísima Trindad de Bolívar y Palácios era apenas um venezuelano de 20 anos que estava entre a multidão que assistia, em Paris, à cerimônia de coroação do imperador Napoleão I, feita pelo papa Pio VII. Reza a tradição que nesse momento plantou-se no coração daquele jovem o profundo desejo de grandiosidade que o levaria, alguns anos mais tarde, a tornar-se o libertador das Américas e o propagador maior da idéia de uma única e grande nação latino-americana.

Não que o jovem sonhador tenha tido apenas esta grande influência. Tudo em sua vida sempre pareceu empurrá-lo e prepará-lo para seu grande destino. Descendente de uma rica família basca que se estabeleceu na Venezuela no século XVI, Bolívar perdeu o pai aos três anos de idade, a mãe aos nove e o avô aos dez – as três pessoas que sustentavam seu mundo afetivo –, para terminar aos doze sob os cuidados de um tutor, seu tio Dom Carlos Palácios. Aqui, se revelou um dos primeiros episódios que demonstrariam a fibra de Bolívar. Considerando seu tio um homem rude e ausente, fugiu e buscou abrigo na casa de sua irmã Maria Antônia. Ali começou sua verdadeira formação. Antônia e seu marido contrataram para educá-lo um mestre-escola chamado Dom Simón Rodrigues, um reformista depositário das idéias humanistas de Jean-Jacques Rosseau. Rodrigues viu no órfão aristocrata a pessoa ideal em quem incutir as famosas práticas pedagógicas de Rosseau presentes em seu livro Emílio.

Desde cedo, Bolívar viu seus conhecimentos teóricos germinar nos solos férteis da prática. Em 1797, com apenas catorze anos ingressou no Batalhão da Milícia Branca de Aragua. Nesse mesmo ano, viajou para o México, Cuba e Espanha onde aprofundou seus conhecimentos de história e literatura clássica e moderna, além de aprender francês. Aprendeu também esgrima e equitação. Foi um período em que poliu seu espírito e assimilou mais a contento as regras de convívio social vigentes entre pessoas civilizadas.

Neste período, parece que nada revelava em Bolívar que ali se forjava um futuro revolucionário. O famoso cientista alemão Alexander von Humboldt, por exemplo, que o encontrou em Paris em 1804, declararia décadas depois que havia se enganado completamente sobre o jovem venezuelano, pois à época tomara-o por um “homem pueril e incapaz de uma empresa tão fecunda” como a emancipação da América espanhola, embora visse nele um “sonhador e amante da liberdade dos povos”, de “conversação animada e entusiasmo sustentado pelas criações de uma imaginação brilhante”.

No entanto, quando Humboldt o encontrara, algo já havia se modificado fundamentalmente em seu interior, decorrente de um fato primordial para o redirecionamento de sua vida. Em 1800 ele havia conhecido em Madri o único grande amor de sua vida: Maria Tereza Rodríguez Del Toro y Alayza. Dois anos depois, completamente apaixonado, casou-se com ela e a trouxe consigo para Caracas. Em carta a seu amigo Pedro Joseph Dehollain disse sentir-se “como o ser mais feliz desse mundo” por ter alguém como Tereza ao seu lado. Porém, predestinado que estava a cercar-se de morte, perdeu a esposa em janeiro de 1803, vítima de febre. Bolívar lamentou seu destino, maldisse aos céus e jurou que nunca mais se casaria. Anos depois, porém, admitiria que foi justamente a morte de sua esposa que o impulsionou para coisas mais grandiosas. Bolívar descreveu, em 1828, seu estado afetivo e emocional quando retornou para a Venezuela em 1802 como alguém que tinha a “cabeça cheia dos vapores do mais violento amor e não de idéias políticas”. Sendo assim, sem a morte de Tereza não haveria desaparecido “a vida de doçuras” que levava ao seu lado, e o revolucionário que havia nele poderia continuar adormecido para sempre.

Foi com o coração em luto que voltou à Europa em 1804. Dessa vez, escolheu Paris para sua estada. Lá bebeu em companhia de literatos e políticos e dançou em salões requintados. Em meio à dissipação necessária para esquecer a amada perdida, terminou por ver a coroação do imperador Napoleão, acontecimento que acenderia dentro de si a chama que o iluminaria para seu grande destino. No ano seguinte, viajaria para Roma em companhia de seu mestre Simon Rodriguez. Foi quando, segundo reza a tradição, teria feito, em 15 de agosto de 1805, o famoso juramento do Monte Sacro, onde teria expressado o ideal de libertação da América pelo uso da espada, não descansando até que suas últimas forças fossem consumidas com este objetivo.

A partir desse ponto, começa a morrer o Bolívar insular e prisioneiro de suas tragédias pessoais para nascer o homem generoso e histórico que o jornalista venezuelano Enrique Altazini chamou de “ese maravilloso hombre de pequeña estatura y gran corazón”. O Bolívar que retorna à Venezuela em 1807 tem uma idéia fixa e grandiosa em sua cabeça: libertar a América do domínio espanhol. E tem a seu favor uma visão moderna e humanista de mundo, e uma tenacidade e persistência incomuns. É, ao mesmo tempo, um homem culto e um homem de ação, sabendo manejar tanto as palavras quanto a espada. E, desse modo, inicia-se a história desse herói quase mítico.

Sonho revolucionário
A revolução contra o domínio espanhol começa na Venezuela, em 1810, com a declaração de independência feita em 1811. Nesse ano, torna-se oficial do exército revolucionário. No ano seguinte, os colonizadores retomam o poder. Francisco Miranda, líder da revolução, é preso, e Bolívar deixa o país. Mas em 1819, sob comando de Bolívar e com a ajuda do Haiti, a Venezuela finalmente ganha sua independência, e é convocado o Congresso de Angostura para elaborar as leis da nova nação. Ao mesmo tempo, havia iniciado-se a campanha de libertação de Nova Granada (a atual Colômbia). O exército bolivariano cruza os Andes e após uma cruenta batalha de Boyacá, em 7 de agosto, Nova Granada é libertada. Bolívar então propõe, juntamente com o General Francisco de Paula Santander, a formação de um novo estado, batizado de Grã-Colombia. Constituído em 1821 e composto pelos atuais territórios da Venezuela, Colômbia e Equador, foi a primeira parte da realização do sonho de uma América unificada. Em 1824, Bolívar liberta também o Alto Peru, tornando-se o primeiro presidente desta República que, em sua homenagem, passaria a se chamar Bolívia.

Após anos de lutas incessantes, Bolívar finalmente atingia a glória com que sonhara. Mas este cidadão do mundo que impressionara-se com a unificação dos Estados norte-americanos e com o poder de conquista de Napoleão, planejava realizar uma federação das nações da América do Sul, ampliando a já existente Grã-Colômbia. No entanto, quando Bolívar convocou o Congresso das Nações da América Hispânica, em 1826, apenas quatro países compareceram. E em vez da união e fortalecimento da Grã- Colômbia, ocorreu a ruptura de sua confederação. Os problemas de administração se agigantaram. Em 1826, a Colômbia passou por uma guerra civil, e antigos aliados tornaram-se inimigos, a exemplo de Santander. Bolívar via, cada vez mais desesperançado, o surgimento de processos separatistas. Em 1829, a Venezuela e a Colômbia separaram-se, e o Peru aboliu a Constituição bolivariana. A província de Quito tornou-se independente com o nome de Equador. Desse modo, em 1830, ruiu diante dos olhos do grande visionário o sonho de uma América unificada.

Neste mesmo ano, o herói detentor do título “El Libertador”, conferido pelos parlamentos dos países por ele libertados do jugo espanhol, morreria abandonado, tuberculoso e exilado na Colômbia. Meses antes ainda lamentaria o fracasso de sua tentativa de unificação da América Latina dizendo que seu trabalho foi como passar “o arado no mar”. No entanto, sua obra foi grandiosa, e seu arado cavou fundo na terra firme dos espíritos mais conscientes. No campo das transformações reais, após décadas de deslocamentos por planícies, montanhas e pântanos e de derramamento de sangue em mais de duzentas batalhas, libertou do domínio espanhol as regiões que hoje formam cinco nações: Venezuela, Colombia, Equador, Perú e Bolívia.

No campo teórico, as teses de Bolívar ainda são bastante atuais. Em seu célebre discurso de Angostura, de 15 de fevereiro de 1819, verdadeiro clássico da literatura política, afirma que “el sistema de gobierno más perfecto es aquel que produce mayor suma de felicidad posible, mayor suma de seguridad social y mayor suma de estabilidad política”, e que “a excelencia de un Gobierno no consiste en su teoría, en su forma, ni en su mecanismo, sino en ser apropiado a la naturaleza y al carácter de la Nación para quien se instituye”.

Mas talvez, as melhores palavras para definir o que Bolívar tem a oferecer no lugar das atuais estratégias de dominação econômica das grandes potências são as palavras do general Santander, ex-aliado de Bolívar e personalidade dominante no cenário político emancipacionista colombiano, que se tornou o seu mais implacável adversário, e que o acusou – acusação que é um elogio – de fazer na Grã-Colombia “uma guerra interior na qual ganhem os que nada têm, que sempre são muitos, e que percamos nós, os que temos, e que somos poucos”. Como se vê, nem tanta coisa mudou na perspectiva de certos senhores que discutem um projeto de integração do continente americano.



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