Um outro mundo é inteiro

Por mais que muita coisa possa dar errado (e as chances são grandes), os indianos tinham razão: é preciso realizar uma edição do Fórum Social Mundial numa cidade como Mumbai, num país como a...

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Por mais que muita coisa possa dar errado (e as chances são grandes), os indianos tinham razão: é preciso realizar uma edição do Fórum Social Mundial numa cidade como Mumbai, num país como a Índia. O debate sobre um outro mundo possível é completamente diferente do lado de cá.

Num primeiro momento a sensação é de que se está chegando a uma cidade como São Paulo. O caminho do aeroporto ao centro ou ao bairro hoteleiro/turístico de Colaba é um desfile de favelas. Elas se amontoam no que deveria ser o acostamento das vias ou as calçadas das avenidas. Por um momento, isso dá a sensação de que aqui a miséria não está isolada nas beiras da cidade, livrando os moradores das regiões centrais de suas tristes cenas. Isso até é um pedaço da verdade, mas pequeno. O resto se torna mais compreensível na primeira caminhada.

Na metrópole do cinema oriental (Bollywood), onde se produz quantidade maior de filmes que nos Estados Unidos, as cenas do dia-a-dia dispensam direção para levar o espectador ao estado de choque. Seres humanos brotam de todos os cantos num estado mais deprimente que nos rincões do Brasil. Mais do que nos mais altos cerros da Bolívia, o país mais pobre da América Latina.

O enigma indiano Por que esse Fórum vai dar certo mesmo tendo grandes chances de ser um amontoado de problemas? As características de Mumbai vão fazer com que os ocidentais fiquem absolutamente perdidos por aqui. Trata-se de uma metrópole com 16 milhões de habitantes e para ter uma idéia o local onde será o encontro fica na periferia (Goregaon), a aproximadamente 45 minutos de trem da região central. Mas os trens em Mumbai têm características especiais. Nada semelhantes aos dos europeus. Além de muito lotados, têm vagões exclusivos para mulheres. Aliás, diz-se que não é proibido, mas o aconselhável é que elas se separem dos seus parceiros na viagem.

O que mais pode ser problema? Entre outras coisas, o Fórum está sendo organizado na raça. No dia 27 de dezembro à tarde visitamos o escritório da organização. Fica no bairro de Prabhadevi, também na periferia. As aproximadamente vinte pessoas que estavam trabalhando no momento da nossa visita – entre elas alguns brasileiros – tinham dificuldades até para acessar a internet.

Os organizadores do Fórum na Índia não estão tendo apoio do governo de Mumbai, que, ao que tudo indica, ignora o evento. Isso deve fazer com que muita coisa aconteça de forma atabalhoada nos dias do FSM. Gente sem saber para onde ir, com dificuldade para encontrar o local da oficina a que quer assistir, irritada com o buzinaço infernal (aqui se buzina mais em dia comum do que em comemoração de conquista de título da seleção). Mas mesmo assim já apostamos no sucesso desse Fórum.

O ensinamento oriental Os indianos vão ensinar para os militantes de outras partes do mundo que a luta por melhores condições de vida, saúde, trabalho, moradia e dignidade não pode ficar restrita à perspectiva ocidental. Vão mostrar que o buraco é mais embaixo, que esse país de 1 bilhão de habitantes não é só um paraíso religioso ou uma obra de arte hinduísta ou budista. E que é preciso considerar o lado de cá na hora de pensar o mundo.

Pelo lado dos indianos o lucro será a universalização de suas lutas. Um monte de gente em todos os cantos do planeta que está vindo para cá não voltará impune, imune. Vai ser tocada pela mensagem de que é muito mais do que possível, necessário e fundamental. Um outro mundo tem de ser pensado por inteiro e não pela metade.

A guerra não acabou
Destroços em todas as partes, gente carcomida pela miséria, lixo e cheiro ruim. Animais comendo plásticos e pedaços de papel em meio a carros também carcomidos, mas pelo tempo. Um país que parece estar saindo de uma guerra.

Mas não é isso que se lê e ouve. As notícias que vêm da Índia tratam de uma economia que cresce a mais de 5% ao ano, de um país que está dando enorme salto em áreas de ponta como informática e exploração espacial. Fala-se da maior democracia do mundo, com seu 1 bilhão de habitantes e eleições a cada cinco anos. Diz-se até que em termos de paridade de poder aquisitivo é a quarta economia do mundo.

O primeiro ministro indiano Atal Bihari Vajpayee tem conduzido o país de forma adequada pelos caminhos do neoliberalismo. Está possibilitando que o capital internacional administre portos e estradas e está privatizando parte das empresas nacionais.

Hoje a Índia é considerada uma das economias mais abertas do mundo. Suas potencialidades de mercado são destacadas. Sua classe média é comemorada – algo como 300 milhões de pessoas, segundo as vozes de informação liberais e que em 2010 chegaria a 450 milhões.

No que diz respeito às contas, de acordo com a porcentagem do PIB, a dívida externa tem diminuído. Era 38,7 % em 1992 e em 2001 bateu em 22,3%. Entre os países em desenvolvimento, essa é uma das relações mais baixas entre dívida externa e PIB.
Mas Índia é miséria em qualquer canto. É o país dos pedintes, de gente te abordando em todos os minutos com a mão direita fechada a caminho da boca, indicando fome. É o país das crianças que se arrastam nos trens, limpando a sujeira por debaixo dos bancos em troca de 1 rúpia (algo equivalente a 7 centavos). Ou das castas, que organizam por cima a imobilidade social.

Crescimento para poucos
Desde 1951 a Índia realiza planos qüinqüenais que dão norte para seus projetos. Agora está no décimo, que vai até 2007. Ele assume a direção que interessa aos investidores internacionais. Amplia o projeto de privatizações, abre setores econômicos estratégicos para o capital internacional e se compromete a respeitar as diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC) e os acertos com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Esses compromissos que vem sendo cumpridos são elogiados e ao mesmo tempo apontados como fatores do sucesso da economia do país. Mas o crescimento do país não tem sido equânime. De acordo com os últimos dados, o PIB indiano é incrementado por 29,1% da agricultura, que gera 67% dos empregos. A participação da agricultura no PIB, porém, não tem crescido no último período, tendo até diminuído, o que indica concentração de renda.

A Índia é um país que parece estar em guerra, precisa ser reconstruído. Qualquer país nessas condições só tem uma saída, crescer. Cinicamente pode-se dizer que ele cresce por conta de suas incursões neoliberais. Não é assim. Só tem essa opção.

A imagem dos indianos trabalhando de forma voraz chama a atenção. Isso pode ser visto em todos os cantos. Sua capacidade de superação das dificuldades também impressiona. Isso leva a crer que a Índia tem possibilidade de construir um destino diferente, mais próximo da exuberância do Taj Mahal do que da trágica paisagem que se vê nas ruas e pelas janelinhas de trem. Mas isso ainda é uma incógnita. Até porque, os trilhos de hoje são neoliberais. 

rovai@revistaforum.com.br



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