Una a uno

O que parece mais um título de tango na realidade é a base de um programa tão simples quanto revolucionário, entregar una computadora a un niño, ou seja, cada criança matriculada na escola fundamental...

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O que parece mais um título de tango na realidade é a base de um programa tão simples quanto revolucionário, entregar una computadora a un niño, ou seja, cada criança matriculada na escola fundamental pública do Uruguai recebe um notebook de baixo custo, com acesso a internet e aplicativos educacionais. A ideia não é original, foi lançada ainda em 2005 pelo professor Nicholas Negroponte, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), mas está sendo aplicada pela primeira vez de maneira universal em um país. Dentro do que foi chamado de Plano Ceibal (Conectividad educativa deinformática básica para el aprendizaje en línea), metade das crianças matriculadas da 1ª à 6ª série já recebeu computadores, a outra parte será distribuída até o final deste ano.

O programa, que começou efetivamente em 2007, por um decreto do presidente da República, Tabaré Vázquez, partiu da estratégia de entregar os computadores primeiro numa pequena comunidade rural, depois ir avançando por todo o país até chegar a Montevidéu, na última fase que começou em 8 de junho deste ano. É que a capital conta com aproximadamente metade da população do país, de 3,3 milhões de habitantes e cerca de 320 mil crianças nessa faixa de idade, e tem problemas maiores de violência e pobreza.

Mas desde a concepção do plano até o projeto-piloto na escola Itália, em Cardal, zona rural do Departamento de Florida, visitada pela reportagem de Fórum, muitas etapas tiveram de ser vencidas. Segundo Miguel Mariatti, diretor do plano no Laboratório Tecnológico del Uruguay (Latu), foram discutidas várias hipóteses, entre elas entregar os computadores apenas para alunos a partir da 4a série, mas acabou-se optando pela entrega a 100% deles. Outra discussão foi de quem seria a propriedade da máquina. A decisão tomada foi de que pertenceria à criança, ao completar a 6ª série. “Cruzando todas as alternativas, dava mais de 400 variantes, não havia um modelo ideal, tínhamos de eleger um. Essas opções tiveram impactos no orçamento, mas foi uma decisão de Estado para uma mudança estrutural na educação”, afirma.

Todo o processo de elaboração do plano não foi fácil, por conta não só das opções existentes, mas também de algum receio por parte dos professores, principalmente dos que nunca haviam tido acesso a computadores, além de questões orçamentárias. Para que o programa andasse foi importante a decisão do governo de tratar a iniciativa como estratégica e criar uma comissão política que conta com um delegado de cada uma das instituições ligadas ao projeto, como Ministério da Educação e Cultura, a empresa telefônica estatal, Ancel, a presidência da República, Latu e Universidade da República.

Esse conjunto determina as diretrizes, mas a escolha, o teste das máquinas e sua manutenção são feitos pelo Latu, um organismo paraestatal que controla, por exemplo, todas as importações e exportações do país do ponto de vista de qualidade e conformidade técnica. Segundo Mariatti, essa experiência foi muito importante para o projeto funcionar bem, porque na área de educação não há tanta experiência para a compra de aparelhos tecnológicos nessa proporção. “Quando comecei a trabalhar no Ceibal, só havia a ideia e fui discutir com a comissão da área de educação. Uma das questões era se usaríamos a palavra mouse ou ratón. Na reunião seguinte, na outra semana, a mesma discussão. Resolvemos deixar essas definições para depois, em paralelo, e tocar o projeto em seus aspectos técnicos”, diz. A escolha acabou sendo pelas XO, computadores desenhados pelo MIT e fabricados na China, com uma interface gráfica chamada Sugar, que roda no Linux.

Sem disco rígido, o computador sai por cerca de US$ 200, ou US$ 246 se considerados os gastos em infraestrutura, seguro e assistência técnica. O investimento total é de US$ 100 milhões, o que é possível por conta da importação direta do governo em alto volume e participação da empresa estatal de telecomunicações na instalação da estrutura necessária para acesso à internet.

Escolas sem energia

Depois das decisões tomadas, vieram alguns desafios práticos. Para entregar os computadores era
necessário antes fazer a preparação das escolas. Um dos problemas é que o Estado não tinha um cadastro atualizado. A solução foi fazer um levantamento de georreferenciação de cada escola; depois, localizar cada criança, já que não havia também um cadastro único; e, por fim, um levantamento físico dos prédios. Descobriu-se, por exemplo, que algumas escolas não tinham nem energia elétrica e outras, construídas ainda no século XVIII, possuíam paredes muito grossas ou eram feitas com materiais que dificultavam a transmissão de internet sem fio, como estruturas metálicas.

A cada dificuldade foram encontradas soluções no meio do processo, como afirmam praticamente todos os entrevistados. E com ganhos claros já nessa fase. No caso do cadastro, foi criado um digital que permite hoje, pelo número de identidade de cada criança, saber quem é e em que escola está. Junto a esse número de identidade, quando a criança recebe o computador é cadastrado um código de barras identificando cada máquina. Nas escolas, foi necessário fazer reformas em toda a rede. Para instalar a internet sem fio, em cada lugar houve uma solução diferente, com boa parte recebendo por cabo, outros por satélite e alguns por sinal de celular. A idéia é que cada criança não tenha de se deslocar mais de 300 metros de sua casa para entrar na rede exclusiva do Ceibal, mas isso ainda está longe de acontecer, principalmente por problemas como árvores, prédios e outros obstáculos.

A primeira escola em que as crianças receberam as máquinas, em 2007, coincidentemente completava 100 anos de sua construção e estava localizada numa área rural, em Cardal, no Departamento de Florida, a cerca de 2h30 de Montevidéu. Foi escolhida dentro da estratégia de começar pelo interior e também porque Florida já tinha uma experiência importante, sendo premiada por conta de seu projeto de governo eletrônico, iniciado em 2005, e com o qual se pode substituir, por exemplo, todos os processos em papel por trâmites eletrônicos.
O intendente de Florida, Juan Francisco Giachetto, diz que a implantação do Ceibal foi uma verdadeira revolução nos materiais educativos, mas que seu efeito não é apenas na escola. “Serviu, por exemplo, para que os pais também perdessem o medo dos computadores. Antes tinham de perder um dia de trabalho apenas para ir a Montevidéu ver a cotação do leite, hoje eles ou os filhos acessam o sítio da Conaprole, principal cooperativa do país, e veem a cotação”, conta. Florida é um departamento com 65 mil habitantes, 39 mil na capital, e que responde por 30% da produção de leite e cerca de 20%da carne de corte, dois dos principais produtos de exportação do país.

Esse aspecto de envolvimento também é sempre destacado pelos defensores do programa. O argumento é que não se trata apenas de um projeto educacional, mas sim de cidadania, por envolver e mudar a realidade das famílias, principalmente as mais carentes. “Algumas escolas rurais se convertem em cibercafé, pais vão às escolas quando precisam de informações ou querem aprender sobre computador. Há maior união. Talvez ler e escrever e aprender matemática sejam o menos importante nesse plano”, sustenta Juan Grompone, diretor da empresa Interfase e um dos principais assessores do presidente Tabaré na implantação do projeto. Mas ele acredita que o impacde to educacional é ainda muito difícil de medir, só sendo possível uma melhor avaliação em 2011, quando metade das crianças que receberam os computadores terá terminado o ciclo fundamental. Outra questão é que ainda não se notam, segundo ele, grandes mudanças no comportamento dos pais, porque o computador é das crianças, e muitas vezes elas não emprestam ou os pais não conseguem aprender a mexer.

Outro fator que se discutiu muito foi a preocupação de que as crianças tivessem acesso a conteúdos como pornografia e violência. A solução foi colocar filtros nos servidores das redes, mas a professora Shirley Siri Santos, coordenadora pedagógica do Plano, lembra que isso minimiza o problema, mas não resolve, que o que continua importando é a educação que os pais dão em casa. Ela também destaca que, como não existe antecedente para a experiência que o Uruguai vem fazendo, o aprendizado ocorre a cada dia. “Quando saiu o decreto do presidente da República, o país não estava preparado. Em Florida, as máquinas chegaram no mesmo dia e os professores nem sabiam o que fazer.” Ela destaca que agora eles são formados em dois meses, com o aprendizado de utilização do computador, mas também com a adaptação dos conteúdos teóricos. “Na primeira fase são 40 horas de treinamento para os diretores das escolas e os professores de informática, depois eles treinam os outros professores”, explica. O apoio e o investimento em treinamento são importantes porque entre os professores é muito diferente o nível de assimilação. Há aqueles que desenvolvem portais ou blogues e outros que têm contato com o computador pela primeira vez. Segundo ela, sem o comprometimento dos professores, dos diretores das escolas e dos pais o rendimento do plano é muito menor.

Uma das pessoas que se encantaram com o projeto desde o início foi Hania Villanueva, professora de ensino fundamental da escola Itália, a primeira a receber os computadores. Hania tem um blogue (haniavillanueva.blogspot.com), que diz não atualizar por falta de tempo, mas foi uma das pessoas que se dispuseram a dar palestras e trocar experiências com outros professores. Faz questão de dizer que os computadores são apenas mais uma ferramenta em salas de aula, como os livros, os quadros negros etc., e que não são utilizados o tempo todo. “O que mais motiva é ver o brilho no rosto das crianças e o fato de virem mais à escola. Acabam as aulas, vão para casa, mas voltam e ficam nos arredores acessando a internet, muitas vezes com outras pessoas da família”, explica. Porém, mesmo com restrições, como a de que nem todos podem acessar ao mesmo tempo por conta da limitação da rede, as atividades em sala de aula são muitas.

Pouco antes de a reportagem de Fórum chegar à escola, os alunos estavam aprendendo a usar mapas no Google Maps e vendo onde estavam, calculando a distância de suas casas até a escola etc. Ao perguntar às crianças para o que mais usam os computadores, a resposta mais ouvida é que gostam de jogar e acessar a internet, tirar fotos e fazer filmes. Mas há algumas respostas surpreendentes, como a de Adrian, que diz ser fascinado por tratores e futebol e estava no Google com uma pesquisa sobre essas máquinas. Ele diz que ensinou a mãe e que ela usa para procurar receitas na internet. Procura também notícias sobre Ronaldo, que sabe que está agora jogando no Corinthians. Já Micaela fala que gosta mesmo de jogos e do chat, que tentou ensinar os pais, “mas eles não entendem”, daí desistiu. Junto com a amiga Vivian criaram também contas no MSN para poderem conversar fora da sala ou até mesmo quando a professora não está olhando.

Além do aspecto educacional e de aprender a usar computadores, as crianças também puseram Cardal literalmente na rede. Antes do programa Ceibal, não havia nenhum conteúdo da região produzido para a internet, hoje todas as salas da escola Itália têm blogues. Tiram fotos, fazem pequenos filmes, gravam sons, escrevem textos curtos relatando seu dia-a-dia etc. Para se ter uma ideia, enquanto o repórter fotografava as crianças, era também fotografado por elas nas câmeras que existem nos computadores. Provavelmente o post sobre a visita dos brasileiros foi para a rede bem antes desta matéria ser escrita.

Sobre a possibilidade de difundir cultura local, ficou famoso em todo o país um garoto que filmou o nascimento de um bezerro com seu computador e pôs na rede, indo parar até no site da presidência da República, proporcionando às crianças da cidade verem algo que não faz parte de sua realidade. Toda essa experiência precisa ser bem avaliada e o Uruguai é um laboratório mundial da ideia de um computador para cada aluno. A maioria da sociedade aderiu ao plano de maneira entusiasmada, tornando difícil que o próximo presidente eleito em outubro, seja de que partido for, mude os rumos. Mas como toda experiência piloto, há problemas ainda de funcionamento, na criação de conteúdos pedagógicos para essa nova ferramenta e, principalmente, na definição de como dar continuidade ao projeto depois que as crianças saem do ensino fundamental. Ainda não há respostas para essas indagações, mas com certeza o mundo todo está de olho.



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2 comments

  1. Jesulino Alves

    è.. O mundo é uma rede, cabe a sociedade organizada apropriar e fazer das ferramentas oportunidades para os que ainda não tiveram. A comunicação, não pode ser concentrada e apropriada por poucos, como as riquezas, o dinheiro e poder. Jesulino Alves.

  2. Jesulino Alves

    è.. O mundo é uma rede, cabe a sociedade organizada apropriar e fazer das ferramentas oportunidades para os que ainda não tiveram. A comunicação, não pode ser concentrada e apropriada por poucos, como as riquezas, o dinheiro e poder. Jesulino Alves.

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