Toque de Brasil

Desde as modinhas e choros no final do século XIX, passando pela música erudita, clássica de concerto, samba, bossa nova, tropicália e até o que temos de mais contemporâneo e experimental, em praticamente todos...

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Desde as modinhas e choros no final do século XIX, passando pela música erudita, clássica de concerto, samba, bossa nova, tropicália e até o que temos de mais contemporâneo e experimental, em praticamente todos os movimentos musicais brasileiros o violão ocupou papel de destaque e por isso cabe a ele e a nenhum outro instrumento o título de dono da alma musical brasileira.

Os principais historiadores do tema sustentam que a história desse instrumento começa com a chegada dos jesuítas ao Brasil. Eles teriam trazido a viola portuguesa, que após diversas modificações no seu formato deu origem tanto à viola caipira, que se popularizou no interior do país, quanto ao violão que ganhou mais espaço nos centros urbanos, tornando-se o instrumento favorito para o acompanhamento da voz. Na companhia do cavaquinho e da flauta, o violão garantiu a existência dos primeiros grupos de choro.

José Ramos Tinhorão, em A História Social da Música Popular Brasileira, conta que os grupos de choro eram tipicamente populares: “Em um tempo em que ainda não aparecera nem disco nem o rádio, os conjuntos de tocadores de flauta, violão e cavaquinho constituíam, pois, as orquestras dos pobres”. O violão naquele tempo era marginalizado pelo mais ricos e não entrava nas salas de concerto, onde só eram admitidos “instrumentos nobres”, como, por exemplo, piano e violino. É no princípio do século XX que a história começa a mudar com Heitor Villa-Lobos e Andrés Segovia.

Fabio Zanon, que tem sólida carreira internacional como violonista clássico, afirma em artigo publicado na revista Violão Intercâmbio que Segovia transforma a visão do instrumento na Europa. “Sua estréia em Paris, em 1924, é um marco na história do violão. Até então o instrumento era visto como uma curiosidade fora dos círculos de aficionados e a carreira de Segovia ainda não se havia projetado fora da Espanha, com a exceção de ocasionais visitas à Argentina. Esse recital contou com a presença de uma multidão de figuras importantes da cena musical parisiense e a surpreendente qualidade artística de Segovia transformou-o numa celebridade num golpe único”.

Grandes compositores europeus de renome começam a compor para Segovia e o violão passa a ser respeitado como um instrumento camerístico na Europa.

Enquanto isso, no Brasil, Villa-Lobos compõe o que se tornaria o repertório mais importante na história do violão mundial. Para Henrique Pinto, importante violonista e respeitado professor e arranjador paulistano, “Villa-Lobos é o divisor de águas do violão mundial”. Segundo Turíbio Santos “é o Chopin do violão”. Os doze estudos que compôs dedicados a Segovia são considerados de igual ou maior importância que os de Chopin para o piano, pelo caráter revolucionário no que diz respeito à técnica do violão moderno. Em suas viagens pelo Brasil, Villa-Lobos se alimentou da música brasileira mais genuína, do folclore e da riqueza e vasta variedade de nossos ritmos. Toda essa pesquisa musical aparece com muita força em sua obra, influenciando de forma contundente os compositores que viriam depois.

A cátedra A chegada ao Brasil do compositor e violonista uruguaio Isaias Sávio foi de grande importância. Em 1947 ele inaugura a cátedra de violão no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, tornando-o um instrumento reconhecido oficialmente. Sávio forma grandes violonistas como Antônio Rebelo (que se tornaria professor de Turíbio Santos), os irmãos Abreu, Luiz Bonfá, Barbosa Lima e Henrique Pinto, que assume o trabalho de Sávio após sua morte. A partir daí o Brasil começa a formar concertistas que teriam carreiras internacionais brilhantes e levariam a música brasileira para o exterior, Turíbio Santos foi o primeiro a ganhar o concurso de Paris em 1965, mas depois dele vieram os irmãos Abreu, Marcelo Khayat, Fabio Zanon e os irmãos Assad.

Numa vertente mais popular, porém não menos importante, tínhamos na mesma época Dilermando Reis, exímio violonista e compositor, de caráter mais seresteiro e melodioso, e Garoto, “o homem dos dedos de ouro”. Por volta de 1939, quando se apresentava nos Estados Unidos acompanhando a cantora Carmen Miranda, seu modo “diferente” de tocar violão chamava a atenção e encantava a platéia composta por grandes nomes do jazz, como Duke Ellington e Art Tatum, que iam ver Carmen e ao final deleitavam-se com ele. Após retornar ao Brasil, Garoto deu continuidade a sua carreira de compositor, apresentando-se em rádios e gravando discos que chegavam a vender mais de 1 milhão de cópias. Algo absurdo para a época. Seu modo único de tocar influenciaria profundamente os maiores nomes da MPB, indicando os caminhos para a bossa nova. “Garoto é extraordinário, e seu violão é o coração do Brasil”, afirmou João Gilberto na ocasião do lançamento do livro Viva Garoto, Gravações Originais.

Em tempos de bossa A bossa nova caminhava a passos largos e fazia muito sucesso no Brasil e no exterior. João Gilberto, Vinicius de Moraes e Tom Jobim eram os grandes nomes da época. Influenciado por toda essa agitação, com sólida formação clássica, alma de chorão, e estilo particular, Baden Powell ainda muito novo começa a freqüentar as rodas dessa nova geração de músicos. No livro, O Violão Vadio de Baden Powell, Dominique Dreyfus, narra o primeiro encontro dele com aquele que viria a ser o seu maior parceiro, o então diplomata-compositor Vinicius de Moraes, que se encantou com o violonista de quem já conhecia o Samba Triste (com Billy Blanco), assim como a reputação de cobra no instrumento. “Baden pegou o violão e o engoliu literalmente.

Tocou Bach, jazz, samba. Admirei-lhe a garra, a precisão rítmica e o balanço, dentro de seu estilo seco de tocar, arrancando música do instrumento pra valer…”, disse Vinicius, segundo Dreyfus. Baden e Vinicius virariam muitas noites compondo à base de cigarro e “cachorro engarrafado” (era assim que Vinicius chamava o uísque, por ser, segundo ele, o melhor amigo do homem). Dessa parceria saíram clássicos da MPB como Apelo, Canto de Ossanha, Samba da Benção e Berimbau. Vinicius e Baden compunham com facilidade incrível e faziam várias músicas numa noite. E quando a inspiração parecia acabada, uma conversinha, mais alguns goles e cigarros e logo surgia outra música.

Os afros-sambas, estilo criado por Baden, destacam-se nas composições. Henrique Pinto comenta: “Baden Powell é um patrimônio da música brasileira, as nuances de sua criatividade não possuem território delimitado, elas extrapolam todo o limite que possamos determinar. É o criador da música afro-brasileira, com uma rítmica determinante e envolvente”. Recentemente o violonista Paulo Bellinati e a cantora Mônica Salmaso regravaram parte desse trabalho em Os afros-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes (gravadora Pau Brasil). O talento de Baden não ficou restrito ao Brasil. Ao contrário, seu reconhecimento maior foi no exterior, onde viveu boa parte da vida. Em 1963, foi para Paris sem falar uma palavra de francês e tornou-se ‘pop star’ da música instrumental na Europa.

A música brasileira pulsa violão. O violão da criatividade genial de Garoto, da explosão de Baden Powell, do swing de Jorge Bem. O violão gago de João Gilberto, da pegada de Leline e do encanto de Dilermando Reis. O violão das poesias de Gil, Caetano, Chico, Milton, Djavan e João Bosco. Do virtuosismo de Turíbio Santos, Marcelo Khayat, Fábio Zanon, Irmãos Assad e Paulo Bellinatti. O violão das bandas da década de 80 e da galera dos 90. Chico César, Zeca Baleiro, Paulinho Moska, Marisa Monte e Arnaldo Antunes. O violão dos barzinhos e das rodas. Do brasileiro musical.

wilson.molinari@ig.com.br



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