A Homofobia no país do futebol

Caso Richarlyson expõe uma das piores chagas da sociedade brasileira, que ainda não aprendeu a lidar com a diferença Por Cristina Uchôa   “Se fosse homossexual, poderia...

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Caso Richarlyson expõe uma das piores chagas da sociedade brasileira, que ainda não aprendeu a lidar com a diferença

Por Cristina Uchôa

 

“Se fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omitir, ou silenciar a respeito. Nesta hipótese, porém, melhor seria que abandonasse os gramados…” A frase consta da controvertida (e posteriormente anulada) decisão do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho ao rejeitar uma queixa-crime proposta pelo jogador Richarlyson, do São Paulo, contra o dirigente do Palmeiras José Cyrillo Jr. O atleta alegava ter sido vítima de injúria feita por meio da mídia, relativa à sua orientação sexual, quando o palmeirense, em um programa de televisão, afirmou que ele seria homossexual.
A opinião do juiz, expressa em sua decisão, lhe rendeu uma investigação por parte da Corregedoria do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e do Conselho Nacional de Justiça. Mas, infelizmente, a homofobia do magistrado – que poderia até resultar em seu afastamento – não é um caso único e nem raro no Brasil. Esse tipo de atitude aparece também nas brincadeiras e comentários jocosos de jornalistas esportivos, dirigentes, jogadores, técnicos e mesmo entre o público que acompanha o esporte.
“Sabemos que o futebol tem um público homofóbico e machista, formado por pessoas que alimentam muito essa cultura”, explica o antropólogo Roberto Albergaria, estudioso das questões relativas ao gênero e à sexualidade. “A cultura homofóbica se desdobra a partir da cultura machista: você projeta no homossexual a figura feminina – geralmente o chamando de ‘mulherzinha’ – como se a ‘mulherzinha’ fosse menos do que o homem, forte”, analisa.
Para o antropólogo, o machismo é latente entre o público e os praticantes do futebol porque é uma forma de sublimar a homossexualidade que fica no ar, “em um limite meio nebuloso”, como define, quando se reúnem muitas pessoas do mesmo sexo. “Para superar essa ambivalência, é preciso afirmar que essa homossexualidade difusa não é uma homossexualidade ‘real’ (exercida)”, explica. Ou seja, há necessidade de negação, reforçando-se o estereótipo do “macho”.
O jornalista esportivo Juca Kfouri tem uma avaliação que vai no mesmo sentido. “O futebol é onde o machismo é mais arraigado. Ele potencializa as qualidades negativas da sociedade. Sempre digo que o futebol não é apenas uma instituição conservadora, mas é profundamente reacionária e corrupta”, afirma, dizendo-se surpreso com a repercussão que o caso teve na imprensa em geral. “Fico estarrecido que no século XXI um fato como esse dê tanto pano para manga, mas isso reflete na verdade a mediocridade geral. E, na mediocridade geral, o jornalismo esportivo tem uma cota para puxar para baixo que não é pequena”, pondera.
Em relação à forma como o assunto foi tratado na mídia esportiva, Kfouri acredita que a “não-notícia” a respeito de Richarlyson ganhou espaço por conta do tratamento habitual que os profissionais da área têm em relação a essa temática. “O jornalismo esportivo reproduz isso e qualquer um desses que tratou do caso de forma sensacionalista para conseguir audiência depois tem aquela postura hipócrita de, quando questionado, dizer ‘não, por mim tudo bem a pessoa ser homos¬sexual’. Aí ficam dando aquelas risadinhas sarcásticas, fazendo piadinhas no ar”, acusa.
O ativista Marcelo Cerqueira, presidente da ONG Grupo Gay da Bahia, defende que a questão da orientação sexual possa ser discutida, mas de uma forma que não esteja relacionada com a competência profissional ou qualquer outro aspecto pessoal. “Para ele [Richarlyson], é muito mais importante como ele joga do que a forma como ele escolheu para desfrutar a vida sexual. E isso não interessa a mais ninguém”, defende.

Se a homossexualidade não condiz com a imagem “varonil”, citada na decisão do juiz, o preconceito contra as mulheres que praticam o esporte é ainda mais difundido. Aline, capitã da seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos de 2007, joga nos EUA, onde o futebol jogado com os pés é “coisa de mulher”, desabafa sobre a existência do preconceito contra as mulheres que praticam o esporte no Brasil. “É complicado porque a gente não vê ninguém perguntando isso [orientação sexual] pras meninas do vôlei, do basquete, do handebol. É só com a gente.”
Marta, camisa 10 da seleção e eleita a melhor do mundo em 2006, tem opinião parecida. A atleta que, segundo os comentaristas de plantão, tem “qualidade técnica para jogar nos melhores times masculinos do Brasil”, joga no Umea da Suécia e observa que essa questão é encarada de forma diferente quando se está fora do país. “Como estou lá fora há quatro anos, fico meio sem saber das notícias, mas é lógico que a gente sabe que tem essas coisas aqui. Lá a gente quase nem ouve falar disso”, garante.

Preconceito reativo
O caso Richarlyson, além de todas as implicações relativas à homofobia, gera ainda outro tipo de questionamento. O fato de se sentir ofendido com a insinuação não seria uma maneira de alimentar o preconceito?
Alguns entendem que sim. A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), em conjunto com quatro outras ONGs – Instituto Edson Neris, Corsa, Coletivo de Feministas Lésbicas e Grupo Identidade –, embora tenha entrado com uma representação contra o juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, deixou claro que não está de acordo com a postura de Richarlyson no caso. Juan Rodrigues, um dos líderes da ABGLT, declarou à imprensa: “Nós estamos contra o juiz, e não a favor do Richarlyson. Na verdade, nós achamos que o jogador pisou na bola, porque ser chamado de gay não é calúnia ou difamação, e ele entrou com um processo desse tipo. O que ele deveria ter feito era apenas ter dito que não era homossexual e pronto”.
Juca Kfouri também crê que a reação do atleta poderia ser diferente. “Quando a Folha de S.Paulo me pediu um artigo sobre o caso Richarlyson, escrevi falando que havia homossexuais em todas as áreas, na medicina, no futebol, no jornalismo… Mas tive vontade de escrever ‘menos, Richarlyson’, por conta da reação dele. Só não fiz para não agravar o problema que estava sofrendo naquele momento”, conta. Procurado por Fórum, Richarlyson não retornou o contato.
A associação de um time de futebol ao homossexualismo se dá com diversas equipes do Brasil na forma de provocação, adotando-se para a maioria a alcunha de “pó-de-arroz”. Isso, para Kfouri, pode ter justificado o processo movido por Richarlyson. “Vêm os assessores do São Paulo, irritados com a fama de ‘bambi’, orientando o rapaz”, aponta. “Se a torcida fizesse uma enorme bandeira com o Bambi do Walt Disney, essa provocação perderia a força e depois acabaria. Poderiam dizer ‘somos bambis e pentacampeões brasileiros’. Mas preferem contestar e, quando você contesta, reforça o preconceito”, crê.
Mas para outros ativistas e estudiosos, prevalece a posição de que a insinuação do dirigente do Palmeiras foi ofensiva e que Richarlyson tinha o direito de se sentir ofendido. “Não foi uma brincadeirinha natural, como eu faço entre meus amigos homossexuais, com quem tenho plena liberdade de chamar de ‘viado’, como os negros têm entre si a liberdade de se chamar de ‘pretos’. Houve um tom de acusação, pelo contexto da fala dele”, afirma Cerqueira.
O filósofo Ricardo Liper, que realiza pesquisas na área das relações homoafetivas, também concorda com a posição do jogador. “Hoje, só não se faz mais piadas sobre negros e judeus abertamente porque há o medo dos processos judiciais. Em relação à homofobia, como ainda não há a lei que proíba, ainda se tem liberdade para falar essas besteiras”, assegura. “Ele teve, sim, razões para se sentir ofendido e fez muito bem de processar [o dirigente do Palmeiras], porque ninguém tem o direito de atribuir a ele o fato de ser homossexual, sendo ou não. Se fosse mesmo e quisesse manter em segredo, era um direito dele, de se preservar para o mundo, para a própria família, contra o preconceito geral”, sustenta.
A defesa do direito de não assumir a homossexualidade é uma posição muito clara entre a maioria dos ativistas. Embora os movimentos estimulem o outing positivo (termo que faz referência à expressão “sair do armário”), também não deixam de defender sempre que ninguém seja obrigado a divulgar sua orientação sexual, ainda que não houvesse preconceito.
O misterioso atleta homos¬sexual que havia prometido assumir sua orientação, aliás, preferiu se manter no anonimato, talvez por se sentir acuado depois de tanta repercussão decorrente da sua provável revelação em um programa de televisão. “Eu me pergunto que tipo de imagem será construída pelo primeiro atleta que assumir publicamente sua homossexualidade”, comenta o jornalista esportivo Juca Kfouri. “Acredito que se um jogador fizesse isso, poderia até ter algum dano à sua imagem em um primeiro momento, mas três meses depois isso acabaria e se tornaria um marco importante”, afirma.
A opinião de Cerqueira é mais cautelosa. Ele acredita que, para o movimento e para o combate ao preconceito no futebol, seria ótimo ter um jogador “assumido”. No entanto, a ausência de amparo, na prática, poderia ter efeitos irreversíveis na vida de um profissional que tomasse essa atitude. “Você acha que, um tempo depois, algum clube gostaria de renovar contrato ou contratar esse jogador? A gente tem que ser realista”, pontua.
O presidente da ONG também acredita, como Liper, que enquanto não houver legislação que coíba esse tipo de atitude, as pessoas vão continuar fazendo essas ditas “piadas de mau gosto” abertamente. “Como se pode deixar que os programas de humor de sábado à noite façam chacota desse jeito, imitando os trejeitos do Richarlyson, somente porque ele esteve envolvido nesse caso?”, exalta-se Cerqueira.
Mas os dias do humor grosseiro podem estar contados. Depois de cinco anos, foi aprovado na Câmara e tramita hoje no Senado Federal, atualmente na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, o projeto de lei que visa a tratar a homofobia como crime específico e equiparado ao crime de racismo. A proposta é de 2001, e tem a autoria da ex-deputada Iara Bernardi (PT-SP).
Ainda que as alterações na legislação e a criminalização da homofobia possam representar avanços importantes, o fato é que uma mudança cultural importante é algo que demanda muito tempo. Por conta disso, Cerqueira se diz cético em relação a um novo tipo de postura por parte da sociedade quanto à aceitação dos homossexuais, comparando a mudança de pensamento com a da superação do machismo. “As mulheres estão aí na luta, há séculos, e quanto se evoluiu? Para a gente, vai ser essa dificuldade toda, também”, pondera.
Liper também corrobora essa visão e espera uma mudança de cada vez. “Acho que a grande maioria do público não é preconceituosa, mas se a lei inibe as piadinhas racistas em público, pode inibir as homofóbicas. Claro que essa minoria vai continuar fazendo piadinha homofóbica como continua fazendo as racistas, mas vai se preocupar mais”, aposta.

Os tablóides britânicos e o nancy boy Cristiano Ronaldo Na Copa do Mundo de 2006, a Inglaterra foi eliminada por Portugal em uma dramática partida nas quartas-de-final da competição. O astro da seleção lusa, Cristiano Ronaldo, acabou se tornando o alvo número um dos tablóides britânicos por ter se envolvido em um lance que resultou na expulsão do craque Wayne Rooney. O jornal The Sun achou por bem não se ater somente à crítica de jogo e taxou o atleta de nancy boy, que é um termo pejorativo para designar homossexuais. O caso fez com que o ativista gay Peter Tatchell solicitasse à Football Association (FA) que representasse contra o jornal na Press Complaints Commission, órgão britânico incumbido de fiscalizar abusos na imprensa. A Federação preferiu lavar as mãos.
No caso da imprensa britânica, não se trata de uma reação xenófoba contra o português. Atletas da seleção local também sofreram com especulações dos tablóides. Antes da Copa do Mundo de 2006, durante meses publicaram insinuações sobre a sexualidade de Joe Cole e Sol Campbell.

A (in)tolerância dos técnicos Em um país em que se louva a disciplina e o estilo “sargentão” de dirigir uma equipe, os treinadores naturalmente têm dificuldades para lidar com a questão da sexualidade de seus jogadores. O ex-comandante da seleção Carlos Alberto Parreira chegou a declarar em 2006 que em 35 anos de carreira jamais havia conhecido um atleta homossexual, algo improvável estatisticamente. “Um jogador assumido causaria um impacto muito forte. Como foi nas forças armadas norte-americanas. O ambiente do futebol reagiria muito, é muito conservador”, analisou à época.
Quem se envolveu em uma discussão com fundo homofóbico, em 2006, foi o treinador Vanderlei Luxemburgo (foto). Após a derrota do seu Santos para o São Paulo por 3 a 1, o comandante alvinegro disparou contra o árbitro Rodrigo Cintra. “Da arbitragem só não gostei de uma coisa. Ele me paquerou o jogo todo. Apitava e olhava pra mim. Não sou veado”, declarou. “Talvez seja pela minha camisa rosa”, ironizou.
Já o atual treinador da seleção portuguesa, Luiz Felipe Scolari, em entrevista ao jornal mexicano La Crónica, na qual teria dito: “Não gosto de ver tantos gays assim. Se descubro que um de meus jogadores é gay, eu rapidamente me livro dele”. Scolari desmentiu mais tarde que tenha feito tal declaração.
Fora do país, o técnico argentino Daniel Passarela, que já treinou o Corinthians, quando estava à frente da seleção de seu país barrou jogadores com cabelo comprido e também proibiu que os mesmos usassem brincos, sob a alegação de que não admitiria atletas homossexuais em sua equipe.



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