Um passo meio à sinistra

Do início da década de 60 até 11 de setembro de 1973, quando se deu a punhalada fatal, o assassinato de Salvador Allende, então presidente do Chile, muita gente acreditou que uma saída à...

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Do início da década de 60 até 11 de setembro de 1973, quando se deu a punhalada fatal, o assassinato de Salvador Allende, então presidente do Chile, muita gente acreditou que uma saída à esquerda era possível na América Latina. Não à toa. Eram muitos os caminhos que levavam a essa análise. O movimento popular acumulava forças e mesmo sendo derrotado aqui e ali mantinha acesa a chama da mudança. O hoje lembra o ontem.

As vitórias de Lula no Brasil e Lúcio Gutiérrez no Equador, somadas à sobrevivência política de Hugo Chávez e Fidel Castro, mesmo com todas as diferenças entre os quatro, dão novos tons ao mapa geopolítico da parte sul do continente. Ainda há a considerar a ascensão de Evo Morales, na Bolívia, dos movimentos populares da Argentina, a criação de um novo partido (Frente Social Política) na Colômbia e a possibilidade de o movimento zapatista institucionalizar sua luta no México. Ainda há o governo do Partido Socialista no Chile e chances reais de candidaturas progressistas em outros países. E Cuba continua. Para quem comeu o pão que o diabo amassou de meados dos anos 70 até o final dos 90, isso dá certo gás, renova esperanças. Mas a coisa ainda está um tanto quanto “sinistra”, mais à carioca do que na língua italiana, em que a palavra que dizer esquerda.

No Brasil, a vitória de Lula foi conquistada muito em decorrência da força da sociedade civil, hoje uma das mais bem estruturadas do planeta. De qualquer forma, Lula está na mesma linha-de-tiro de outros governantes. Precisa fazer urgentes reformas sociais para não ser tachado de traidor, mas não pode enfrentar o mercado, sua lógica e seu estado-maior, para não ser tratado como inimigo.

Numa das mesas de diálogo realizadas no Fórum, sobre alternativas para a crise econômico-financeira, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, foi claro. “Não é uma boa política para o Brasil acirrar um confronto político-ideológico com os Estados Unidos. Já temos contenciosos demais com eles em relação ao comércio, à situação de Cuba e Venezuela e também quanto ao Protocolo de Kyoto. Precisamos entender que nossa margem de manobra não é grande”, sustentou. Em letra de forma, Dirceu disse: vamos ser moderados em relação à política econômica. Essa é a nossa única opção.
O que está acontecendo na Venezuela é significativo. O ataque a Hugo Chávez se diferencia do praticado contra o governo de Salvador Allende em poucas coisas. No primeiro ano de seu governo, o socialista Allende obteve resultados econômicos significativos. Conseguiu fazer no país redistribuição de renda incrível e direcionou os investimentos para a área social. A participação dos trabalhadores em relação ao PIB cresceu na ordem de 7% a 8%. Chávez, em pouco tempo de governo, convocou uma Constituinte, reformou o Estado, tornou inconstitucional a privatização da PDVSA (petrolífera do país), fez uma nova lei de terra, que possibilita a reforma agrária, e conquistou apoio de amplos setores populares. No caso de Allende, os boicotes norte-americanos (terrorismo econômico) e a ação de setores militares (política do medo) garantiram a derrota do projeto popular. Com Chávez, a estratégia é muito semelhante. Só que a fraqueza do projeto venezuelano tem sido em boa parte sua força.

Blanca Eukhout explica: “Não temos lideranças, não temos partidos, não temos muita organização social. Se por um lado isso é ruim, já que boa parte de nossa sociedade civil é controlada pela oposição, por outro nos pulveriza enquanto alvos de um ataque”. Blanca é uma das diretoras da Catia Tve, emissora comunitária que tem sido extremamente importante para que o governo venezuelano fure o cerco informativo imposto pelos canais comerciais. Aliás, essa talvez seja a grande diferença do ataque a Allende em relação ao que está sendo realizado contra Chávez. No caso venezuelano, a principal arma tem sido a mídia comercial. Ela faz o trabalho antes reservado aos militares.

Por mais que se criem grupos de amigos para tentar resolver o problema venezuelano, não existe nenhuma perspectiva de solução à vista. O choque existente se deve a uma fratura social que foi exposta pelo governo atual, mas que sempre existiu. A maioria dos venezuelanos de classe média para cima não admite que os indígenas e seus descendentes sejam protagonistas políticos e decidam como o país vai se desenvolver e para onde serão destinados os bilhões gerados pela venda de 3 milhões de barris de petróleo/dia. Em defesa dos seus interesses, os venezuelanos mais à Miami não vão desistir. “Creio que essa crise durará até a última gota de petróleo”, brinca Max Arvelaiz, jornalista e assessor para assuntos internacionais de Chávez.

Preconceito puro Se Evo Morales tivesse vencido as eleições bolivianas o país estaria vivendo uma situação muito semelhante à da vizinha Venezuela. Morales construiu toda a sua trajetória na luta pelo direito de cultivo da folha de coca na região do Chapare. É líder do movimento cocalero e representa a força do povo indígena. Na Bolívia, mais ainda que na Venezuela, quase a totalidade da população é indígena ou mestiça. Mas os representantes políticos eram até a refundação do MAS (Movimento ao Socialismo) quase todos brancos, descendentes de europeus.

Segundo o jornalista Alex Contreras, o MAS, que era um movimento em defesa do cultivo da folha de coca e que concentrava sua força fundamentalmente no campo, começa a ampliar seu raio de ação. Em entrevista à Fórum, logo depois de sua derrota em eleição indireta para Gustavo Sanches de Lozada, Evo Morales já sinalizava que o movimento tomaria esse caminho. “Evo percebeu que precisa dialogar com toda a sociedade boliviana para que o MAS se torne um partido hegemônico. Agora, tem discutido muito com os sindicatos urbanos e, por conta da criação de um imposto sobre a renda, essa aliança dos trabalhadores da cidade e do campo deve aumentar”, aposta Contreras. Recentemente o governo de Sanchez de Lozada passou a taxar em 25% os salários dos trabalhadores que ganham algo como 400 dólares, o equivalente a 1,4 mil reais. Isso tem causado muitos protestos de categorias como a dos professores, médicos etc.

No baile à sinistra, o Equador foi a surpresa da festa. A vitória de Lúcio Gutiérrez, um coronel reformado que liderou o movimento que derrubou, em 2000, o então presidente Jamil Mahuad, acusado de corrupção e que havia dolarizado a economia do país, foi relativamente surpreendente. Gutiérrez, como Lula, tem se diferenciado de Hugo Chávez no discurso para o público externo. O objetivo de ambos é o de não atrair a mão forte dos EUA para suas cabeças. Em 12 de fevereiro, Gutiérrez se encontrou com o George Bush e fez questão de pontuar: “O Equador quer se tornar um dos melhores aliados dos EUA em nossos interesses comuns, que incluem combater o terrorismo e o analfabetismo”. Algo bastante parecido com o discurso de Lula, que fala em manter a política econômica, mas em priorizar o combate à fome e também ao analfabetismo.

A situação de Gutiérrez não é simples. Ele foi apoiado pelo movimento indígena do país, que é um dos mais fortes e avançados da região. Esse movimento exige que mantenha seus compromissos de campanha para continuar tendo sustentação. A líder indígena Blanca Chancoso, em conferência no Fórum, destacou que os indígenas de seus país querem usar seus direitos políticos de cidadãos e passar de simples atores sociais para atores políticos. “O momento que estamos vivendo é de certa forma um reconhecimento da luta social que realizamos. Esse vitória do Movimiento Pachakutik em aliança com o Sociedade Patriótica (partido de Gutiérrez) é bastante significativa para nós”. Os Pachakutik, como parte do acordo que garantiu a vitória, têm dois indígenas no ministério: Nina Pacari, das Relações Exteriores, e Luis Macas, ministro da Agricultura.

“Lúcio pode dizer o que quiser, fazer o quiser, mas não pode nem dizer o que quiser nem fazer o que quiser”, brinca Luiz Gómez, editor do sitio Narconews e que esteve no país dos dias 11 a 26 de novembro cobrindo as eleições. Ele garante que se Lúcio Gutiérrez trair os acordos que fez com o movimento indígena organizado não se mantém no governo. “Mas ele tem todas as condições de fazer um governo equilibrado, que avance em muitas conquistas sociais”, afirma.

Dentre os países estratégicos na América Latina ainda há o Chile, a Colômbia, a Argentina e o México – que para alguns têm aberto mão da sua condição hispânica após a assinatura do Nafta. A realidade da esquerda mexicana realmente não é animadora. Apesar de o movimento zapatista continuar sua luta na região de Chiapas e estar discutindo de forma mais séria a possibilidade de institucionalizar-se e vir a disputar eleições, a sociedade do país parece estar apostando no projeto neoliberal. Pesquisa realizada em quinze países, com 15 mil pessoas, coordenada pela Environics International e divulgada pela coordenação do Fórum Social Mundial, é ilustrativa. Uma das questões era se a globalização concentra riquezas ou traz oportunidades para todos. Entre os países participantes, os mexicanos eram os mais otimistas com os efeitos da globalização econômica. Cinqüenta e seis porcento dos pesquisados acreditam que ela traz benefícios para todos, contra 37% que acham que concentra riqueza. Na Coréia do Sul, por exemplo, país que mais rechaça essa globalização, os números são de 75% para concentradora de riquezas, contra 23 que consideram que traz oportunidades.

Na Colômbia, a novidade é a construção de um novo partido, a Frente Social Política, que de certa forma vem para substituir a União Patriótica, praticamente destruída com o assassinato de 4 mil de seus integrantes quando acumulava forças e se preparava com chances para disputar um pleito presidencial. A vitória do ultra-direitista Álvaro Uribe dá a impressão de que o país está absolutamente radicalizado para o outro lado. Não é bem assim. Nas últimas eleições, 53% dos eleitores com possibilidade de voto não exerceram seu direito. E, apesar da vitória de Uribe no primeiro turno, Lucio Garzon, representando a esquerda, teve votação expressiva, maior do que esperavam os analistas políticos. A Farc chamou o voto nulo.

Ramom Azevedo, do Colômbia Action Network, explica que nem todos os votos nulos se devem a essa convocação da guerrilha, mas uma fatia deles sim. “Uma coisa da qual pouco se fala é que mesmo com toda a repressão coordenada pelo governo dos EUA, as Farc cresceram muito enquanto movimento durante os anos 90. Antes disso, o número de guerrilheiros variava de 5 mil a 10 mil, no máximo. Hoje passa de 20 mil. Isso em muito se deve à destruição da Unidade Patriótica e às ameaças e torturas que os camponeses sofrem na luta pela terra e seu direito de viver dela”, avalia.

A situação do Chile é mais curiosa. O atual governo do país é do Partido Socialista, o presidente Ricardo Lagos foi do gabinete de Salvador Allende e tem história política respeitável. Mas sua ação tem sido comparada à de ex-presidentes do Brasil e da Argentina que fizeram tudo que foi mandado por Washington. “O governo de Lagos é o que mais representa a política neoliberal e norte-americana. É um representante da Terceira Via, como Fernando Henrique Cardoso e Fernando De la Rúa. E o que é a Terceira Via? É o caminho para reforçar o capitalismo”, afirma Gladys Marin, deputada e presidente do partido comunista chileno. “Por isso, toda a esperança está agora aqui, com vocês, com o Brasil de Lula. Que a história não se repita, ontem o mundo olhou para o Chile de Allende, e fomos derrotados.”

O que se pode dizer com certeza é que nessa valsa, no dois pra lá, dois pra cá da política latino-americana é possível dizer que estamos a um passo para a esquerda, mas que ainda é preciso muito esforço e seriedade tanto das sociedades civis desses países, como dos governantes de turno, para que o baile se torne mais favorável para amplos setores sociais. E para que outros países sejam influenciados por esse novo jeito de dançar. Mas quem dança diferente não vai ficar quieto. Isso é certo. Tem gente grossa assistindo à festa. Se ela ficar animada, vai fazer de tudo para estragá-la.



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